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segunda-feira, 30 de junho de 2014

“O comunismo nos roubou a bandeira. A bandeira dos pobres é cristã”.


Entrevista com o Papa Francisco

O encontro é em Santa Marta, à tarde. Uma rápida verificação, e um guarda suíço me faz sentar em uma pequena sala de estar.

A reportagem é de Franca Giansoldati, publicada no jornal Il Messaggero, 29-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Seis poltroninhas verdes de veludo um pouco desgastado, uma mesinha de madeira, um televisor daqueles antigos, com a "barriga". Tudo em perfeita ordem, o mármore polido lucidamente, alguns quadros. Poderia ser uma sala de espera paroquial, uma daquelas a que se vai para pedir um conselho ou para fazer os documentos de casamento.

Francisco entra sorrindo: "Finalmente! Eu a leio e agora a conheço". Eu coro. "Eu, ao contrário, o conheço e agora o escuto". Ele ri. Ri com gosto, o papa, como fará outras vezes no decorrer de mais de uma hora de conversa livre.

Roma, com os seus males de megalópole, a época de mudanças que enfraquecem a política; o esforço para defender o bem comum; a reapropriação por parte da Igreja dos temas da pobreza e da partilha ("Marx não inventou nada"); a desolação diante da degradação das periferias da alma, escorregadio abismo moral em que se abusa da infância, tolera-se a mendicância, o trabalho infantil e, não por último, a exploração de meninas prostitutas com menos de 15 anos. E os clientes que poderiam ser seus avós; "pedófilos": o papa os define justamente assim.

Francisco fala, explica, se interrompe, retorna. Paixão, doçura, ironia. Um fio de voz, parecem ninar as palavras. As mãos acompanham o raciocínio, entrelaça-as, solta-as, parecem desenhar geometrias invisíveis no ar. Está em ótima forma, apesar dos rumores sobre a sua saúde.

Eis a entrevista.

É a hora do jogo entre a Itália e o Uruguai. Santo Padre, por quem o senhor torce?

Ah, eu, por ninguém, de verdade. Prometi à presidente do Brasil (Dilma Rousseff) que me manteria neutro.

Comecemos por Roma?

Mas você sabe que eu não conheço Roma? Pense que eu vi a Capela Sistina pela primeira vez quando participei do conclave que elegeu Bento XVI (2005). Nunca estive nem mesmo nos museus. O fato é que, como cardeal, eu não vinha muitas vezes. Eu conheço Santa Maria Maior, porque sempre ia lá. E depois São Lourenço Fora dos Muros, onde eu fui para crismas, quando estava o padre Giacomo Tantardini. Obviamente, conheço a Praça Navona, porque sempre me hospedei na Via della Scrofa, lá atrás.

Há algo de romano no argentino Bergoglio?

Pouco ou nada. Eu sou mais piemontês, são essas as raízes da minha família de origem. No entanto, estou começando a me sentir romano. Pretendo ir visitar o território, as paróquias. Estou descobrindo pouco a pouco esta cidade. É uma metrópole belíssima, única, com os problemas das grandes metrópoles. Uma cidade pequena possui uma estrutura quase unívoca; uma metrópole, ao contrário, inclui sete ou oito cidades imaginárias, sobrepostas, em vários níveis. Também níveis culturais. Penso, por exemplo, nas tribos urbanas dos jovens. É assim em todas as metrópoles. Em novembro, faremos em Barcelona um congresso dedicado justamente à pastoral das metrópoles. Na Argentina, foram promovidos intercâmbios com o México. Descobrem-se tantas culturas cruzadas, mas não tanto por causa das migrações, mas porque se trata de territórios culturais transversais, feitos de pertencimentos próprios. Cidades nas cidades. A Igreja deve saber responder também a esse fenômeno.

Por que, desde o início, o senhor quis enfatizar tanto a função de bispo de Roma?

O primeiro serviço de Francisco é este: ser o bispo de Roma. Ele só tem todos os títulos do papa, Pastor universal, Vigário de Cristo etc., porque é bispo de Roma. É a escolha primeira. A consequência do primado de Pedro. Se, amanhã, o papa quisesse ser bispo de Tivoli, é claro que me expulsariam.

Há 40 anos, com Paulo VI, o Vicariato promoveu o congresso sobre os males da Roma. Emergiu o quadro de uma cidade em que aqueles que tinham muito levavam a melhor, e aqueles que tinha, pouco, a pior. Hoje, na sua opinião, quais são os males desta cidade?

São os das metrópoles, como Buenos Aires. Quem aumenta os benefícios, e quem é cada vez mais pobre. Eu não estava ciente do congresso sobre os males da Roma. São questões muito romanas, e eu, na época, tinha 38 anos. Sou o primeiro papa que não participou do Concílio e o primeiro que estudou teologia na pós-Concílio,, e nesse tempo, para nós, a grande luz era Paulo VI. Para mim, a Evangelii nuntiandi continua sendo um documento pastoral nunca superado.

Existe uma hierarquia de valores a ser respeitada na gestão da coisa pública?

Certamente. Proteger sempre o bem comum. A vocação para qualquer político é essa. Um conceito amplo que inclui, por exemplo, a proteção da vida humana, a sua dignidade. Paulo VI costumava dizer que a missão da política continua sendo uma das formas mais altas de caridade. Hoje, o problema da política – eu não falo só da Itália, mas de todos os países, o problema é mundial – é que ela se desvalorizou, arruinada pela corrupção, pelo fenômeno dos subornos. Lembro-me de um documento que os bispos franceses publicaram há 15 anos. Era uma carta pastoral que se intitulava "Reabilitar a política" e abordava justamente esse assunto. Se não houver serviço na base, não se pode entender nem mesmo a identidade da política.

O senhor disse que a corrupção tem cheiro de podridão. Também disse que a corrupção social é o fruto do coração doente e não só de condições externas. Não haveria corrupção sem corações corruptos. O corrupto não tem amigos, mas idiotas úteis. Pode nos explicar isso melhor?

Eu falei dois dias seguidos desse assunto, porque eu comentava a leitura da Vinha de Nabot. Gosto de falar sobre as leituras do dia. No primeiro dia, abordei a fenomenologia da corrupção; no segundo dia, de como acabam os corruptos. O corrupto não tem amigos, mas apenas cúmplices.

De acordo com o senhor, fala-se muito da corrupção porque os meios de comunicação insistem demais no assunto ou porque efetivamente se trata de um mal endêmico e grave?

Não, infelizmente, é um fenômeno mundial. Há chefes de Estado na prisão justamente por causa disso. Eu me interroguei muito e cheguei à conclusão de que muitos males crescem principalmente durante as mudanças epocais. Estamos vivendo não tanto uma época de mudanças, mas uma mudança de época. E, portanto, se trata de uma mudança de cultura. Justamente nesta fase, emergem coisas desse tipo. A mudança de época alimenta a decadência moral, não só na política, mas também na vida financeira ou social.

Os cristãos também não parecem brilhar por testemunho...

É o ambiente que facilita a corrupção. Não digo que todos sejam corruptos, mas acho que é difícil permanecer honesto na política. Falo sobre todos os lugares, não da Itália. Eu também penso em outros casos. Às vezes há pessoas que gostariam de deixar as coisas claras, mas depois se encontram em dificuldades, e é como se fossem fagocitadas por um fenômeno endêmico, em vários níveis, transversal. Não porque seja a natureza da política, mas porque, em uma mudança de época, os estímulos em direção a um certo desvio moral se tornam mais fortes.

O senhor se assusta mais com a pobreza moral ou material de uma cidade?

Ambas me assustam. Por exemplo, eu posso ajudar um faminto para que não tenha mais fome, mas, se ele perdeu o trabalho e não encontra mais um emprego, isso tem a ver com a outra pobreza. Ele não tem mais dignidade. Talvez ele pode ir à Cáritas e levar para casa uma cesta básica, mas experimenta uma pobreza gravíssima que arruína o coração. Um bispo auxiliar de Roma me contou que muitas pessoas vão ao restaurante popular e, às escondidas, cheias de vergonha, levam comida para casa. A sua dignidade progressivamente se empobreceu, vivem em um estado de prostração.

Pelas ruas consulares de Roma, veem-se menininhas de apenas 14 anos muitas vezes forçadas à se prostituir na indiferença geral, enquanto, no metrô, assiste-se à mendicância das crianças. A Igreja ainda é fermento? O senhor se sente impotente como bispo diante dessa degradação moral?

Eu sinto dor. Sinto uma enorme dor. A exploração das crianças me faz sofrer. Na Argentina também é a mesma coisa. Para alguns trabalhos manuais, são usadas as crianças porque têm as mãos menores. Mas as crianças também são exploradas sexualmente em hotéis. Uma vez, avisaram-me que, em uma rua de Buenos Aires, havia menininhas prostitutas de 12 anos. Eu me informei, e efetivamente era assim. Isso me fez mal. Mas ainda mais por ver que eram carros de alta cilindrada dirigidos por idosos que paravam. Podiam ser seus os avós. Faziam com que a menina subisse e lhe pagavam 15 pesos, que depois serviam para comprar os restos da droga, o "pacote". Para mim, essas pessoas que fazem isso às meninas são pedófilos. Isso também acontece em Roma. A Cidade Eterna, que deveria ser um farol no mundo, é espelho da degradação moral da sociedade. Acho que são problemas que são resolvidos com uma boa política social.

O que a política pode fazer?

Responder de modo claro. Por exemplo, com serviços sociais que levam as famílias a entender, acompanhando-as para sair de situações pesadas. O fenômeno indica uma deficiência de serviço social na sociedade.

Mas a Igreja está trabalhando muito...

E deve continuar a fazê-lo. Ela precisa ajudar as famílias em dificuldades, um trabalho em saída que impõe o esforço comum.

Em Roma, cada vez mais jovens não vão à igreja, não batizam os filhos, não sabem nem mesmo fazer o sinal da cruz. Que estratégia é preciso para inverter essta tendência?

A Igreja deve sair pelas ruas, buscar as pessoas, ir às casas, visitar as famílias, ir às periferias. Não ser uma Igreja que só recebe, mas que oferece.

E os párocos não devem ficar penteando as ovelhas...

(Risos) Obviamente. Estamos em um momento de missão há cerca de uma década. Devemos insistir.

O senhor se preocupa com a cultura da desnatalidade na Itália?

Acho que se deve trabalhar mais pelo bem comum da infância. Formar uma família é um compromisso. Às vezes, o salário não é suficiente, não se chega ao fim do mês. Tem-se medo de perder o trabalho ou de não poder mais pagar o aluguel. A política social não ajuda. A Itália tem uma taxa baixíssima de natalidade. Na Espanha é o mesmo. A França vai um pouco melhor, mas ela também é baixa. É como se a Europa tivesse se cansado de ser mãe, preferindo ser avó. Muito depende da crise econômica e não só de um desvio cultural marcado pelo egoísmo e pelo hedonismo. Outro dia, eu lia uma estatística sobre os critérios para as despesas da população em nível mundial. Depois da alimentação, do vestuário e dos medicamentos, três itens necessários, seguem a cosmética e as despesas com animais de estimação.

Os animais importam mais do que as crianças?

Trata-se de outro fenômeno de degradação cultural. Isso porque a relação afetiva com os animais é mais fácil, mais programável. Um animal não é livre, enquanto ter um filho é uma coisa complexa.

O Evangelho fala mais aos pobres ou aos ricos para convertê-los?

A pobreza está no centro do Evangelho. Não se pode entender o Evangelho sem entender a pobreza real, levando em conta que também existe uma pobreza belíssima do espírito: ser pobre diante de Deus, porque Deus enche você. O Evangelho se volta indistintamente aos pobres e aos ricos. Ele fala tanto de pobreza quanto de riqueza. De fato, não condena os ricos; no máximo as riquezas, quando se tornam objetos idolatrados. O deus dinheiro, o bezerro de ouro.

O senhor passa a imagem de ser um papa comunista, pauperista, populista. A revista The Economist, que lhe dedicou uma capa, afirma que o senhor fala como Lênin. O senhor se reconhece em tudo isso?

Eu digo apenas que os comunistas nos roubaram a bandeira. A bandeira dos pobres é cristã. A pobreza está no centro do Evangelho. Os pobres estão no centro do Evangelho. Tomemos Mateus 25, o protocolo pelo do qual seremos julgados: tive fome, tive sede, estive na prisão, estava doente, nu. Ou olhemos para as Bem-aventuranças, outra bandeira. Os comunistas dizem que tudo isso é comunista. Sim, como não, 20 séculos depois... Então, quando eles falam, se poderia dizer a eles: mas vocês são cristãos! (risos)

Se o senhor me permite uma crítica...

Claro...

O senhor talvez fale pouco das mulheres e, quando fala, aborda o assunto apenas do ponto de vista da maternidade, da mulher esposa, da mulher mãe etc. Porém, as mulheres já lideram Estados, multinacionais, exércitos. Na Igreja, em sua opinião, que lugar as mulheres ocupam?

As mulheres são a coisa mais bela que Deus fez. A Igreja é mulher. Igreja é uma palavra feminina. Não se pode fazer teologia sem essa feminilidade. Sobre isso, você tem razão, não se fala o suficiente. Estou de acordo que é preciso trabalhar mais sobre a teologia da mulher. Eu já disse isso, e se está trabalhando nesse sentido.

O senhor não entrevê uma certa misoginia de fundo?

O fato é que a mulher foi tirada de uma costela... (ri com gosto). Estou brincando, é uma piada. Estou de acordo que se deve aprofundar mais a questão feminina, senão não se pode entender a própria Igreja.

Podemos esperar do senhor decisões históricas, tipo uma mulher como chefe de dicastério, não digo do clero...

(Risos) Bem, muitas vezes os padres acabam sob a autoridade das perpétuas...

Em agosto, o senhor vai para a Coreia. É a porta para a China? O senhor está apontando para a Ásia?

Vou ir à Ásia duas vezes em seis meses. À Coreia, em agosto, para encontrar os jovens asiáticos. Em janeiro, ao Sri Lanka e às Filipinas. A Igreja na Ásia é uma promessa. A Coreia representa muito, tem às suas costas uma história belíssima, por dois séculos não teve padres, e o catolicismo avançou graças aos leigos. Também houve mártires. Quanto à China, trata-se de um desafio cultural grande. Grandíssimo. E depois há o exemplo de Matteo Ricci, que fez tanto bem...

Onde está indo a Igreja de Bergoglio?

Graças a Deus, eu não tenho nenhuma Igreja, eu sigo a Cristo. Não fundei nada. Do ponto de vista do estilo, não mudei de como eu era em Buenos Aires. Sim, talvez alguma coisinha, porque se deve, mas mudar na minha idade teria sido ridículo. Sobre o programa, ao contrário, eu sigo aquilo que os cardeais pediram durante as congregações gerais antes do conclave. Eu vou nessa direção. O Conselho dos oito cardeais, um organismo externo, nasce daí. Havia sido pedido para que ajudasse a reformar a Cúria. O que, aliás, não é fácil, porque se dá um passo, mas depois surge que é preciso fazer isto ou aquilo, e, se antes havia um dicastério, depois se tornam quatro. As minhas decisões são o resultado das reuniões pré-conclave. Não fiz nada sozinho.

Uma abordagem democrática...

Foram decisões dos cardeais. Eu não sei se é uma abordagem democrática, eu diria mais sinodal, mesmo que a palavra não seja apropriada para os cardeais.

O que o senhor deseja aos romanos pelos patronos São Pedro e São Paulo?

Que continuem sendo bravos. São tão simpáticos. Eu vejo isso nas audiências e quando vou às paróquias. Eu lhes desejo que não percam a alegria, a esperança, a confiança, apesar das dificuldades. O romanaccio [dialeto romano] também é bonito.

Wojtyla tinha aprendido a dizer: Volemose bene, damose da fa'. O senhor aprendeu algumas frases em romanesco?


Por enquanto, pouco. Campa e fa' campa'! (risos).

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

“A corte é a lepra do papado”, afirma Francisco


O jornal La Repubblica, 01-10-2013, publica entrevista que o papa Francisco concedeu ao jornalista Eugenio Scalfari. Scalfari escreveu duas cartas a Bergoglio, as quais foram respondidas pelo próprio Papa, que agora aceitou o convite do jornalista, fundador e primeiro diretor do jornal La Repubblica.

Eis a entrevista.

Disse-me o papa Francisco: “O mais grave dos males que afligem o mundo nestes anos é o desemprego dos jovens e a solidão em que são deixados os idosos. Os idosos necessitam de cuidado e de companhia. Os jovens precisam de trabalho e de esperança, mas não têm nenhum dos dois. Diga-me: pode-se viver jogado fora do presente? Sem memória do passado e sem desejo de projetar-se no futuro construindo um projeto, um futuro, uma família? É possível continuar assim? Isto, segundo me parece, é o problema mais urgente que a Igreja tem pela frente”.

Santidade lhe digo, é um problema sobretudo político, diz respeito aos Estados, aos governos, aos partidos, às organizações sindicais.

Sem dúvida, o senhor tem razão, mas diz respeito à Igreja, sobretudo à Igreja, porque esta situação não fere somente os corpos, mas também as almas. A Igreja deve sentir-se responsável tanto pelas almas quanto pelos corpos.

Santidade, o senhor diz que a Igreja dever ser responsável. Devo deduzir que a Igreja não está consciente deste problema e que o senhor a incita nesta direção?

Em grande medida, existe a consciência, mas não o bastante. Eu desejo que ela seja maior. Não é somente este problema que temos pela frente, mas é o mais urgente e o mais dramático.

O encontro com o Papa ocorreu na terça-feira passada, na sua residência de Santa Marta, numa pequena sala, austera, com uma mesa e cinco ou seis cadeiras, um quadro na parede. Foi precedida por um telefonema que não mais esquecerei enquanto eu estiver vivo.

Eram duas e meia da tarde. Tocou o telefone, e a voz um pouco agitada da minha secretária me disse: “O Papa está na linha e o passo imediatamente”.

Surpreso, ouço imediatamente a voz de Sua Santidade do outro lado da linha, que diz:

“Bom dia, sou Papa Francisco”.

Bom dia, Santidade – digo, e depois – estou surpreso. Não esperava que me telefonasse.

Por que surpreso? O senhor me escreveu uma carta pedindo para me conhecer pessoalmente. Eu tinha o mesmo desejo e aqui estou para agendar o encontro. Vejamos a minha agenda: quarta-feira não posso, nem segunda-feira. O senhor pode na terça?

Respondo: “Sim, está ótimo!”

O horário é um pouco incômodo. Às 15h, pode ser? Se não puder, mudamos o dia.

Santidade, o horário está ótimo.

Então, estamos de acordo: terça-feira, 24, às 15h. Em Santa Marta. O senhor deve entrar pela porta do Santo Ofício.

Não sei como concluir este telefonema e lhe digo: posso abraçá-lo pelo telefone?

Sem dúvida, lhe abraço igualmente. Depois o faremos pessoalmente. Até logo.

Agora estou eu aqui. O Papa entra e me dá a mão. Sentamos. O Papa sorri e me diz:

Alguns dos meus colaboradores que lhe conhecem me disseram que o senhor tentará me converter.

É uma anedota e lhe respondo. Também os meus amigos pensam que o senhor quer me converter. Ele sorri e responde:

O proselitismo é uma solene besteira (una solene sciocchezza), não tem sentido. É preciso que nos conheçamos, nos escutemos e cresçamos no conhecimento do mundo que nos circunda. Acontece comigo que, depois de um encontro, tenho vontade de fazer outro, porque nascem novas ideias e se descobrem novas necessidades. Isto é importante: conhecer-se, ouvir, ampliar o horizonte dos pensamentos. O mundo é feito de estradas que nos aproximam e distanciam, mas o importante é que nos levem para o Bem.

Santidade existe uma visão única do Bem? E quem o estabelece?

Cada um de nós tem uma visão do Bem e também do Mal. Devemos incitar a proceder para aquilo que cada um pensa que seja o Bem.

O senhor, Santidade, já o escrevera na carta que me endereçou. A consciência é autônoma, dissera, e cada um de nós deve obedecer à própria consciência. Penso que aquela seja uma das passagens mais corajosas ditas por um Papa.

E o repito. Cada um de nós tem uma ideia do Bem e do Mal e deve fazer a escolha de seguir o Bem e combater o Mal como o concebe. Isto bastaria para melhorar o mundo.

A Igreja o está fazendo?

Sim, as nossas missões têm este objetivo: individuar as necessidades materiais e imateriais das pessoas e buscar satisfazê-las da maneira como podemos. O senhor sabe o que é “ágape”?

Sim, sei.

É o amor pelos outros, como Nosso Senhor o pregou. Não é proselitismo, é amor. Amor pelo próximo, fermento que serve o bem comum.

Ama o próximo como a ti mesmo.

Exatamente assim.

Jesus na sua pregação disse que o ágape, o amor pelos outros, é o único modo de amar a Deus. Corrija-me caso esteja errado.

Não está errando. O Filho de Deus se encarnou para infundir nas almas dos homens o sentimento da fraternidade. Todos irmãos e todos filhos de Deus. Abba, como ele chamava o Pai. Eu lhes indico o caminho, dizia. Segui e encontrareis o Pai e sereis todos seus filhos e Ele terá a sua complacência em vocês.

O ágape, o amor de cada um de nós por todos os outros, do mais próximo aos mais longínquos, é, precisamente, o único modo que Jesus indicou para encontrar o caminho da salvação e das bem-aventuranças.

Contudo, a exortação de Jesus, recordamos anteriormente, é que o amor pelo próximo é igual ao que temos a nós mesmos. Portanto, o que muitos chamam de narcisismo é reconhecido como válido, positivo, na mesma medida do outro. Discutimos longamente a este respeito.

A mim – dizia o Papa – a palavra narcisismo não agrada, indica um amor desfocado para si mesmo e isto não é bom, pois pode produzir graves problemas não somente para a alma de quem é afetado, mas também na relação com os outros, com a sociedade em que vive. O verdadeiro problema é que os mais atingidos por isto, que na realidade é uma espécie de distúrbio mental, são pessoas que têm muito poder. Muitas vezes os chefes (“i Capi”, no original) são narcísicos.

Também muitos chefes da Igreja foram narcísicos.

Sabe o que penso sobre isto? Os chefes da Igreja muitas vezes foram narcísicos e excitados pelos seus cortesãos. A corte é a lepra do papado.

A lepra do papado. O senhor falou precisamente assim. Mas que corte? O senhor alude, por acaso, à Cúria?, perguntei.

Não, na Cúria há, às vezes, cortesãos. Mas a Cúria na sua complexidade é uma outra coisa. É a que nos exércitos se chama de intendência, gere os serviços que servem a Santa Sé. Mas tem um defeito: é Vaticano-cêntrica. Vê e cuida dos interesses do Vaticano, que são ainda, em grande parte, interesses temporais. Esta visão Vaticano-cêntrica descuida do mundo que nos circunda. Não compartilho com esta visão e farei tudo para mudá-la. A Igreja é e deve voltar a ser uma comunidade do povo de Deus, e os presbíteros, os párocos, os bispos estão a serviço do povo de Deus. A Igreja é isto, uma palavra, não por acaso, diferente da Santa Sé, que tem uma função importante, mas está a serviço da Igreja. Eu não teria a fé plena em Deus e no seu Filho se não fosse formado na Igreja e tive a sorte de me encontrar, na Argentina, numa comunidade sem a qual não teria consciência de mim e da minha fé.

O senhor percebeu a sua vocação desde jovem?

Não, não muito jovem. Tive que trabalhar, ganhar algum salário. Fiz a universidade. Tive uma professora que aprendi a respeitar e se tornou minha amiga, era uma fervorosa comunista. Muitas vezes lia para mim e me dava para ler textos do Partido Comunista. Assim conheci também aquela concepção muito materialista. Recordo que me fez ver o comunicado dos comunistas americanos em defesa de Rosenberg, que foram condenados à morte. A mulher de que estou falando foi presa, torturada e morta pelo regime ditatorial da Argentina.

O comunismo o seduziu?

O seu materialismo não me seduziu. Mas conhecê-lo por meio de uma pessoa corajosa e honesta me foi útil. Compreendi algumas coisas, um aspecto social, que depois encontrei na doutrina social da Igreja.

A teologia da libertação, que o papa Wojtyla excomungou, era bastante presente na América Latina.

Sim, muitos dos seus expoentes eram argentinos.

O senhor acha que foi certo que o Papa os combatesse?

Sim, porque davam um seguimento político à teologia. Mas muitos deles eram crentes e com um alto conceito de humanidade.

Santidade, permita-me que lhe diga algo da minha formação cultural? Fui educado por uma mãe muito católica. Aos 12 anos venci uma disputa de alunos de catequese feita entre várias paróquias de Roma e ganhei um prêmio do Vicariato. Comungava sempre nas primeiras sextas-feiras, enfim, praticava a liturgia e acreditava. Mas tudo mudou quando entrei no liceu. Li, entre outros textos de filosofia que estudávamos, o “Discurso do Método” de Descartes e fiquei impressionado pela frase, que se tornou icônica, “Penso, logo existo”. O ‘eu’ tornou-se, assim, a base da existência humana, a sede autônoma do pensamento.

Descartes, no entanto, nunca negou a fé do Deus transcendente.

É verdade, mas tinha posto o fundamento de uma visão totalmente diferente e me encaminhou depois, corroborado por muitas outras leituras, e me levou à outra margem.

O senhor, no entanto, se entendi bem, é não crente mas não um anticlerical. São duas coisas muito diferentes.

É verdade, não sou anticlerical, mas me torno quando encontro um clerical.

O Papa sorri e me diz:

Também me acontece isto. Quando encontro um clerical, me torno anticlerical de vez. O clericalismo não deveria ter nada a ver com o cristianismo. São Paulo, que foi o primeiro a falar aos Gentios, aos pagãos, aos crentes em outras religiões, foi o primeiro a nos ensinar isto.

Posso lhe pedir, Santidade, quais são os santos que estão mais próximos da sua alma e quais lhe ajudaram a formar a experiência religiosa?

São Paulo é aquele que me colocou os eixos da nossa religião e do nosso credo. Não se pode ser cristão consciente sem São Paulo. Traduziu a pregação de Cristo numa estrutura doutrinária que, apesar dos aggiornamentos de uma imensa quantidade de pensadores, de teólogos, de pastores de almas, resistiu e resiste depois de dois mil anos. E depois Agostinho, Bento e Tomás e Inácio. E, naturalmente, Francisco. Devo lhe explicar por quê?

Francisco – seja-me permitido, a esta altura, chamá-lo assim, porque é ele mesmo que o sugere pelo que fala, sorri, por suas exclamações de surpresa ou de partilha, me olha como que me encorajando a lhe fazer perguntas mais escabrosas e mais complicadas para quem guia a Igreja. Assim, lhe pergunto: De Paulo explicou a importância e o seu papel, mas gostaria de saber quais foram, entre os que foram citados, os que sente mais próximos da sua alma?

O senhor me pede uma classificação, mas estas podem ser feitas se falamos de esporte ou de coisas análogas. Poderei lhe citar os melhores jogadores de futebol da Argentina. Mas os santos...

Mas não quero evadir a sua pergunta. O senhor não me pediu uma classificação sobre a importância cultural e religiosa, mas quais santos estiveram mais próximos da minha alma. Então lhe digo: Agostinho e Francisco.

E não Inácio, ordem a qual o senhor pertence?

Inácio, por razões compreensíveis, é aquele que conheço mais do que os outros. Fundou a nossa Ordem. Recordo-lhe que desta Ordem também era Carlo Maria Martini, que me é muito caro assim como ao senhor. Os jesuítas foram e ainda são o fermento – não os únicos mas, talvez, os mais eficazes – da catolicidade; cultura, ensino, testemunho missionário, fidelidade ao Pontífice. Mas Inácio fundou a Companhia, era também um reformador e um místico. Sobretudo um místico.

E o senhor acha que os místicos são importantes para a Igreja?

Foram fundamentais. Uma religião sem místicos é uma filosofia.

O senhor tem uma vocação mística?

O que o senhor acha?

Parece-me que não.

Provavelmente, o senhor tem razão. Adoro os místicos. Também Francisco, por muitos aspectos da sua vida, foi místico, mas eu não acredito que tenho esta vocação. Mas é preciso que nos entendamos sobre o significado profundo desta palavra. O místico consegue despojar-se do fazer, dos fatos, dos objetivos e até da pastoralidade missionária e se eleva até atingir a comunhão com as Bem-aventuranças. São momentos breves, mas que preenchem a vida inteira.

Para o senhor isto nunca aconteceu?

Raramente. Por exemplo, quando o Conclave me elegeu Papa. Antes da aceitação, pedi para me retirar por alguns instantes no quarto que fica ao lado do balcão sobre a praça. A minha cabeça estava completamente vazia e uma grande ânsia me invadira. Para fazê-la passar e me relaxar, fechei os olhos e todo e qualquer pensamento desapareceu. Também aquele de recusar o encargo, como o resto do procedimento litúrgico seguinte. Fechei os olhos e não mais tive nenhuma ânsia ou emotividade. A um certo ponto, uma grande luz me invadiu. Durou um instante, mas me pareceu algo longuíssimo. Depois a luz se dissipou. Levantei-me e me dirigi até a sala em que me esperavam os cardeais e a mesa sobre a qual estava o ato de aceitação. Assinei-o, o cardeal camerlengo o assinou, e depois foi o momento do “Habemus Papam”.

Permanecemos alguns momentos em silêncio e depois disse: falávamos dos santos que o senhor sente mais próximos da sua alma e ficamos em Agostinho. Pode me dizer por que o sente mais próximo de si?

Também o meu predecessor tem em Agostinho o seu ponto de referência. Esse santo passou por muitos eventos na sua vida e mudou várias vezes a sua posição doutrinária. Teve também palavras muito duras no confronto com os hebreus, que eu nunca compartilhei. Escreveu muitos livros, e aquele que me parece mais revelador da sua intimidade intelectual e espiritual é “Confissões”. Elas contêm algumas manifestações de misticismo, mas ele não é, como muitos sustentam, o continuador de Paulo. Ele vê a Igreja e a fé no mundo de uma maneira profundamente diferente de Paulo, talvez porque quatro séculos os separam.

Qual é a diferença, Santidade?

Para mim, em dois aspectos substanciais. Agostinho se sente impotente de fronte à imensidade de Deus e às tarefas que um cristão e um bispo deveriam realizar. No entanto, ele não foi impotente, mas na sua alma se sentia sempre como estando abaixo do que deveria e queria fazer. E depois da graça dispensada pelo Senhor como elemento fundante da fé. Da vida. Do sentido da vida. Quem não é tocado pela graça pode ser uma pessoa sem mácula e sem medo, mas não será nunca uma pessoa tocada pela graça. Esta é a intuição de Agostinho.

O senhor se sente tocado pela graça?

Isto não se pode saber. A graça faz parte da consciência, é a quantidade de luz que temos na alma, não de sabedoria nem de razão. Também o senhor, sem o saber, poderia estar tocado pela graça.

Sem fé? Não crente?

A graça diz respeito à alma.

Eu não creio em alma.

Não crê, mas tem.

Santidade, o senhor dissera que não tinha nenhuma intenção em me converter e creio que não conseguiria.

Isto não se sabe; contudo, não tenho nenhuma intenção em lhe converter.

E Francisco?

É grandíssimo porque é tudo. Homem que quer fazer, quer construir, funda uma Ordem e as suas regras, é itinerante e missionário, é poeta e profeta, é místico. Constatou nele mesmo o mal e o superou. Ama a natureza, os animais, a erva do campo e os pássaros que voam no céu, mas sobretudo ama as pessoas, as crianças, os velhos, as mulheres. É o exemplo mais luminoso daquele ágape de que falávamos antes.

O senhor tem razão, Santidade. A descrição é perfeita. Mas por que nenhum dos seus predecessores escolheu o nome de Francisco? E, segundo me parece, nenhum outro o escolherá depois do senhor.

Isto não sabemos. Não hipotequemos o futuro. É verdade, antes nenhum o escolheu. Aqui afrontamos o problema dos problemas. O senhor quer beber algo?

Obrigado, talvez um copo d'água.

O Papa se levanta, abre a porta e pede a um colaborador que estava entrando que lhe traga dois copos de água. Pede se eu quero um café. Digo que não é preciso. Chega a água. No fim da nossa conversação o meu copo está vazio, mas o dele permaneceu cheio. Molha a garganta e começa.

Francisco queria uma Ordem mendicante e também itinerante. Missionários em busca de encontrar, escutar, dialogar, ajudar, difundir a fé e o amor. Sobretudo o amor. E mirava uma Igreja pobre que assumisse o cuidado dos outros, recebesse ajuda material e a utilizasse para sustentar os outros, com nenhuma preocupação consigo mesma. Passaram 800 anos desde então, e os tempos mudaram muito, mas o ideal de uma Igreja missionária e pobre permanece mais do que válida. Esta é a Igreja que foi pregada por Jesus e pelos seus discípulos.

Vocês cristãos são, atualmente, uma minoria. Até na Itália, que era definida como o jardim do Papa, os católicos praticantes seriam, segundo algumas sondagens, entre 8 e 15%. Os católicos que dizem sê-lo mas que são de fato, são poucos, uns 20%. No mundo existe um bilhão de católicos, e também com as outras Igrejas cristãs, vocês superam um bilhão e meio. Mas o planeta é habitado por 6 a 7 bilhões de pessoas. Vocês são, é certo, muitos, especialmente na África e na América Latina, mas minorias.

Sempre fomos minoria, mas o tema, hoje, não é este. Pessoalmente penso que ser uma minoria pode ser uma força. Devemos ser uma semente de vida e de amor, e a semente é uma quantidade infinitamente menor da massa dos frutos, das flores e das árvores que nascem da semente. Parece-me que já disse que o nosso objetivo não é o proselitismo, mas a escuta das necessidades, dos desejos, das desilusões, do desespero, da esperança. Devemos voltar a dar esperança aos jovens, ajudar os idosos, abrir para o futuro, difundir o amor. Pobres entre os pobres. Devemos incluir os excluídos e pregar a paz. O Vaticano II, inspirado pelo papa João e por Paulo VI, decidiu olhar para o futuro com espírito moderno e abrir-se à cultura moderna. Os padres conciliares sabiam que abrir-se à cultura moderna significava ecumenismo religioso e diálogo com os não-crentes. Desde então foi feito muito pouco nesta direção. Tenho a humildade e a ambição de querer fazê-lo.

Também porque - me permito acrescentar - a sociedade moderna em todo o planeta atravessa um momento de crise profunda, e não somente econômica, mas social e espiritual. O senhor, no início deste nosso encontro, descreveu uma geração excluída do presente. Também nós, não-crentes, sentimos este sofrimento quase antropológico. Por isto queremos dialogar com os crentes e com quem melhor os representa.

Eu não sei se sou o melhor representante, mas a Providência me colocou como guia da Igreja e da Diocese de Pedro. Farei o que for possível para cumprir o mandato que me foi confiado.

Jesus, como o senhor recordou, disse: ama o teu próximo como a ti mesmo. Parece-lhe que isto aconteceu?

Não. O egoísmo aumentou e o amor aos outros diminuiu.

Este, então, é o objetivo que nos une: ao menos intensificar estes dois tipos de amor. A sua Igreja está pronta e preparada para esta tarefa?

O senhor, o que pensa?

Penso que o amor pelo poder temporal seja ainda muito forte entre os muros do Vaticano e na estrutura institucional de toda a Igreja. Penso que a Instituição predomina sobre a Igreja pobre e missionária que o senhor desejaria.

Realmente, as coisas estão assim e nesta matéria não se fazem milagres. Recordo-lhe que também Francisco, no seu tempo, teve que negociar com a hierarquia romana e com o Papa para que as regras da sua Ordem fossem reconhecidas. No fim obteve a aprovação, mas com profundas mudanças e compromissos.

O senhor seguirá o mesmo caminho?

Certamente não sou Francisco de Assis, e não tenho a sua força e a sua santidade. Mas sou o Bispo de Roma e o Papa da catolicidade. Como primeira coisa, decidi nomear um grupo de oito cardeais para que sejam o meu conselho. Não cortesãos, mas pessoas sábias e animadas pelos mesmos sentimentos.

Fonte: La Repubblica
Tradução é da IHU On-Line.

01 de outubro de 2013

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Francisco e a teologia da bagagem de mão


O Papa Francisco acendeu nos corações uma expectativa, esperanças de uma Igreja que se renova, que continua a sua incessante reforma. Isso depende de alguns gestos: pela primeira vez um papa subiu a escada do avião carregando nas mãos a sua maleta, sem confiá-la aos seus colaboradores.

A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 23-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Muitos estão falando de novo de "primavera da Igreja", inaugurada pelo Papa Francisco. Quem viveu a primavera anunciada por Pio XII em maio de 1958 e inaugurada pelo Papa João XXIII e pelo Concílio Vaticano II, não esperava mais uma nova estação rica em esperança e aberturas. Principalmente depois das duas últimas décadas.

E ao invés? Isso também deve ser reconhecido: o Papa Francisco acendeu nos corações uma expectativa, esperanças de uma Igreja que se renova, que continua a sua incessante reforma. Esse juízo positivo e acima de tudo essa expectativa dependem de algumas palavras e de alguns gestos: como os feitos nessa segunda-feira, que nos mostram pela primeira vez um papa subindo a escada do avião carregando nas mãos a sua maleta, sem confiá-la aos seus colaboradores.

Como se Francisco dissesse: ninguém deve portar um peso no meu lugar. E depois, tendo aterrissado no Brasil, subiu em um pequeno carro, um Fiat Idea, que era o menor carro do cortejo. Comecemos, portanto, pelos gestos. Em quatro meses, não podem ser muitos, mesmo que aqueles poucos tenha sido imediatamente relatados como "os floreios do Papa Francisco", por serem simples, eloquentes e também singulares, como as do Pobrezinho de Assis. Eleito papa no dia 13 de março, Francisco se assomou à Praça de São Pedro e, antes de conceder a bênção apostólica ao povo, pediu que o povo invocasse para ele a bênção de Deus e se inclinou em um silêncio de adoração a Deus, de oração a Deus, mas também de profunda comunhão.

Essa ação de Francisco, que surpreendeu e tocou os corações daqueles que no mundo queriam conhecer a identidade do novo papa, deve ser avaliada em si mesma, como um gesto seu, pessoal, que pertence ao seu estilo no exercício do ministério pastoral. Sim, com o Papa Francisco sentiu-se "algo de novo hoje debaixo do sol" (Giovanni Pascoli)... E assim, sem aumentar, mas também sem esquecer tal ato, é preciso contar a sua vontade de simplicidade, da qual os crentes tinham nostalgia desde a morte do Papa João XXIII.

A sua veste sóbria, a sua cruz peitoral não de ouro e não cheia de jóias, o desaparecimento do trono e dos ouropéis que lembravam "os direitos da coroa", a sua viagem no ônibus com os outros cardeais para retornar à Casa Santa Marta, o fato de se sentar à mesa dos coirmãos para as refeições, sem pensar logo em uma mesa sua e nos seus convidados, o fato de cumprimentar com entusiasmo e envolvimento nos abraços e nos apertos de mão aqueles que o encontram, a sua linguagem muito humana: tudo isso nos deu uma nova imagem do bispo de Roma.

É tolice fazer comparações com os papas anteriores, assim como será tolice fazer comparações com o que vier, mas o que deve ser enfatizado é que as pessoas sentem que este papa é um homem. Disse-se do Papa João XXIII: "Um cristão no trono de Pedro"; diz-se do Papa Francisco: "Um homem tornou-se bispo de Roma".

Quanto à liturgia, nela não há atitudes hieráticas, ele não assume perfis de baixo-relevo assírio: senta-se em uma poltrona, e não em um trono de reis, faz a homilia de pé do ambão, como todos, abandonou vestes que, embora dignas, não representavam mais o sentimento geral que quer sobriedade na liturgia. Além disso, não se pode esquecer um gesto litúrgico do qual o Papa Francisco efetivamente ampliou a interpretação de modo inédito e talvez até "escandaloso" para alguns católicos: o gesto do lava-pés, que sempre foi realizado em São Pedro com clérigos, cônegos, cardeais.

Pois bem, o Papa Francisco, em continuidade com o que havia feito no seu ministério episcopal em Buenos Aires, saiu do Vaticano para ir para a prisão juvenil romana de Casal del Marmo, onde lavou os pés de 12 detidos, incluindo duas jovens e alguns não batizados. Verdadeira interpretação inovadora! O Senhor lavou os pés ao longo de toda a sua vida, isto é, se fez servo de homens e mulheres marcados pelo sofrimento, pela doença, pela necessidade, pela pecado: isso nos lembra o exeghésato (Jo 1, 18) criativo com o qual o Papa Francisco narrou Jesus...

Mas o gesto até agora mais eloquente certamente foi a primeira viagem apostólica ao santuário dos últimos, da humanidade sofredora, àquele mar que, em vez de ser uma ponte de fraternidade, tornou-se para muitos pobres do mundo, que tentam ir rumo ao pão, um lugar de morte. Sem palavras demais, denunciou o egoísmo da margem europeia do Mediterrâneo, tentou causar um sentimento de vergonha naqueles que querem rejeitar esses pobres ou que tentaram não ouvir o seu grito. Aquelas margens europeias, infelizmente, são habitadas principalmente por cristãos e pessoas que se dizem cristãs a ponto de querer defender a sua identidade e os valores cristãos. Enquanto jogava aquela coroa de flores rumo aos afogados no mar, enquanto pedia perdão a Deus e às vítimas, nos sentimos, também nós, como Caim, incapazes de ser guardiões dos nossos irmãos. Sentimos ser dirigida a nós a pergunta: "Homem, onde estás? Que humanização é a sua?...". Em Lampedusa, o grito de Francisco foi um grito de homem a toda a humanidade.

"Esse papa fala demais", disseram alguns. Com efeito, todos os dias, Francisco nos dá uma breve homilia que, além de ser um ato litúrgico importante por si só, pronunciada pelo papa, impõe-se pela sua qualidade magisterial de ensino. Limitando-se a um exame estatístico do léxico do Papa Francisco, pode-se notar que a palavra que se repete mais frequentemente nas suas intervenções públicas é "alegria" (mais de 100 vezes), seguida por "misericórdia" (quase 100), que, unida a "perdão", dá um total de cerca de 150 ocorrências. Depois, "humilde-humildade" (65 vezes), "pobre-pobreza" (40 vezes).

Diante desses dados, parece-me urgente não tanto fazer uma escolha e discutir singularmente os vários termos, mas sim fazer emergir o pensamento do Papa Francisco na sua novidade, que hoje tem uma decisiva "performance" no coração de quem o ouve. Acima de tudo, Francisco tem uma visão de uma Igreja em êxodo, de uma Igreja em movimento e que tem a audácia de sair, de sair de si mesma. Para ser fiel à sua missão e à sua identidade, a Igreja deve sair, porque – são palavras pronunciadas por ele em uma entrevista de 2007 – "continuar sendo, permanecer fiéis implica uma saída. Justamente, se permanecemos no Senhor, saímos de nós mesmos". Sair para caminhar, para construir pontes e ir em frente, como fez o apóstolo Paulo. Portanto, "quando a Igreja perde essa coragem apostólica torna-se uma Igreja parada, uma Igreja ordenada, bonita, tudo bonito, mas sem fecundidade, porque perdeu a coragem de ir para as periferias, aqui onde estão tantas pessoas vítimas da idolatria, da mundanidade, do pensamento fraco... Aqueles que não caminham para não errar, cometem um erro mais grave" (Homilia do dia 8 de maio de 2013).

E na collatio realizada com os movimentos eclesiais na vigília de Pentecostes (18 de maio de 2013), Francisco afirmou: "Não se fechem, por favor! Esse é um perigo: fechamo-nos na paróquia, com os amigos, no movimento, com aqueles com os quais pensamos as mesmas coisas... Mas vocês sabem o que acontece? Quando a Igreja se torna fechada, adoece, adoece... A Igreja deve sair de si mesma. Para onde? Rumo às periferias existenciais, sejam quais forem, mas sair... Eu prefiro mil vezes uma Igreja acidentada, que incorreu em um acidente, do que uma Igreja doente de fechamento".

Em seguida, ofereceu uma verdadeira "pérola" de interpretação das palavras do Senhor Jesus em Apocalipse 3, 20 ("Eis que estou à porta e bato"). "Façam a si mesmos esta pergunta: quantas vezes Jesus está dentro e bate à porta para sair, para sair para fora, e nós não o deixamos sair, por causa das nossas seguranças, porque muitas vezes estamos fechados em estruturas caducas, que servem apenas para nos tornar escravos, e não livres filhos de Deus? Nessa 'saída' é importante ir ao encontro. Esta palavra para mim é muito importante: o encontro com os outros".

O Papa Francisco conhece bem a situação da Igreja e, em particular, a da hierarquia e das instituições que deveriam estar a serviço da própria Igreja. Ele sabe que para todos "a tentação é a de um cristianismo sem cruz, que para no meio do caminho... É a tentação do triunfalismo. Nós queremos o triunfo agora, sem ir para a cruz, um triunfo mundano. O triunfalismo paralisa a Igreja, paralisa os cristãos. A Igreja triunfalista é feliz assim, bem sistematizada, com todos os escritórios, tudo no seu lugar, tudo bonito e eficiente. Mas é uma igreja que renega os mártires... Pensa somente nos triunfos, nos sucessos, e não conhece a regra de Jesus: a regra do triunfo através do fracasso, do fracasso humano, do fracasso da cruz" (Homilia do dia 29 de maio de 2013).

E ainda: "Se seguirmos Jesus como uma proposta cultural, usamos esse caminho para ir mais alto, para ter mais poder. E a história da Igreja está cheia disso, começando por alguns imperadores e, depois, por tantos governantes e tantas pessoas, não? E também alguns – não quero dizer muitos, mas alguns – padres, alguns bispos, não? Alguns dizem que são muitos... Mas alguns que pensam que seguir Jesus é fazer carreira" (Homilia do dia 28 de maio de 2013).

É significativo que à pergunta direta de uma menina: "Mas tu querias ser papa?", ele respondeu: "Tu sabes o que significa que uma pessoa não queira tão bem a si mesma? Uma pessoa que quer ser papa não quer bem a si mesma, e Deus não a abençoa. Não, eu não quis ser papa..." (Collatio do dia 7 de junho). Sim, Francisco não era um bispo empenhado em fazer carreira eclesiástica!

É preciso recordar o motivo que levou o Papa Francisco a assumir esse nome: ele confessou que a inspiração lhe veio do amigo cardeal Cláudio Hummes, que se sentava ao seu lado e lhe disse: "Lembre-se dos pobres". Por isso, Francisco logo confessou o seu desejo que, na realidade, parece ser um verdadeiro manifesto: "Eu quero uma Igreja pobre e para os pobres" (Audiência aos representantes das mídias, 16 de março de 2013).

Não só uma Igreja que se coloca a serviço dos pobres, que atua em seu favor, mas também uma Igreja que se faz pobre percorrendo o itinerário da encarnação, a "via" do Senhor que "sendo rico se fez pobre por nós" (cf. 2Cor 8, 9) para compartilhar em tudo a condição humana. Eis, então, posto com autoridade o primeiro ponto decisivo para uma reforma da Igreja. O Papa Francisco provém daquela periferia do mundo que elaborou a "necessidade da opção preferencial pelos pobres, primeiros destinatários de direito do evangelho", e justamente por isso está habilitado a fazer com que a Igreja volte à condição desejada por Jesus. Não pauperismo ideológico, não romantismo de uma pobreza formal, mas a Igreja ou é pobre – mesmo tendo meios para a sua vida no mundo – ou é mundana, também ela a serviço dos ídolos do dinheiro e do poder, em grave contradição com relação à forma da encarnação do seu Senhor!

Mas o Papa Francisco também manifestou a sua vontade de uma reforma do papado e da Cúria que está a seu serviço. Há ao menos cinco séculos, sempre se volta a falar da reforma da Cúria Romana, mas esta só pode ser substancialmente reformada se se der nova forma e nova compreensão ao ministério petrino do bispo de Roma. Os católicos nunca renunciarão ao ministério de confirmação na fé e de comunhão próprio do bispo de Roma, mas sabem também que a forma que ele assumiu ao longo dos séculos variou e ainda pode mudar.

É graças ao papado que a Igreja Católica permaneceu unida ao longo dos séculos, mas continua sendo verdade que a estrutura do papado nem sempre foi conforme ao evangelho e que deve ser reformada todas as vezes em que se compreende essa urgência evangélica.

Hoje, a partir especialmente das indicações do Concílio Vaticano II, sente-se a necessidade de que o papa não apareça como o "bispo universal", mas sim o bispo da Igreja de Roma "que preside na caridade". A essa eclesiologia de comunhão, portanto, é preciso dar mais força e implementar a "sinodalidade", essa categoria do "caminhar juntos" entre papa, bispos e povo de Deus.

Na homilia do dia 29 de junho, em São Pedro, o Papa Francisco especificou que o ministério do sucessor de Pedro, como confirmação na unidade, deve harmonizar o primado com o sínodo dos bispos e deve trilhar o caminho da sinodalidade. Essas são palavras marcadas por uma radical novidade na boca de um papa: até agora, pertenciam somente aos teólogos.

Francisco está se manifestando como um papa do êxodo, que pode mostrar a todos os cristãos o dinamismo de uma comunhão em que "o amor é a primeira verdade" (Homilia do dia 4 de maio de 2013). O Papa Francisco en-sina, faz sinal indicando sempre a Jesus Cristo, aquele ao qual deve-se voltar o nosso olhar. Por isso, aos representantes dos movimentos eclesiais que gritavam: "Francisco, Francisco!", ele respondeu: "Eu gostaria que vocês gritassem: 'Jesus, Jesus é o Senhor, e está no meio de nós'. De agora em diante, nada de 'Francisco', mas sim 'Jesus'".


Artigo de Enzo Bianchi

24 de julho de 2013

O início do fim: Papa Francisco condena a legalização das drogas


O Papa Francisco foi saudado pela mídia nacional como o portador das aspirações e ideais mais modernos e antenados, como arauto do “politicamente correto”. Quando eleito líder máximo da Igreja Católica em março, iniciou-se o “Domingo de Ramos” do Pontífice Romano e, na época, dissemos que havia muito exagero nas manifestações de apreço da mídia. Parecia-nos que estavam tentando sequestrar a voz do Papa em nome de ideologias. Entendemos que a JMJ 2013 pode marcar a deterioração dessa relação pela mídia politicamente engajada.

Na primeira viagem do Papa Francisco depois da eleição, parece ter começado a “Semana Santa” do relacionamento do Sumo Pontífice com os meios de comunicação. Na quarta-feira passada, dia 14/07, enquanto visitava hospital dedicado ao tratamento e apoio de dependentes químicos, o Santo Padre retomou um tema incômodo para a mídia “politicamente correta”: a descriminação das drogas. O Papa Francisco retomou os ensinamentos tradicionais da doutrina da Igreja Católica e confirmou que a descriminalização das drogas não favorece a luta contra a difusão nem diminui a influência maléfica das drogas sobre os indivíduos. Outras são as ações que realmente têm impacto no combate à dependência de drogas. Eis o texto do Papa:

A chaga do tráfico de drogas, que favorece a violência e que semeia a dor e a morte, exige da inteira sociedade um ato de coragem. Não é deixando livre o uso das drogas, como se discute em várias partes da América Latina, que se conseguirá reduzir a difusão e a influência da dependência química. É necessário enfrentar os problemas que estão na raiz do uso das drogas, promovendo uma maior justiça, educando os jovens para os valores que constroem a vida comum, acompanhando quem está em dificuldade e dando esperança no futuro – Fonte: Papa Francisco, Discurso do Santo Padre em visita ao Hospital Francisco de Assis.

Já dissemos em outro lugar que o uso de drogas tem muito a ver com escravidão. Por este motivo, não é justo nem honesto com os dependentes químicos tratar o assunto como um tema colateral, como uma questão jurídica, simplesmente não é honesto. A drogadição é um drama humano e deve ser tratado como um mal objetivo à vida das pessoas e de suas famílias. Quando o Papa Francisco retoma o ensinamento eclesial católico e rejeita a manipulação midiática do assunto, mesmo que particularmente amável com os dependentes, garante a sadia solução para os que sofrem sob o domínio das drogas: a liberdade da virtude. Em nenhum mundo possível o vício pode ser louvado em contraposição às virtudes. Essa é a doutrina e o ensinamento cristão e filosófico, desde Pedro até Bento XVI, e não será Francisco – que teve embates homéricos com a presidente Christina Kirchner quando bispo – que vai dar qualquer guinada à esquerda por pressão política.

Algo, porém, está para mudar com a visita do Papa Francisco ao Brasil. Aposto que a partir dessa Jornada com os Jovens levantar-se-ão vozes dissonantes ao Papa Francisco nos meios de comunicação nacionais. Obviamente, os críticos não serão abertamente contrários ao Papa, pois afinal, ele é o Papa “que faz a própria comida”, “que não anda em carro caro”, “que não cede a poderosos”, “que não telefone de última geração”, “que não gosta de pompa”. Práticas pessoas que, aliás, os seus aduladores da mídia engajada não seguem absolutamente, mas que gostam de ver outros seguirem. Provavelmente o caminho da crítica a Francisco colocará na conta de Bento XVI a culpa por seu “conservadorismo”. Dir-se-á que o Papa Latino-americano não leva mais adiante a agenda liberal por causa de Ratzinger. E quando não houver mais razões externas, quando não se puder mais esconder o católico sob o Francisco, dir-se-á que a Igreja Católica ainda é a mesma e que ainda não está pronta para o mundo moderno.


by Robson Oliveira –