domingo, 27 de outubro de 2013

No começo estava o povo de Deus. As vítimas devem estar sempre no centro


Jon Sobrino, s.j.
Teólogo. Director del Centro Monseñor Romero de la UCA

Com essas duas frases, gostaríamos de pôr alguma luz na confusão e, em muitos casos, indignação, que começou no dia 30 de setembro.

Sem aviso prévio e sem levar em conta a dignidade das pessoas, o arcebispado fechou a Tutela Legal (http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=77988). Desde então, houve comunicados dos que demitiram e dos que foram demitidos, mais divulgados os daqueles do que os destes. Logo houve também comunicados de instituições internacionais de renome, da Universidad Centroamericana (UCA) e da Conferência de Religiosos e Religiosas de El Salvador. Mais recentemente, o arcebispo e a promotoria intercambiam opiniões sobre os direitos de ambas instituições com relação aos arquivos.

Muitas outras coisas aconteceram. Algumas são conhecidas pelo povo de Deus; e, a maioria, como costuma ser normal, as desconhecem. Recentemente, o arcebispado nomeou uma comissão de conotados sacerdotes para velar pelos arquivos, para fazer bem as coisas no futuro –e para reparar a imagem do arcebispado, agora deteriorada como quando retiraram os desenhos de Fernando Llort da fachada da catedral. Um camponês formulou como vê o que aconteceu com essas palavras: "Triste. Vergonhoso!”.

1. Os leigos. O povo de Deus e o Socorro Jurídico. "Povo de Deus” é expressão abstrata e seu conteúdo concreto não é muito conhecido pelos salvadorenhos. No entanto, há 50 anos, um Concílio universal definiu o mais real da Igreja de Jesus Cristo com as palavras "Povo de Deus” e não com as palavras "Igreja hierárquica”. Isso quer dizer que bispos, padres, seculares, os chamados leigos e leigas, todos são primordial e igualmente membros da Igreja. As diferenças vêm depois. São diferenças de natureza funcional, e nada dizem da qualidade de vida cristã de seus membros.

Nos anos 70, em El Salvador, foram os leigos que se preocuparam com a violação dos direitos humanos no país e os que defenderam as vítimas. Surgiu o Socorro Jurídico. Muitos salvadorenhos levavam séculos sofrendo a morte lenta da pobreza, da violência originária. Porém, nos anos 70, a essa morte uniu-se a morte rápida da repressão. Clamava aos céus e o grupo de leigos citado, no qual havia advogados, ou seja, gente do direito, se moveu em sua defesa com a novidade de defendê-los também no âmbito dos direitos humanos, que eram grosseiramente violados. Daí o adjetivo jurídico [de Socorro] e depois o adjetivo legal [da Tutela].

Um jesuíta, o Pe. Segundo Montes, a quem Benjamín Cuéllar recorda no artigo que publicamos a seguir, acompanhou e aglutinou ao grupo no Externato San José, Dom Romero reconheceu que o Socorro Jurídico era importante colaborador seu na defesa das vítimas e na denúncia dos vitimários. De fato, na primeira página do Diário de Dom Romero [que tal como se vê, começa na sexta-feira 31 de março de 1978] aparece a referência Socorro Jurídico. Menciona algum nome de seus membros e fala de tarefas concretas... E agrega: "Agradeci-lhes e manifestei-lhes minha satisfação pela acolhida que prestaram ao chamado e pela boa vontade que manifestaram como advogados de consciência cristã”.

Mias tarde, surgiu a Tutela Legal. Até o dia de hoje, com Tutela trabalharam outros bispos, outros sacerdotes e outros leigos/as. O nome de María Julia Hernández é entranhável e inesquecível. Nesses trinta anos, houve cooperação e tensões entre eles. Historicamente, costuma ser o normal.

Agora, entramos em um novo período. Porém, seja qual for a novidade, insistimos em que os direitos humanos é responsabilidade de "todo o Povo de Deus”. Recordo isso porque não é nenhuma sutileza teológica rotineira, mas uma necessidade cristã e histórica. Os leigos são responsáveis como também são outros membros do Povo de Deus, ministros e hierarcas. Têm a mesma dignidade. Uns e outros devem tratar-se com o mesmo respeito.

2. A hierarquia a serviço de todo o Povo de Deus; não acima dele. Na Igreja, há leigos/as e há hierarquia. O Vaticano II disse que, acima das diferenças, deve-se enfatizar que ambos fazem parte por igual do povo de Deus. Sem dúvida, a potestas, o poder ministerial da hierarquia, oferece possibilidades para fazer o bem; porém, tal como demonstra a história, e como todo poder, tem sempre perigos. "Que digam as coisas a mim que sou reitor de uma universidade”, dizia o Pe. Ignacio Ellacuría.

Em democracia se dá por sentado que esse perigo deve ser superado ou, pelo menos, limitado. E, por isso, se insiste na obrigação de "prestar contas”, no que insistia o PE. Dean Brackley, a quem acabamos de recordar nesses dias. Falava muito da necessidade de "accountability”. E em coisas de Igreja, além da democracia, sempre fica o Evangelho, sua exigência e sua utopia: os que estão acima, que se abaixem, disse Jesus.

Ante acontecimentos públicos que geram grave confusão, como aconteceu com o fechamento de Tutela Legal, a história, a democracia e as tradições evangélicas oferecem outros modos de atuar: a disponibilidade para explicar as decisões de antemão e com argumentos convincentes; o diálogo prévio; a prestação de contas e a atitude acolhedora.

Seguindo com a utopia, o ideal é que o Povo de Deus seja exemplo de solidariedade. Certamente, como ajuda e defesa dos que necessitam. Porém, além disso, no Povo de Deus, deveria existir outra forma de solidariedade, que não diminui a mencionada; ao contrário, a incrementa: "carregar, mutuamente, uns aos outros”, ministros, leigos, hierarcas. E quando há agravos, reais ou supostos, que haja a disponibilidade ao diálogo sincero e ao perdão. Com relação à hierarquia, é uma forma de abaixar-se para servir que a utopia evangélica toma. E não se deveria esperar que isso comece pelo outro. Quando essa solidariedade acontecer, o Povo de Deus dará uma grande ajuda ao país.

3. Pelo menos na retórica, parece que na presente conjuntura de conflitos há coincidência de que o mais importante são as vítimas. O Socorro Jurídico primeiro e Tutela Legal depois promoveram nesse país "a memória histórica”. Durante anos, espalharam amor para milhares de perseguidos, assassinados, desaparecidos, os que têm que migrar para poder viver, especialmente mulheres e crianças. Ambas instituições mantiveram milhares de vítimas com vida e com dignidade.

O Pe. Ellacuría as chamou o "Povo Crucificado”. E Dom Romero, depois que o exército assassinou a mais de uma centena de camponeses, no dia 19 de junho de 1977, disse em Aguilares: "Vocês são o Divino traspassado”. E não só lhes deu dignidade com essas palavras, como que confessou ante eles, indefesamente, como entendia sua missão de arcebispo: "Vou recolhendo os cadáveres”. Essa era, ex officio, sua tarefa fundamental por ser arcebispo. "Recolher cadáveres” é uma forma vigorosa de expressar o que todo o Povo de Deus deve fazer com as vítimas. O Socorro Jurídico, Tutela Legal, o IDHUCA e todas as instituições de direitos humanos podem assumi-las. E também todos os membros de todas as igrejas salvadorenhas de qualquer confissão religiosa.

Importantes são os arquivos com nomes, inventários; que estejam bem protegidos. Importantes são as ONGs e sua contribuição. Porém, isso não substitui o "recolher cadáveres” de Dom Romero e de outros nesse país, mártires muitos deles.

4. Deus sabe qual será o futuro de Tutela Legal. Os acontecimentos desses dias não deveriam levar a que diminuam e se empobreçam suas tarefas; mas, que cresçam e melhorem. Que as discussões existentes sirvam para levar luz ao Povo de Deus. E que não levem ao desejo, compreensível, porém, não muito cristão, de "ter mais razão do que o outro”.

As reflexões que acabamos de fazer podem parecer excessivamente conceituais, inclusive complicadas apesar de que pretendam ser simples e trazer luz aos fatos. Termino agora com as palavras de Pedro Casaldáliga, estas, sim, breves e claras: "Tudo é relativo menos Deus e a fome”. E em El Salvador, bem podemos dizer: "menos Deus e as vítimas”.

22 de Outubro de 2013

[Publicado em espanhol, em Carta a las iglesias 642. Centro Monseñor Romero, UCA San Salvador].


Traduzido por Adital

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

“A corte é a lepra do papado”, afirma Francisco


O jornal La Repubblica, 01-10-2013, publica entrevista que o papa Francisco concedeu ao jornalista Eugenio Scalfari. Scalfari escreveu duas cartas a Bergoglio, as quais foram respondidas pelo próprio Papa, que agora aceitou o convite do jornalista, fundador e primeiro diretor do jornal La Repubblica.

Eis a entrevista.

Disse-me o papa Francisco: “O mais grave dos males que afligem o mundo nestes anos é o desemprego dos jovens e a solidão em que são deixados os idosos. Os idosos necessitam de cuidado e de companhia. Os jovens precisam de trabalho e de esperança, mas não têm nenhum dos dois. Diga-me: pode-se viver jogado fora do presente? Sem memória do passado e sem desejo de projetar-se no futuro construindo um projeto, um futuro, uma família? É possível continuar assim? Isto, segundo me parece, é o problema mais urgente que a Igreja tem pela frente”.

Santidade lhe digo, é um problema sobretudo político, diz respeito aos Estados, aos governos, aos partidos, às organizações sindicais.

Sem dúvida, o senhor tem razão, mas diz respeito à Igreja, sobretudo à Igreja, porque esta situação não fere somente os corpos, mas também as almas. A Igreja deve sentir-se responsável tanto pelas almas quanto pelos corpos.

Santidade, o senhor diz que a Igreja dever ser responsável. Devo deduzir que a Igreja não está consciente deste problema e que o senhor a incita nesta direção?

Em grande medida, existe a consciência, mas não o bastante. Eu desejo que ela seja maior. Não é somente este problema que temos pela frente, mas é o mais urgente e o mais dramático.

O encontro com o Papa ocorreu na terça-feira passada, na sua residência de Santa Marta, numa pequena sala, austera, com uma mesa e cinco ou seis cadeiras, um quadro na parede. Foi precedida por um telefonema que não mais esquecerei enquanto eu estiver vivo.

Eram duas e meia da tarde. Tocou o telefone, e a voz um pouco agitada da minha secretária me disse: “O Papa está na linha e o passo imediatamente”.

Surpreso, ouço imediatamente a voz de Sua Santidade do outro lado da linha, que diz:

“Bom dia, sou Papa Francisco”.

Bom dia, Santidade – digo, e depois – estou surpreso. Não esperava que me telefonasse.

Por que surpreso? O senhor me escreveu uma carta pedindo para me conhecer pessoalmente. Eu tinha o mesmo desejo e aqui estou para agendar o encontro. Vejamos a minha agenda: quarta-feira não posso, nem segunda-feira. O senhor pode na terça?

Respondo: “Sim, está ótimo!”

O horário é um pouco incômodo. Às 15h, pode ser? Se não puder, mudamos o dia.

Santidade, o horário está ótimo.

Então, estamos de acordo: terça-feira, 24, às 15h. Em Santa Marta. O senhor deve entrar pela porta do Santo Ofício.

Não sei como concluir este telefonema e lhe digo: posso abraçá-lo pelo telefone?

Sem dúvida, lhe abraço igualmente. Depois o faremos pessoalmente. Até logo.

Agora estou eu aqui. O Papa entra e me dá a mão. Sentamos. O Papa sorri e me diz:

Alguns dos meus colaboradores que lhe conhecem me disseram que o senhor tentará me converter.

É uma anedota e lhe respondo. Também os meus amigos pensam que o senhor quer me converter. Ele sorri e responde:

O proselitismo é uma solene besteira (una solene sciocchezza), não tem sentido. É preciso que nos conheçamos, nos escutemos e cresçamos no conhecimento do mundo que nos circunda. Acontece comigo que, depois de um encontro, tenho vontade de fazer outro, porque nascem novas ideias e se descobrem novas necessidades. Isto é importante: conhecer-se, ouvir, ampliar o horizonte dos pensamentos. O mundo é feito de estradas que nos aproximam e distanciam, mas o importante é que nos levem para o Bem.

Santidade existe uma visão única do Bem? E quem o estabelece?

Cada um de nós tem uma visão do Bem e também do Mal. Devemos incitar a proceder para aquilo que cada um pensa que seja o Bem.

O senhor, Santidade, já o escrevera na carta que me endereçou. A consciência é autônoma, dissera, e cada um de nós deve obedecer à própria consciência. Penso que aquela seja uma das passagens mais corajosas ditas por um Papa.

E o repito. Cada um de nós tem uma ideia do Bem e do Mal e deve fazer a escolha de seguir o Bem e combater o Mal como o concebe. Isto bastaria para melhorar o mundo.

A Igreja o está fazendo?

Sim, as nossas missões têm este objetivo: individuar as necessidades materiais e imateriais das pessoas e buscar satisfazê-las da maneira como podemos. O senhor sabe o que é “ágape”?

Sim, sei.

É o amor pelos outros, como Nosso Senhor o pregou. Não é proselitismo, é amor. Amor pelo próximo, fermento que serve o bem comum.

Ama o próximo como a ti mesmo.

Exatamente assim.

Jesus na sua pregação disse que o ágape, o amor pelos outros, é o único modo de amar a Deus. Corrija-me caso esteja errado.

Não está errando. O Filho de Deus se encarnou para infundir nas almas dos homens o sentimento da fraternidade. Todos irmãos e todos filhos de Deus. Abba, como ele chamava o Pai. Eu lhes indico o caminho, dizia. Segui e encontrareis o Pai e sereis todos seus filhos e Ele terá a sua complacência em vocês.

O ágape, o amor de cada um de nós por todos os outros, do mais próximo aos mais longínquos, é, precisamente, o único modo que Jesus indicou para encontrar o caminho da salvação e das bem-aventuranças.

Contudo, a exortação de Jesus, recordamos anteriormente, é que o amor pelo próximo é igual ao que temos a nós mesmos. Portanto, o que muitos chamam de narcisismo é reconhecido como válido, positivo, na mesma medida do outro. Discutimos longamente a este respeito.

A mim – dizia o Papa – a palavra narcisismo não agrada, indica um amor desfocado para si mesmo e isto não é bom, pois pode produzir graves problemas não somente para a alma de quem é afetado, mas também na relação com os outros, com a sociedade em que vive. O verdadeiro problema é que os mais atingidos por isto, que na realidade é uma espécie de distúrbio mental, são pessoas que têm muito poder. Muitas vezes os chefes (“i Capi”, no original) são narcísicos.

Também muitos chefes da Igreja foram narcísicos.

Sabe o que penso sobre isto? Os chefes da Igreja muitas vezes foram narcísicos e excitados pelos seus cortesãos. A corte é a lepra do papado.

A lepra do papado. O senhor falou precisamente assim. Mas que corte? O senhor alude, por acaso, à Cúria?, perguntei.

Não, na Cúria há, às vezes, cortesãos. Mas a Cúria na sua complexidade é uma outra coisa. É a que nos exércitos se chama de intendência, gere os serviços que servem a Santa Sé. Mas tem um defeito: é Vaticano-cêntrica. Vê e cuida dos interesses do Vaticano, que são ainda, em grande parte, interesses temporais. Esta visão Vaticano-cêntrica descuida do mundo que nos circunda. Não compartilho com esta visão e farei tudo para mudá-la. A Igreja é e deve voltar a ser uma comunidade do povo de Deus, e os presbíteros, os párocos, os bispos estão a serviço do povo de Deus. A Igreja é isto, uma palavra, não por acaso, diferente da Santa Sé, que tem uma função importante, mas está a serviço da Igreja. Eu não teria a fé plena em Deus e no seu Filho se não fosse formado na Igreja e tive a sorte de me encontrar, na Argentina, numa comunidade sem a qual não teria consciência de mim e da minha fé.

O senhor percebeu a sua vocação desde jovem?

Não, não muito jovem. Tive que trabalhar, ganhar algum salário. Fiz a universidade. Tive uma professora que aprendi a respeitar e se tornou minha amiga, era uma fervorosa comunista. Muitas vezes lia para mim e me dava para ler textos do Partido Comunista. Assim conheci também aquela concepção muito materialista. Recordo que me fez ver o comunicado dos comunistas americanos em defesa de Rosenberg, que foram condenados à morte. A mulher de que estou falando foi presa, torturada e morta pelo regime ditatorial da Argentina.

O comunismo o seduziu?

O seu materialismo não me seduziu. Mas conhecê-lo por meio de uma pessoa corajosa e honesta me foi útil. Compreendi algumas coisas, um aspecto social, que depois encontrei na doutrina social da Igreja.

A teologia da libertação, que o papa Wojtyla excomungou, era bastante presente na América Latina.

Sim, muitos dos seus expoentes eram argentinos.

O senhor acha que foi certo que o Papa os combatesse?

Sim, porque davam um seguimento político à teologia. Mas muitos deles eram crentes e com um alto conceito de humanidade.

Santidade, permita-me que lhe diga algo da minha formação cultural? Fui educado por uma mãe muito católica. Aos 12 anos venci uma disputa de alunos de catequese feita entre várias paróquias de Roma e ganhei um prêmio do Vicariato. Comungava sempre nas primeiras sextas-feiras, enfim, praticava a liturgia e acreditava. Mas tudo mudou quando entrei no liceu. Li, entre outros textos de filosofia que estudávamos, o “Discurso do Método” de Descartes e fiquei impressionado pela frase, que se tornou icônica, “Penso, logo existo”. O ‘eu’ tornou-se, assim, a base da existência humana, a sede autônoma do pensamento.

Descartes, no entanto, nunca negou a fé do Deus transcendente.

É verdade, mas tinha posto o fundamento de uma visão totalmente diferente e me encaminhou depois, corroborado por muitas outras leituras, e me levou à outra margem.

O senhor, no entanto, se entendi bem, é não crente mas não um anticlerical. São duas coisas muito diferentes.

É verdade, não sou anticlerical, mas me torno quando encontro um clerical.

O Papa sorri e me diz:

Também me acontece isto. Quando encontro um clerical, me torno anticlerical de vez. O clericalismo não deveria ter nada a ver com o cristianismo. São Paulo, que foi o primeiro a falar aos Gentios, aos pagãos, aos crentes em outras religiões, foi o primeiro a nos ensinar isto.

Posso lhe pedir, Santidade, quais são os santos que estão mais próximos da sua alma e quais lhe ajudaram a formar a experiência religiosa?

São Paulo é aquele que me colocou os eixos da nossa religião e do nosso credo. Não se pode ser cristão consciente sem São Paulo. Traduziu a pregação de Cristo numa estrutura doutrinária que, apesar dos aggiornamentos de uma imensa quantidade de pensadores, de teólogos, de pastores de almas, resistiu e resiste depois de dois mil anos. E depois Agostinho, Bento e Tomás e Inácio. E, naturalmente, Francisco. Devo lhe explicar por quê?

Francisco – seja-me permitido, a esta altura, chamá-lo assim, porque é ele mesmo que o sugere pelo que fala, sorri, por suas exclamações de surpresa ou de partilha, me olha como que me encorajando a lhe fazer perguntas mais escabrosas e mais complicadas para quem guia a Igreja. Assim, lhe pergunto: De Paulo explicou a importância e o seu papel, mas gostaria de saber quais foram, entre os que foram citados, os que sente mais próximos da sua alma?

O senhor me pede uma classificação, mas estas podem ser feitas se falamos de esporte ou de coisas análogas. Poderei lhe citar os melhores jogadores de futebol da Argentina. Mas os santos...

Mas não quero evadir a sua pergunta. O senhor não me pediu uma classificação sobre a importância cultural e religiosa, mas quais santos estiveram mais próximos da minha alma. Então lhe digo: Agostinho e Francisco.

E não Inácio, ordem a qual o senhor pertence?

Inácio, por razões compreensíveis, é aquele que conheço mais do que os outros. Fundou a nossa Ordem. Recordo-lhe que desta Ordem também era Carlo Maria Martini, que me é muito caro assim como ao senhor. Os jesuítas foram e ainda são o fermento – não os únicos mas, talvez, os mais eficazes – da catolicidade; cultura, ensino, testemunho missionário, fidelidade ao Pontífice. Mas Inácio fundou a Companhia, era também um reformador e um místico. Sobretudo um místico.

E o senhor acha que os místicos são importantes para a Igreja?

Foram fundamentais. Uma religião sem místicos é uma filosofia.

O senhor tem uma vocação mística?

O que o senhor acha?

Parece-me que não.

Provavelmente, o senhor tem razão. Adoro os místicos. Também Francisco, por muitos aspectos da sua vida, foi místico, mas eu não acredito que tenho esta vocação. Mas é preciso que nos entendamos sobre o significado profundo desta palavra. O místico consegue despojar-se do fazer, dos fatos, dos objetivos e até da pastoralidade missionária e se eleva até atingir a comunhão com as Bem-aventuranças. São momentos breves, mas que preenchem a vida inteira.

Para o senhor isto nunca aconteceu?

Raramente. Por exemplo, quando o Conclave me elegeu Papa. Antes da aceitação, pedi para me retirar por alguns instantes no quarto que fica ao lado do balcão sobre a praça. A minha cabeça estava completamente vazia e uma grande ânsia me invadira. Para fazê-la passar e me relaxar, fechei os olhos e todo e qualquer pensamento desapareceu. Também aquele de recusar o encargo, como o resto do procedimento litúrgico seguinte. Fechei os olhos e não mais tive nenhuma ânsia ou emotividade. A um certo ponto, uma grande luz me invadiu. Durou um instante, mas me pareceu algo longuíssimo. Depois a luz se dissipou. Levantei-me e me dirigi até a sala em que me esperavam os cardeais e a mesa sobre a qual estava o ato de aceitação. Assinei-o, o cardeal camerlengo o assinou, e depois foi o momento do “Habemus Papam”.

Permanecemos alguns momentos em silêncio e depois disse: falávamos dos santos que o senhor sente mais próximos da sua alma e ficamos em Agostinho. Pode me dizer por que o sente mais próximo de si?

Também o meu predecessor tem em Agostinho o seu ponto de referência. Esse santo passou por muitos eventos na sua vida e mudou várias vezes a sua posição doutrinária. Teve também palavras muito duras no confronto com os hebreus, que eu nunca compartilhei. Escreveu muitos livros, e aquele que me parece mais revelador da sua intimidade intelectual e espiritual é “Confissões”. Elas contêm algumas manifestações de misticismo, mas ele não é, como muitos sustentam, o continuador de Paulo. Ele vê a Igreja e a fé no mundo de uma maneira profundamente diferente de Paulo, talvez porque quatro séculos os separam.

Qual é a diferença, Santidade?

Para mim, em dois aspectos substanciais. Agostinho se sente impotente de fronte à imensidade de Deus e às tarefas que um cristão e um bispo deveriam realizar. No entanto, ele não foi impotente, mas na sua alma se sentia sempre como estando abaixo do que deveria e queria fazer. E depois da graça dispensada pelo Senhor como elemento fundante da fé. Da vida. Do sentido da vida. Quem não é tocado pela graça pode ser uma pessoa sem mácula e sem medo, mas não será nunca uma pessoa tocada pela graça. Esta é a intuição de Agostinho.

O senhor se sente tocado pela graça?

Isto não se pode saber. A graça faz parte da consciência, é a quantidade de luz que temos na alma, não de sabedoria nem de razão. Também o senhor, sem o saber, poderia estar tocado pela graça.

Sem fé? Não crente?

A graça diz respeito à alma.

Eu não creio em alma.

Não crê, mas tem.

Santidade, o senhor dissera que não tinha nenhuma intenção em me converter e creio que não conseguiria.

Isto não se sabe; contudo, não tenho nenhuma intenção em lhe converter.

E Francisco?

É grandíssimo porque é tudo. Homem que quer fazer, quer construir, funda uma Ordem e as suas regras, é itinerante e missionário, é poeta e profeta, é místico. Constatou nele mesmo o mal e o superou. Ama a natureza, os animais, a erva do campo e os pássaros que voam no céu, mas sobretudo ama as pessoas, as crianças, os velhos, as mulheres. É o exemplo mais luminoso daquele ágape de que falávamos antes.

O senhor tem razão, Santidade. A descrição é perfeita. Mas por que nenhum dos seus predecessores escolheu o nome de Francisco? E, segundo me parece, nenhum outro o escolherá depois do senhor.

Isto não sabemos. Não hipotequemos o futuro. É verdade, antes nenhum o escolheu. Aqui afrontamos o problema dos problemas. O senhor quer beber algo?

Obrigado, talvez um copo d'água.

O Papa se levanta, abre a porta e pede a um colaborador que estava entrando que lhe traga dois copos de água. Pede se eu quero um café. Digo que não é preciso. Chega a água. No fim da nossa conversação o meu copo está vazio, mas o dele permaneceu cheio. Molha a garganta e começa.

Francisco queria uma Ordem mendicante e também itinerante. Missionários em busca de encontrar, escutar, dialogar, ajudar, difundir a fé e o amor. Sobretudo o amor. E mirava uma Igreja pobre que assumisse o cuidado dos outros, recebesse ajuda material e a utilizasse para sustentar os outros, com nenhuma preocupação consigo mesma. Passaram 800 anos desde então, e os tempos mudaram muito, mas o ideal de uma Igreja missionária e pobre permanece mais do que válida. Esta é a Igreja que foi pregada por Jesus e pelos seus discípulos.

Vocês cristãos são, atualmente, uma minoria. Até na Itália, que era definida como o jardim do Papa, os católicos praticantes seriam, segundo algumas sondagens, entre 8 e 15%. Os católicos que dizem sê-lo mas que são de fato, são poucos, uns 20%. No mundo existe um bilhão de católicos, e também com as outras Igrejas cristãs, vocês superam um bilhão e meio. Mas o planeta é habitado por 6 a 7 bilhões de pessoas. Vocês são, é certo, muitos, especialmente na África e na América Latina, mas minorias.

Sempre fomos minoria, mas o tema, hoje, não é este. Pessoalmente penso que ser uma minoria pode ser uma força. Devemos ser uma semente de vida e de amor, e a semente é uma quantidade infinitamente menor da massa dos frutos, das flores e das árvores que nascem da semente. Parece-me que já disse que o nosso objetivo não é o proselitismo, mas a escuta das necessidades, dos desejos, das desilusões, do desespero, da esperança. Devemos voltar a dar esperança aos jovens, ajudar os idosos, abrir para o futuro, difundir o amor. Pobres entre os pobres. Devemos incluir os excluídos e pregar a paz. O Vaticano II, inspirado pelo papa João e por Paulo VI, decidiu olhar para o futuro com espírito moderno e abrir-se à cultura moderna. Os padres conciliares sabiam que abrir-se à cultura moderna significava ecumenismo religioso e diálogo com os não-crentes. Desde então foi feito muito pouco nesta direção. Tenho a humildade e a ambição de querer fazê-lo.

Também porque - me permito acrescentar - a sociedade moderna em todo o planeta atravessa um momento de crise profunda, e não somente econômica, mas social e espiritual. O senhor, no início deste nosso encontro, descreveu uma geração excluída do presente. Também nós, não-crentes, sentimos este sofrimento quase antropológico. Por isto queremos dialogar com os crentes e com quem melhor os representa.

Eu não sei se sou o melhor representante, mas a Providência me colocou como guia da Igreja e da Diocese de Pedro. Farei o que for possível para cumprir o mandato que me foi confiado.

Jesus, como o senhor recordou, disse: ama o teu próximo como a ti mesmo. Parece-lhe que isto aconteceu?

Não. O egoísmo aumentou e o amor aos outros diminuiu.

Este, então, é o objetivo que nos une: ao menos intensificar estes dois tipos de amor. A sua Igreja está pronta e preparada para esta tarefa?

O senhor, o que pensa?

Penso que o amor pelo poder temporal seja ainda muito forte entre os muros do Vaticano e na estrutura institucional de toda a Igreja. Penso que a Instituição predomina sobre a Igreja pobre e missionária que o senhor desejaria.

Realmente, as coisas estão assim e nesta matéria não se fazem milagres. Recordo-lhe que também Francisco, no seu tempo, teve que negociar com a hierarquia romana e com o Papa para que as regras da sua Ordem fossem reconhecidas. No fim obteve a aprovação, mas com profundas mudanças e compromissos.

O senhor seguirá o mesmo caminho?

Certamente não sou Francisco de Assis, e não tenho a sua força e a sua santidade. Mas sou o Bispo de Roma e o Papa da catolicidade. Como primeira coisa, decidi nomear um grupo de oito cardeais para que sejam o meu conselho. Não cortesãos, mas pessoas sábias e animadas pelos mesmos sentimentos.

Fonte: La Repubblica
Tradução é da IHU On-Line.

01 de outubro de 2013

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Significados de Carapuça


Carapuça é uma espécie de barrete ou capuz de forma cônica e remonta ao período da Inquisição, em que os condenados eram obrigados a vestir trajes ridículos ao comparecer aos julgamentos. Além de usar uma túnica com o formato de um poncho, eles precisavam colocar sobre a cabeça um chapéu longo e ponteagudo, conhecido como carapuça. Daí a expressão "vestir a carapuça" ter se incorporado ao português escrito e falado com o sentido de "assumir a culpa".

A palavra vem do italiano antigo, carapazza, e do espanhol caperuza. Atualmente, a carapuça é utilizada em aves de rapina, na prática da falcoaria.



O fabricante de carapuças chama-se carapuceiro.


domingo, 25 de agosto de 2013

O que vem a ser “secularização”?


Atualmente nos deparamos com certas mudanças que nos surpreendem e que chegam a nos questionar sobre até onde é capaz de ir o homem com a sua mentalidade secularizada.

É importante saber o que vem a ser “secularização”, pois por vezes vivemos a nossa vida sem perceber o que realmente acontece na nossa sociedade, ao nosso redor. Chegamos a aplaudir fatos e acontecimentos sem que percebamos o imenso mal que podem nos fazer. Diariamente recebemos muitas informações que são fontes de uma espécie de “indiferentismo religioso e do ateísmo nas suas mais variadas formas, particularmente naquela que hoje talvez seja a mais espalhada: a do secularismo” (CL, 13.4).

Para que se possa entender o que é secularização, e também por que o Santo Padre pede com urgência uma nova evangelização, é bom citar alguns exemplos que ainda são atuais: tivemos há pouco tempo notícias de cientistas que conseguiram colocar uma orelha humana em um rato, também fizeram um clone de uma ovelha. Isso teve repercussão no mundo inteiro, tornando-se uma questão de ética, de moral, pois abriu a possibilidade de se criar clones humanos. É verdade que a tecnologia, a informação, a informática e a ciência trazem grandes benefícios; mas quando valorizam a pessoa humana só pelo que ela tem e não pelo que ela é de fato, deixam de ser benefícios para se tornarem um mal.

Mas, o que é realmente secularização? Segundo o Dicionário de Conceitos Fundamentais de Teologia, secularização “designa o processo, iniciado na Idade Média e que continuou a manifestar-se nos tempos modernos, de afastamento, separação e emancipação, praticamente de todos os campos do universo da vida humana, do contexto de sentido fornecido pela fé cristã” (DCFT, 81).

Em outras palavras, o homem usa de seus conhecimentos técnicos, dons concedidos gratuitamente por Deus, de uma forma errada, ou que o fascinam por suas próprias conquistas, esquecendo-se de que é uma criatura. Assim, torna-se atual a velha tentação de “querer ser como Deus” (Gn 3,5). Usando de uma liberdade sem parâmetros, o homem vai eliminando as raízes religiosas que estão no fundo do seu ser. Ele vai esquecendo-se de Deus. Muitos quiseram propagar a “morte de Deus” na cabeça e no coração do povo. Apesar de não terem conseguido muita coisa, ainda hoje há alguns que querem ser “Deus”, ou tornar Deus um ser insignificante, sem valor.

A secularização atinge muitos setores da vida humana, roubando-lhes o sentido de pertencer a Deus e tê-lo como pertença maior. Não só o indivíduo, mas a família, a comunidade, a sociedade entram nesse sistema, e por isso o Santo Padre grita pela nova evangelização, por um retorno a Deus, porque uma vez secularizado, o homem tornou-se só, vazio, amargo, triste e perdido. Roda em círculos procurando uma felicidade que pensa estar nas suas descobertas, fora de Deus, ou seja, uma felicidade em que ele é o centro de tudo, o que não é verdade, bem sabemos.

É um grande desafio para a evangelização enfrentar neste mundo cada vez mais secularizado. É um grande desafio apresentar Jesus a este mundo descrente que prefere apostar em si mesmo do que se deixar amar por Deus. Mas não deve ser um desestímulo para nós, que acreditamos e experimentamos a cada dia o amor de Deus, muito pelo contrário, quanto mais se observar que o mundo está mergulhado em uma cultura secularizada, se afastando de Deus, que o homem não ama mais a seu Deus e ao seu próximo, aí é que devemos anunciar o Amor. “Apesar de tudo, portanto, a humanidade pode e deve ter esperança: o Evangelho vivo e pessoal, Jesus Cristo em pessoa, é a “notícia” nova e portadora de alegria que a Igreja cada dia anuncia e testemunha a todos os homens” (CL 19,7). Não podemos desanimar uma vez que temos Jesus Cristo como centro de nossas vidas.


Lutemos, pois, para que Deus seja novamente posto no seu devido lugar: o coração do homem, o coração da sociedade.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Francisco e a teologia da bagagem de mão


O Papa Francisco acendeu nos corações uma expectativa, esperanças de uma Igreja que se renova, que continua a sua incessante reforma. Isso depende de alguns gestos: pela primeira vez um papa subiu a escada do avião carregando nas mãos a sua maleta, sem confiá-la aos seus colaboradores.

A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 23-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Muitos estão falando de novo de "primavera da Igreja", inaugurada pelo Papa Francisco. Quem viveu a primavera anunciada por Pio XII em maio de 1958 e inaugurada pelo Papa João XXIII e pelo Concílio Vaticano II, não esperava mais uma nova estação rica em esperança e aberturas. Principalmente depois das duas últimas décadas.

E ao invés? Isso também deve ser reconhecido: o Papa Francisco acendeu nos corações uma expectativa, esperanças de uma Igreja que se renova, que continua a sua incessante reforma. Esse juízo positivo e acima de tudo essa expectativa dependem de algumas palavras e de alguns gestos: como os feitos nessa segunda-feira, que nos mostram pela primeira vez um papa subindo a escada do avião carregando nas mãos a sua maleta, sem confiá-la aos seus colaboradores.

Como se Francisco dissesse: ninguém deve portar um peso no meu lugar. E depois, tendo aterrissado no Brasil, subiu em um pequeno carro, um Fiat Idea, que era o menor carro do cortejo. Comecemos, portanto, pelos gestos. Em quatro meses, não podem ser muitos, mesmo que aqueles poucos tenha sido imediatamente relatados como "os floreios do Papa Francisco", por serem simples, eloquentes e também singulares, como as do Pobrezinho de Assis. Eleito papa no dia 13 de março, Francisco se assomou à Praça de São Pedro e, antes de conceder a bênção apostólica ao povo, pediu que o povo invocasse para ele a bênção de Deus e se inclinou em um silêncio de adoração a Deus, de oração a Deus, mas também de profunda comunhão.

Essa ação de Francisco, que surpreendeu e tocou os corações daqueles que no mundo queriam conhecer a identidade do novo papa, deve ser avaliada em si mesma, como um gesto seu, pessoal, que pertence ao seu estilo no exercício do ministério pastoral. Sim, com o Papa Francisco sentiu-se "algo de novo hoje debaixo do sol" (Giovanni Pascoli)... E assim, sem aumentar, mas também sem esquecer tal ato, é preciso contar a sua vontade de simplicidade, da qual os crentes tinham nostalgia desde a morte do Papa João XXIII.

A sua veste sóbria, a sua cruz peitoral não de ouro e não cheia de jóias, o desaparecimento do trono e dos ouropéis que lembravam "os direitos da coroa", a sua viagem no ônibus com os outros cardeais para retornar à Casa Santa Marta, o fato de se sentar à mesa dos coirmãos para as refeições, sem pensar logo em uma mesa sua e nos seus convidados, o fato de cumprimentar com entusiasmo e envolvimento nos abraços e nos apertos de mão aqueles que o encontram, a sua linguagem muito humana: tudo isso nos deu uma nova imagem do bispo de Roma.

É tolice fazer comparações com os papas anteriores, assim como será tolice fazer comparações com o que vier, mas o que deve ser enfatizado é que as pessoas sentem que este papa é um homem. Disse-se do Papa João XXIII: "Um cristão no trono de Pedro"; diz-se do Papa Francisco: "Um homem tornou-se bispo de Roma".

Quanto à liturgia, nela não há atitudes hieráticas, ele não assume perfis de baixo-relevo assírio: senta-se em uma poltrona, e não em um trono de reis, faz a homilia de pé do ambão, como todos, abandonou vestes que, embora dignas, não representavam mais o sentimento geral que quer sobriedade na liturgia. Além disso, não se pode esquecer um gesto litúrgico do qual o Papa Francisco efetivamente ampliou a interpretação de modo inédito e talvez até "escandaloso" para alguns católicos: o gesto do lava-pés, que sempre foi realizado em São Pedro com clérigos, cônegos, cardeais.

Pois bem, o Papa Francisco, em continuidade com o que havia feito no seu ministério episcopal em Buenos Aires, saiu do Vaticano para ir para a prisão juvenil romana de Casal del Marmo, onde lavou os pés de 12 detidos, incluindo duas jovens e alguns não batizados. Verdadeira interpretação inovadora! O Senhor lavou os pés ao longo de toda a sua vida, isto é, se fez servo de homens e mulheres marcados pelo sofrimento, pela doença, pela necessidade, pela pecado: isso nos lembra o exeghésato (Jo 1, 18) criativo com o qual o Papa Francisco narrou Jesus...

Mas o gesto até agora mais eloquente certamente foi a primeira viagem apostólica ao santuário dos últimos, da humanidade sofredora, àquele mar que, em vez de ser uma ponte de fraternidade, tornou-se para muitos pobres do mundo, que tentam ir rumo ao pão, um lugar de morte. Sem palavras demais, denunciou o egoísmo da margem europeia do Mediterrâneo, tentou causar um sentimento de vergonha naqueles que querem rejeitar esses pobres ou que tentaram não ouvir o seu grito. Aquelas margens europeias, infelizmente, são habitadas principalmente por cristãos e pessoas que se dizem cristãs a ponto de querer defender a sua identidade e os valores cristãos. Enquanto jogava aquela coroa de flores rumo aos afogados no mar, enquanto pedia perdão a Deus e às vítimas, nos sentimos, também nós, como Caim, incapazes de ser guardiões dos nossos irmãos. Sentimos ser dirigida a nós a pergunta: "Homem, onde estás? Que humanização é a sua?...". Em Lampedusa, o grito de Francisco foi um grito de homem a toda a humanidade.

"Esse papa fala demais", disseram alguns. Com efeito, todos os dias, Francisco nos dá uma breve homilia que, além de ser um ato litúrgico importante por si só, pronunciada pelo papa, impõe-se pela sua qualidade magisterial de ensino. Limitando-se a um exame estatístico do léxico do Papa Francisco, pode-se notar que a palavra que se repete mais frequentemente nas suas intervenções públicas é "alegria" (mais de 100 vezes), seguida por "misericórdia" (quase 100), que, unida a "perdão", dá um total de cerca de 150 ocorrências. Depois, "humilde-humildade" (65 vezes), "pobre-pobreza" (40 vezes).

Diante desses dados, parece-me urgente não tanto fazer uma escolha e discutir singularmente os vários termos, mas sim fazer emergir o pensamento do Papa Francisco na sua novidade, que hoje tem uma decisiva "performance" no coração de quem o ouve. Acima de tudo, Francisco tem uma visão de uma Igreja em êxodo, de uma Igreja em movimento e que tem a audácia de sair, de sair de si mesma. Para ser fiel à sua missão e à sua identidade, a Igreja deve sair, porque – são palavras pronunciadas por ele em uma entrevista de 2007 – "continuar sendo, permanecer fiéis implica uma saída. Justamente, se permanecemos no Senhor, saímos de nós mesmos". Sair para caminhar, para construir pontes e ir em frente, como fez o apóstolo Paulo. Portanto, "quando a Igreja perde essa coragem apostólica torna-se uma Igreja parada, uma Igreja ordenada, bonita, tudo bonito, mas sem fecundidade, porque perdeu a coragem de ir para as periferias, aqui onde estão tantas pessoas vítimas da idolatria, da mundanidade, do pensamento fraco... Aqueles que não caminham para não errar, cometem um erro mais grave" (Homilia do dia 8 de maio de 2013).

E na collatio realizada com os movimentos eclesiais na vigília de Pentecostes (18 de maio de 2013), Francisco afirmou: "Não se fechem, por favor! Esse é um perigo: fechamo-nos na paróquia, com os amigos, no movimento, com aqueles com os quais pensamos as mesmas coisas... Mas vocês sabem o que acontece? Quando a Igreja se torna fechada, adoece, adoece... A Igreja deve sair de si mesma. Para onde? Rumo às periferias existenciais, sejam quais forem, mas sair... Eu prefiro mil vezes uma Igreja acidentada, que incorreu em um acidente, do que uma Igreja doente de fechamento".

Em seguida, ofereceu uma verdadeira "pérola" de interpretação das palavras do Senhor Jesus em Apocalipse 3, 20 ("Eis que estou à porta e bato"). "Façam a si mesmos esta pergunta: quantas vezes Jesus está dentro e bate à porta para sair, para sair para fora, e nós não o deixamos sair, por causa das nossas seguranças, porque muitas vezes estamos fechados em estruturas caducas, que servem apenas para nos tornar escravos, e não livres filhos de Deus? Nessa 'saída' é importante ir ao encontro. Esta palavra para mim é muito importante: o encontro com os outros".

O Papa Francisco conhece bem a situação da Igreja e, em particular, a da hierarquia e das instituições que deveriam estar a serviço da própria Igreja. Ele sabe que para todos "a tentação é a de um cristianismo sem cruz, que para no meio do caminho... É a tentação do triunfalismo. Nós queremos o triunfo agora, sem ir para a cruz, um triunfo mundano. O triunfalismo paralisa a Igreja, paralisa os cristãos. A Igreja triunfalista é feliz assim, bem sistematizada, com todos os escritórios, tudo no seu lugar, tudo bonito e eficiente. Mas é uma igreja que renega os mártires... Pensa somente nos triunfos, nos sucessos, e não conhece a regra de Jesus: a regra do triunfo através do fracasso, do fracasso humano, do fracasso da cruz" (Homilia do dia 29 de maio de 2013).

E ainda: "Se seguirmos Jesus como uma proposta cultural, usamos esse caminho para ir mais alto, para ter mais poder. E a história da Igreja está cheia disso, começando por alguns imperadores e, depois, por tantos governantes e tantas pessoas, não? E também alguns – não quero dizer muitos, mas alguns – padres, alguns bispos, não? Alguns dizem que são muitos... Mas alguns que pensam que seguir Jesus é fazer carreira" (Homilia do dia 28 de maio de 2013).

É significativo que à pergunta direta de uma menina: "Mas tu querias ser papa?", ele respondeu: "Tu sabes o que significa que uma pessoa não queira tão bem a si mesma? Uma pessoa que quer ser papa não quer bem a si mesma, e Deus não a abençoa. Não, eu não quis ser papa..." (Collatio do dia 7 de junho). Sim, Francisco não era um bispo empenhado em fazer carreira eclesiástica!

É preciso recordar o motivo que levou o Papa Francisco a assumir esse nome: ele confessou que a inspiração lhe veio do amigo cardeal Cláudio Hummes, que se sentava ao seu lado e lhe disse: "Lembre-se dos pobres". Por isso, Francisco logo confessou o seu desejo que, na realidade, parece ser um verdadeiro manifesto: "Eu quero uma Igreja pobre e para os pobres" (Audiência aos representantes das mídias, 16 de março de 2013).

Não só uma Igreja que se coloca a serviço dos pobres, que atua em seu favor, mas também uma Igreja que se faz pobre percorrendo o itinerário da encarnação, a "via" do Senhor que "sendo rico se fez pobre por nós" (cf. 2Cor 8, 9) para compartilhar em tudo a condição humana. Eis, então, posto com autoridade o primeiro ponto decisivo para uma reforma da Igreja. O Papa Francisco provém daquela periferia do mundo que elaborou a "necessidade da opção preferencial pelos pobres, primeiros destinatários de direito do evangelho", e justamente por isso está habilitado a fazer com que a Igreja volte à condição desejada por Jesus. Não pauperismo ideológico, não romantismo de uma pobreza formal, mas a Igreja ou é pobre – mesmo tendo meios para a sua vida no mundo – ou é mundana, também ela a serviço dos ídolos do dinheiro e do poder, em grave contradição com relação à forma da encarnação do seu Senhor!

Mas o Papa Francisco também manifestou a sua vontade de uma reforma do papado e da Cúria que está a seu serviço. Há ao menos cinco séculos, sempre se volta a falar da reforma da Cúria Romana, mas esta só pode ser substancialmente reformada se se der nova forma e nova compreensão ao ministério petrino do bispo de Roma. Os católicos nunca renunciarão ao ministério de confirmação na fé e de comunhão próprio do bispo de Roma, mas sabem também que a forma que ele assumiu ao longo dos séculos variou e ainda pode mudar.

É graças ao papado que a Igreja Católica permaneceu unida ao longo dos séculos, mas continua sendo verdade que a estrutura do papado nem sempre foi conforme ao evangelho e que deve ser reformada todas as vezes em que se compreende essa urgência evangélica.

Hoje, a partir especialmente das indicações do Concílio Vaticano II, sente-se a necessidade de que o papa não apareça como o "bispo universal", mas sim o bispo da Igreja de Roma "que preside na caridade". A essa eclesiologia de comunhão, portanto, é preciso dar mais força e implementar a "sinodalidade", essa categoria do "caminhar juntos" entre papa, bispos e povo de Deus.

Na homilia do dia 29 de junho, em São Pedro, o Papa Francisco especificou que o ministério do sucessor de Pedro, como confirmação na unidade, deve harmonizar o primado com o sínodo dos bispos e deve trilhar o caminho da sinodalidade. Essas são palavras marcadas por uma radical novidade na boca de um papa: até agora, pertenciam somente aos teólogos.

Francisco está se manifestando como um papa do êxodo, que pode mostrar a todos os cristãos o dinamismo de uma comunhão em que "o amor é a primeira verdade" (Homilia do dia 4 de maio de 2013). O Papa Francisco en-sina, faz sinal indicando sempre a Jesus Cristo, aquele ao qual deve-se voltar o nosso olhar. Por isso, aos representantes dos movimentos eclesiais que gritavam: "Francisco, Francisco!", ele respondeu: "Eu gostaria que vocês gritassem: 'Jesus, Jesus é o Senhor, e está no meio de nós'. De agora em diante, nada de 'Francisco', mas sim 'Jesus'".


Artigo de Enzo Bianchi

24 de julho de 2013

O início do fim: Papa Francisco condena a legalização das drogas


O Papa Francisco foi saudado pela mídia nacional como o portador das aspirações e ideais mais modernos e antenados, como arauto do “politicamente correto”. Quando eleito líder máximo da Igreja Católica em março, iniciou-se o “Domingo de Ramos” do Pontífice Romano e, na época, dissemos que havia muito exagero nas manifestações de apreço da mídia. Parecia-nos que estavam tentando sequestrar a voz do Papa em nome de ideologias. Entendemos que a JMJ 2013 pode marcar a deterioração dessa relação pela mídia politicamente engajada.

Na primeira viagem do Papa Francisco depois da eleição, parece ter começado a “Semana Santa” do relacionamento do Sumo Pontífice com os meios de comunicação. Na quarta-feira passada, dia 14/07, enquanto visitava hospital dedicado ao tratamento e apoio de dependentes químicos, o Santo Padre retomou um tema incômodo para a mídia “politicamente correta”: a descriminação das drogas. O Papa Francisco retomou os ensinamentos tradicionais da doutrina da Igreja Católica e confirmou que a descriminalização das drogas não favorece a luta contra a difusão nem diminui a influência maléfica das drogas sobre os indivíduos. Outras são as ações que realmente têm impacto no combate à dependência de drogas. Eis o texto do Papa:

A chaga do tráfico de drogas, que favorece a violência e que semeia a dor e a morte, exige da inteira sociedade um ato de coragem. Não é deixando livre o uso das drogas, como se discute em várias partes da América Latina, que se conseguirá reduzir a difusão e a influência da dependência química. É necessário enfrentar os problemas que estão na raiz do uso das drogas, promovendo uma maior justiça, educando os jovens para os valores que constroem a vida comum, acompanhando quem está em dificuldade e dando esperança no futuro – Fonte: Papa Francisco, Discurso do Santo Padre em visita ao Hospital Francisco de Assis.

Já dissemos em outro lugar que o uso de drogas tem muito a ver com escravidão. Por este motivo, não é justo nem honesto com os dependentes químicos tratar o assunto como um tema colateral, como uma questão jurídica, simplesmente não é honesto. A drogadição é um drama humano e deve ser tratado como um mal objetivo à vida das pessoas e de suas famílias. Quando o Papa Francisco retoma o ensinamento eclesial católico e rejeita a manipulação midiática do assunto, mesmo que particularmente amável com os dependentes, garante a sadia solução para os que sofrem sob o domínio das drogas: a liberdade da virtude. Em nenhum mundo possível o vício pode ser louvado em contraposição às virtudes. Essa é a doutrina e o ensinamento cristão e filosófico, desde Pedro até Bento XVI, e não será Francisco – que teve embates homéricos com a presidente Christina Kirchner quando bispo – que vai dar qualquer guinada à esquerda por pressão política.

Algo, porém, está para mudar com a visita do Papa Francisco ao Brasil. Aposto que a partir dessa Jornada com os Jovens levantar-se-ão vozes dissonantes ao Papa Francisco nos meios de comunicação nacionais. Obviamente, os críticos não serão abertamente contrários ao Papa, pois afinal, ele é o Papa “que faz a própria comida”, “que não anda em carro caro”, “que não cede a poderosos”, “que não telefone de última geração”, “que não gosta de pompa”. Práticas pessoas que, aliás, os seus aduladores da mídia engajada não seguem absolutamente, mas que gostam de ver outros seguirem. Provavelmente o caminho da crítica a Francisco colocará na conta de Bento XVI a culpa por seu “conservadorismo”. Dir-se-á que o Papa Latino-americano não leva mais adiante a agenda liberal por causa de Ratzinger. E quando não houver mais razões externas, quando não se puder mais esconder o católico sob o Francisco, dir-se-á que a Igreja Católica ainda é a mesma e que ainda não está pronta para o mundo moderno.


by Robson Oliveira – 

domingo, 21 de julho de 2013

O rosto da adúltera de Jesus


Então, Jesus foi abordado por um grupo de pessoas muito preocupadas com a retidão da lei. Traziam consigo uma mulher em prantos que havia sido pega em adultério. Jogada ao chão, ela tremia de medo. O povo pedia para que Jesus fizesse valer a lei: morte da adúltera por apedrejamento.

Isso foi há 2.000 anos, mas ainda hoje, no mesmo Oriente Médio, tem gente que apedreja mulheres e acha (agora, no Egito) que violentá-las nas praças seja um “direito da soberania popular revolucionária”, enquanto se matam, nas mesmas praças, pelo modo ocidental de vida ou por outra forma de lei (o fundamentalismo islamita).

E assim caminha a humanidade, em ciclos, para lugar nenhum, mas com festas e crenças diferentes no meio, e demagogos a cantar…

Mas voltemos a Jesus. Fatos como esses me fazem achar que Jesus era um cabra macho. Enfrentar o povo quando este se julga movido pelo correto modo de viver é algo que exige, como dizem los hermanos, “cojones”. Jesus disse que quem estivesse livre de pecado que atirasse a primeira pedra. Todos foram embora.

Esta é uma das passagens típicas do mundo bíblico na qual fica claro o tema da hipocrisia como motivação profunda daqueles que se acham arautos do bem, moral ou político.

Mas Jesus era um filósofo hebreu e estes filósofos eram diferentes dos filósofos gregos. O mundo bíblico é diferente da filosofia grega. Naquele, o “regime da verdade” (ou modo de busca da verdade) é interno e moral, na filosofia grega é externo e político.

O problema de saber se o que eu digo é verdade ou não, quando falo ou argumento, inexiste na Bíblia, porque o personagem principal do diálogo é Deus, e Ele sempre sabe de tudo, não há como mentir para Ele como há como mentir para outro homem ou para assembleia “soberana”, como na filosofia ou democracia gregas. Segundo o crítico George Steiner, o Deus de Israel irrita porque está em toda parte e sabe de tudo.

Sabe-se que o advento da democracia grega levou muita gente a pensar sobre a diferença entre pura retórica, que visa o mero convencimento dos outros numa assembleia (eu acho que a democracia é 90% isso mesmo), e a verdade em si do que se fala.

O problema que nasce daí é a relatividade da verdade, dependendo do ponto de vista de quem fala e de quem ouve. Na Bíblia, o problema é se minto para mim mesmo ou não. Na esfera pública, é o tema da hipocrisia, na privada, o da verdade interior. A Bíblia criou o sujeito e as bases da psicologia profunda.

Na Bíblia, como o poder é sempre de Deus e ele é mais íntimo de mim do que sou de mim mesmo, o problema é como eu enfrento a mim mesmo. A preocupação com a lei é sempre acompanhada da atenção para com a falsidade de quem diz ser justo. Por isso foram os hebreus que deram os primeiros passos para a descoberta do espaço interior onde vejo a distância entre mim e a verdade sobre mim mesmo, em vez de me preocupar com a verdade política, sofro com a mentira moral.

O crítico Erich Auerbach, no seu “A Cicatriz de Ulisses“, parte da coletânea “Mímesis“, reconhece este traço do texto hebraico: a relação de atenção e agonia entre Deus e seus eleitos molda o herói bíblico, dando a ele um rosto marcado por uma tensão moral.

Ainda na Bíblia hebraica, o rei David, o preferido de Deus, em seus belos “Salmos”, O encanta justamente porque expõe seu coração sem qualquer tentativa de mentir para si mesmo.

Santo Agostinho com suas “Confissões” faz eco a David. A literatura monástica e mística medievais cultivou este espaço até seu ressurgimento no século 19 no pietismo alemão de gente como J.G. Hamann, o “mago do norte”, ancestral direto do romantismo. Do romantismo e seu epicentro na verdade interior do sujeito, chegamos à psicologia profunda e à psicanálise.

A filosofia hebraica funda regimes de verdade que leva o sujeito a olhar para si mesmo ao invés de olhar para os outros. Em vez de cultivar uma filosofia política, ela cultiva uma filosofia moral da vida interior na qual não é barulho da assembleia que importa, mas o silêncio no qual os demônios desvelam nossa própria face.

Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 15.07.2013)
ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA