O texto abaixo foi publicado em 27/08/09
D. Hélder da Câmara morreu há 10 anos
Bispo brasileiro fica na história pelo seu
pioneirismo dentro e fora da Igreja
Numa das suas passagens por Portugal, D. Hélder
da Câmara afirmou que “ninguém nasce para ser escravo ou mendigo”. No entanto,
ao observar a realidade que o circundava, o antigo bispo de Olinda e Recife
(Brasil) via que eles existiam e estavam bem perto do pastor. A cidade de
Fortaleza (Brasil) viu nascer, a 7 de Fevereiro de 1909, D. Hélder da Câmara. Filho
de uma família pobre e numerosa (dos treze irmãos apenas oito conseguiram
sobreviver), os pais deram-lhe o nome de um pequeno porto holandês: Hélder.
Aos 14 anos ingressa no Seminário diocesano da
cidade natal (Prainha de São José), sendo metade das despesas pagas pela Obra
das Vocações Sacerdotais. Recebeu a ordenação sacerdotal em 1931 e, cinco anos
depois, foi enviado para o Rio de Janeiro, onde se tornou animador da Ação
Católica Brasileira e, posteriormente, seu assistente nacional. Nos ouvidos
ressoam-lhe palavras antigas do pai: “Meu filho, você sabe o que é ser padre? Padre
e egoísmo nunca podem andar juntos.”
Apesar de ter ficado conhecido como ícone da
paz e irmão dos pobres, nos primeiros tempos de padre esteve ligado ao
movimento «Ação Integrista Brasileiro», próximo das teses de Mussolini e do
corporativismo português. Aos olhos de alguns era uma «persona non grata». Mais
tarde, D. Hélder da Câmara explica esse episódio: “Participei num movimento de
que estava convencido. O grande combate era entre o Este e o Oeste, os Estados
Unidos e a União Soviética”. E acrescenta: “Mas depressa me apercebi que mais
grave do que essa luta era a que se travava entre o Norte e o Sul”.
A Segunda Guerra Mundial e o agravamento da
situação social no Brasil reconduziram D. Hélder da Câmara ao lugar de líder da
contestação social e religiosa no Brasil. Em 1952 é nomeado bispo auxiliar do
Rio de Janeiro pelo papa Pio XII.
Poucos anos antes da sua nomeação trabalhou na
Nunciatura Apostólica do Rio e, através de contactos diretos com Monsenhor
Montini (futuro Papa Paulo VI), conseguiu que a Secretaria de Estado do
Vaticano aprovasse a constituição da Conferência Nacional dos Bispos
Brasileiros (CNBB). Esta foi a precursora das Conferências Episcopais criadas,
mais tarde, pelo II Concílio do Vaticano. Depois da aprovação da CNBB, D.
Hélder propõe ao Vaticano a fundação do Conselho Episcopal Latino-Americano
(CELAM). A autorização chegou em 1955, acumulando D. Hélder Câmara o cargo de
Secretário-Geral da CNBB e Vice-presidente da CELAM.
Paralelamente à dinamização destes dois
organismos, o prelado brasileiro empenhou-se também no campo social. Em 1956
funda a Cruzada S. Sebastião (destinada à solução dos problemas habitacionais
nas favelas) e, três anos mais tarde (1959) criou o Banco da Providência
(entidade de assistência social para os casos de miséria absoluta).
Em 1964 foi nomeado arcebispo de S. Luis do
Maranhão e meses depois é enviado para Olinda e Recife, onde permanecerá, como
bispo residencial, durante vinte anos. “Aqui eu sonhei com uma obra em que
pudesse trabalhar não para o povo, mas com o povo” – sublinhou na altura. Preocupa-se
com o problema do desenvolvimento e da pobreza em todo o nordeste brasileiro.
A sua voz profética ecoava, apesar das
perseguições que lhe moveram. Em 1968, o pastor daquele território eclesial
publica o livro «Revolução dentro da Paz». Dois anos depois, uma campanha
difamatória impede-o de receber o Prêmio Nobel da Paz. Foi acusado de demagogo,
exibicionista e “emissário camuflado de Fidel Castro e Mao”.
Nunca recebeu galardão da Paz, no entanto o
município de Oslo (Noruega) concedeu-lhe (em 1974) um prêmio de valor
equivalente. O seu prestígio internacional era intocável e recebeu o
doutoramento «Honoris Causa» de várias universidades. O Japão atribuiu-lhe
(1983) o prêmio Niwano para a Paz, enquanto a Itália o distinguiu com o Prêmio
Balzan.
Trabalhar com os pobres era a sua paixão. No
entanto, da sua pena saíram várias obras literárias: «O deserto é fértil»
(1971); «Cristianismo, Socialismo, Capitalismo» (1973); «Nossa senhora no meu
caminho» (1981) e «Utopias peregrinas» (1993). Dois poemas seus inspiraram uma
oratória e um ballet: «Sinfonia dos dois mundos» (musicada pelo Pe. Pierre
Kaelin) e «Missa para um tempo futuro» (com coreografia de Maurice Béjart).
A 7 de Julho de 1980, durante a viagem de João
Paulo II ao Brasil, o papa polaco reabilita publicamente a sua imagem ao
abraçá-lo efusivamente e dando-lhe o maior título de sempre: «Irmão dos pobres
e meu irmão». Um gesto ovacionado por uma multidão perplexa.
No mês de Abril de 1984, o «bispo vermelho e
dos pobres» despede-se da sua diocese, depois de Roma ter aceite a sua
resignação por limite de idade. “Pouco importa que um bispo se jubile; a Igreja
continua” – disse D. Hélder Câmara na Eucaristia celebrada no Estádio do Recife
perante 30 mil pessoas.
A 27 de Agosto de 1999, o homem que tinha como
lema «In Manus Tuas» (Nas Tuas Mãos) despediu-se da vida terrena. Quando soube
da sua morte, D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal disse: “um gigante da
história da Igreja que impressionava pela sua fragilidade humana, mas albergava
uma coragem do tamanho do mundo”.
Fonte: Newsletter Agência Ecclesia – 27/08/09

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