“Temos visto, desde as
manifestações que tiveram início no dia da abertura da Copa, e em manifestações
anteriores, uma presença excessiva, ostensiva, agressiva e altamente
sofisticada da polícia”, diz o coordenador da Pastoral do Povo de Rua.
As manifestações que ocorreram em São Paulo nas
últimas semanas, reunindo diversos coletivos, têm como ponto em comum “a
contestação dos gastos excessivos da Copa e a ausência de direitos nas áreas de
saúde, moradia e das várias questões que são fundamentais para assegurar a
dignidade humana”, mas a popularidade dos protestos está associada à ação da
polícia e às prisões que, segundo padre Júlio Lancellotti, são equivocadas.
De acordo com ele, “os grupos da polícia
chamados de RoboCop têm equipamentos muitos sofisticados, alguns de origem
israelense, que fotografam, filmam e digitalizam a imagem de todas as pessoas
que estão nas manifestações. Esse equipamento israelense que estão usando é
como uma coluna que carregam numa mochila, nas costas, o qual fotografa, em 360
graus, centenas de imagens por minuto”.
Coordenador da Pastoral do Povo de Rua, padre
Júlio Lancellotti está participando das manifestações em São Paulo e recebeu
ameaças por ter criticado a ação da polícia durante os protestos. Em entrevista
à IHU On-Line, por telefone, ele esclarece que “há muita provocação” durante as
manifestações, “mas elas têm de ser lidas num contexto”. Segundo ele, a
provocação dos manifestantes à polícia “não é pessoal, é institucional”, mas os
policiais “dizem coisas muito pesadas para os manifestantes, que chegam a ser
caracterizadas como assédio moral para as mulheres, e ameaças como ‘hoje vocês
vão rodar’, ‘vocês vão sentir o peso’, ‘a chapa vai esquentar’, etc. Em
contrapartida, menciona, os manifestantes “cantam refrãos como, por exemplo,
‘acabou, vai acabar, eu quero o fim da polícia militar’, depois eles cantam
algo dizendo que o trabalho da polícia é de repressão, e depois cantam ‘não
estudou, vai estudar, porque se não vai acabar sendo polícia militar’. São
essas coisas que fazem parte de uma manifestação”. E dispara: “O pessoal não
vai para a manifestação louvando à Maria”.
Na entrevista a seguir, Lancellotti relata como
ocorreu o processo de prisão de Fábio Hideki Harano e de Rafael Marques
Lusvarghi e as agressões sofridas pelo advogado Daniel Biral. Na avaliação
dele, após a Copa a repressão às manifestações deve continuar e “em SP vai
favorecer o governo, porque grande parte da população gosta e acha bom, pois há
muita manipulação, e quem está na manifestação é visto como baderneiro”,
pontua.
Júlio Renato Lancellotti é formado em Pedagogia
e Teologia, foi professor primário, professor universitário, membro da Pastoral
do Menor da Arquidiocese de São Paulo e há mais de dez anos é o vigário
episcopal do povo de rua. É pároco da Igreja São Miguel Arcanjo, na Moóca, zona
leste de São Paulo.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Qual tem sido o teor dos
protestos em São Paulo, durante a Copa, e quais grupos participam das
manifestações?
Júlio Lancellotti – Vários grupos e coletivos
participam das manifestações, entre eles, o grupo Copa para quem?, o grupo Não
vai ter Copa, o grupo Se Não Tiver Direitos, Não Vai Ter Copa, o grupo Popular
da Copa, os quais apresentam várias reivindicações e questões. O ponto em comum
entre todos eles é a contestação dos gastos excessivos da Copa e a ausência de
direitos nas áreas de saúde, moradia e das várias questões que são fundamentais
para assegurar a dignidade humana, as quais contrastam com os gastos
exorbitantes e da corrupção dos ingressos.
Temos visto, desde as manifestações que tiveram
início no dia da abertura da Copa, e em manifestações anteriores, uma presença
excessiva, ostensiva, agressiva e altamente sofisticada da polícia. Os grupos
da polícia chamados de RoboCop têm equipamentos muito sofisticados, alguns de
origem israelense, que fotografam, filmam e digitalizam a imagem de todas as
pessoas que estão nas manifestações. Esse equipamento israelense que estão
usando é como uma coluna que carregam numa mochila, nas costas, o qual
fotografa, em 360 graus, centenas de imagens por minuto. É um equipamento
sofisticado, e às vezes parece que os policiais até têm medo de que aconteça
algo com o equipamento. Segundo soube, a imagem das pessoas é digitalizada e
enviada para a polícia, que identifica quem são as pessoas e fazem a caçada a
elas, como foi a caçada do Fábio Hideki Harano e do Rafael Marques Lusvarghi,
que foram presos.
Temos percebido que ocorrem muitas revistas no
metrô, intimidação. Nas últimas vezes temos ficado cercados de todos os lados,
pela cavalaria, pela Tropa de Choque.
Percebemos, então, como ocorreu na primeira
manifestação no dia da abertura da Copa, nas estações Carrão e Tatuapé, uma
caçada, um cerco aos manifestantes. Oficialmente a polícia diz que está nas
ruas para garantir o direito de manifestação e usam a expressão absurda de que
as manifestações devem ser “pacíficas”.
IHU On-Line – Como ocorreu a prisão deles?
Júlio Lancellotti – Eles estavam participando de uma
manifestação na Av. Paulista. Naquele dia havia o triplo de policiais na rua e
uma forte presença da polícia civil, porque essa manifestação foi antecedida
daquela do Movimento Passe Livre - MPL, segundo a qual a polícia diz ter
recebido um ofício em que o MPL afirmava não precisar da presença policial nas
manifestações, e a polícia, então, diz que ficou afastada. Mas isso tudo é uma
tática, porque a polícia não vai obedecer a uma ordem de civis. Mas eles
ficaram longe da manifestação, e aconteceram depredações.
Antes de relatar como ocorreu a prisão do Fábio
e do Rafael, gostaria de destacar alguns pontos. Entre eles, a grande presença
de P2, que são policiais infiltrados nas manifestações, inclusive com máscaras,
como se fossem manifestantes. Nós percebemos rapidamente quem eles são pelo
calçado, pelo corte de cabelo e pelas atitudes. Naquele dia em que a polícia
estava afastada, em que a manifestação desceu pela Av. Rebouças, foi pela
Marginal Pinheiros, onde aconteceram depredações; é muito complicado dizer quem
são os autores das depredações e como elas começaram, porque até agora
prenderam uma pessoa sem máscara, um homem que jogou um extintor de incêndio
numa vitrine.
"Há uma massificação midiática, uma
demonização dos movimentos com base em uma racionalidade da perversidade"
Prisões
Depois disso houve uma manifestação na Av. Paulista,
que iniciou na Praça do Ciclista, e foi da Av. Paulista até chegar ao Paraíso
e, de lá, voltou até o Masp, onde depois houve a dispersão dos manifestantes. Havia
uma grande presença de policiais militares: parecia mais uma manifestação da PM
que nós estávamos acompanhando. Também tinha uma grande presença de policiais
civis, com carros descaracterizados. Durante a dispersão, eu já estava cansado,
e quando entramos na estação do metrô, a escada rolante parou de funcionar,
porque a haviam paralisado, e imediatamente vimos dois seguranças do metrô e
dois policiais civis agarrando o Fábio. Descemos a escada rolante e eles
estavam na escada fixa, de modo que ficamos par a par com eles, separados pelo
corrimão. Um policial que estava do lado da escada rolante pulou e passou para
o outro lado. Todas as pessoas que foram parando começaram a fazer pressão para
soltá-lo. O Fábio ainda estava com o capacete da bicicleta que ele usa. Eu vi
os policiais fazerem a revista nele, virarem a mochila dele, retiraram de lá um
salgadinho sabor pimenta, uma garrafinha de vinagre e coisas pessoais dele. Não
tinha nada mais.
Durante o tempo todo da revista e da pressão em
cima do Fábio, os policiais falavam ao telefone, dando e recebendo instruções
e, em seguida, a Tropa de Choque entrou na estação a galope, e a nossa reação
foi correr. Alguns pularam as catracas. Os policiais pegaram um dos rapazes que
estava pulando a catraca e nós voltamos para que a polícia o soltasse. Ele foi solto
e conduzido a comprar o bilhete do metrô, como uma dessas humilhações que os
policiais fazem.
Nessa confusão, não sei como, o capacete do
Fábio veio parar na minha mão. Aí nós voltamos, subimos e os policiais já
tinham levado o Fábio até a entrada da estação do metrô. A tropa de choque pôs
todos os escudos, não deixando ninguém se aproximar, mas como nós estávamos
dentro da estação, eu cheguei bem perto dele e os policiais queriam pegar o
capacete, mas eu disse que o capacete era dele e eu só entregaria na mão dele. Nosso
receio é que pusessem algo no capacete. Nessa hora já havia dez policiais do
Departamento Estadual de Investigações Criminais - Deic na volta dele, muitos
falando ao celular. Nesse momento chegou o carro da polícia e Fábio foi arremessado
para dentro do carro e levado.
A prisão do Rafael eu não vi, mas o vi na
manifestação. Ele estava com uma saia escocesa e tinha até bebido vodca, porque
ele tem muita ligação com a cultura russa e polonesa, e ele não tinha nada nas
mãos nem naquela roupa. Eles o pegaram perto da estação do metrô e o jogaram no
chão. As duas prisões foram feitas no momento da dispersão. A impressão que dá
é de que como a manifestação estava acabando e eles não tinham pegado ninguém,
precisavam de alguém. Temos de ler as manifestações no encadeamento de uma com
a outra. Depois teve uma discussão na Praça Roosevelt, onde dois advogados
foram presos e um deles ficou ferido.
IHU On-Line – Há algum motivo específico para a
prisão de Fábio e Rafael? A que o senhor atribui essas duas prisões?
Júlio Lancellotti – Acredito que sim. O Rafael,
porque é ex-policial e esteve na polícia militar de São Paulo. A forma como ele
age não é agressiva, não ofende os policiais, mas a presença dele traz um
incômodo muito grande. O Fábio é do Sindicato dos Trabalhadores da USP -
Sintusp, que comanda a greve da USP, e tem sido fartamente fotografado com os
demais manifestantes. Nesse levantamento que é feito pela polícia, devem ter
identificado o Fábio como um sindicalista, mas ele é um pacifista. Eu sou
testemunha de defesa dele, porque o habeas corpus, inclusive, foi negado.
IHU On-Line – Como e em que momento se dá o
confronto entre a polícia e os manifestantes? Quais são as provocações que
geram as agressões? Há confronto também durante as manifestações ou somente nos
momentos de dispersão, como o senhor relatou?
Júlio Lancellotti – Há muita provocação, mas elas têm
de ser lidas num contexto, e eu já disse isso para alguns oficiais da PM. A
provocação a eles não é pessoal, é institucional, mas eles dizem coisas muito
pesadas para os manifestantes, que chegam a ser caracterizadas como assédio
moral para as mulheres, e ameaças como “hoje vocês vão rodar”, “vocês vão
sentir o peso”, “a chapa vai esquentar”, etc. Eles falam coisas provocativas
que acabam tendo reações. Agora, os dois advogados presos na Praça Roosevelt
foram presos porque estavam exigindo a identificação dos policiais e por isso
Dr. Daniel Biral foi pego pelo colarinho, sacudido e jogado na parede e no
chão. A prisão do Fábio e do Rafael foi cinematográfica e feita com base em
acusações delirantes, dizendo que eles eram líderes do black bloc, e que o
Fábio é mentor intelectual do black bloc. Quem tem o mínimo de seriedade e
conhece essas coisas, sabe que isso não existe.
IHU On-Line – E como os manifestantes
provocaram os policiais?
Júlio Lancellotti – Eles cantam refrões como, por
exemplo, “acabou, vai acabar, eu quero o fim da polícia militar”, depois eles
cantam algo dizendo que o trabalho da polícia é de repressão, e depois cantam
“não estudou, vai estudar, porque se não vai acabar sendo polícia militar”. São
essas coisas que fazem parte de uma manifestação. O pessoal não vai para a
manifestação louvando à Maria.
IHU On-Line – E os black blocs participaram das
manifestações?
Júlio Lancellotti – Nós precisamos desmistificar e
não demonizar quando se forma um black bloc nas manifestações. Um black bloc
não é uma pessoa. É muito interessante o estudo de Francis Dupuis-Déri, que foi
lançado no Brasil, sobre a formação dos black blocs. Ele explica que eles se
formam no anonimato, no momento. É interessante a análise que ele faz: numa
sociedade ao culto à personalidade, da identidade, do consumo, eles buscam o
anonimato e no momento do glamour estão todos de negro. A formação de um black
bloc se dá, às vezes, de maneira inesperada; é um grupo que tem a sua maneira
de ser. É um estudo muito interessante, que não parte em defesa das táticas,
mas explica que o movimento não tem liderança e, assim sendo, não se pode
acusar o Fábio, por exemplo, de formação de milícia.
Os black blocs são um fenômeno que está
presente em vários locais: na Grécia, no Canadá, nos EUA, na Itália, na França,
na Alemanha. É uma tática, um bloco, que age em diferentes situações e
momentos.
"A Copa não é esporte; é uma competição
nacionalista"
IHU On-Line - Durante
doze anos do governo PT, apontam-se críticas positivas em relação à
distribuição de renda, ao acesso a crédito, ao ingresso de uma massa no mercado
de consumo, acesso ao ensino universitário, etc. Como explica as manifestações
diante desse contexto? Trata-se de algo específico em relação à Copa do Mundo
ou não?
Júlio Lancellotti – Além da questão da Copa, estão
presentes nas manifestações reações à questão da corrupção, aos desvios de
verbas, à própria estrutura de um governo que se chama de progressista, ao
descrédito da democracia representativa, à reforma política, que não acompanhou
as mudanças, e a que se propõe está longe dos anseios da população. Há ainda,
por parte dos governantes, uma incapacidade de entender e dialogar com novos
sujeitos e personagens históricos. Hoje, a estrutura de sindicatos é questionada
e os governantes querem conversar com as lideranças, porque estão dentro de uma
estrutura que tem líderes, tem uma organização hierárquica; eles não estão
conseguindo entender grupos libertários e horizontais. A estrutura do poder
dificulta isso e há uma cristalização de uma visão, que não consegue perceber
outras formas de visão. Convivendo com as pessoas que participam desses
movimentos, vejo seres humanos que não são demônios. Dizer que eles não são
politizados é um engano. E ao dizer que eles estão só manifestando raiva,
parece que toda raiva é somente ruim.
IHU On-Line - Antes do mundial havia muitas
manifestações contrárias à Copa, mas depois do início dos jogos, a pressão
popular diminuiu bastante. Como explica isso?
Júlio Lancellotti – Tem a espetacularização
midiática, apesar de agora começar a aparecer toda a corrupção interna da Copa
com a venda de ingressos. Acredito que há uma massificação midiática, uma
demonização dos movimentos com base em uma racionalidade da perversidade: estão
inconformados, não estão satisfeitos com nada. Isso mexe com aquilo que vemos:
a Copa não é esporte; é uma competição nacionalista. Tudo isso tem colocado em
xeque os vários grupos que se manifestam.
IHU On-Line - O senhor tem recebido muitas
ameaças após as manifestações?
Júlio Lancellotti – Existem as ameaças implícitas e
as explícitas. Somos fotografados e filmados, e em algumas manifestações alguns
policiais me ameaçam explicitamente e agem de forma bastante agressiva. Uma das
situações que chamou atenção — foi feita uma representação no Ministério
Público — foi na ocasião da manifestação na Consolação, quando detonou uma
bomba perto de onde eu estava, e eu estava longe do início das manifestações.
Supõe-se que foi um policial que me feriu. Mas
depois eu recebi um comentário que foi veiculado pela mídia, um recado do
coronel Celso no meu celular, que dizia: “Em face do seu total desconhecimento
das ações da polícia, iremos chamá-lo para os próximos planejamentos, e aí quem
sabe o senhor pode nos ajudar, não é?”. Percebemos que há uma certa intimidação
e se trata de uma coisa absurda. Como ele pode me chamar para participar de um
planejamento de uma ação da polícia?
Eu tenho o telefone do coronel gravado, porque
tivemos um problema com a morte de um morador de rua na área central, porque o
corpo ficou sem custódia da PM. Na ocasião eu telefonei para a assessoria da
segurança pública querendo saber o que estava acontecendo, e o coronel me
telefonou novamente. Aí, na ocasião, eu disse que gravaria o número dele,
porque qualquer nova situação eu tornaria a ligar. Até no dia em que aconteceu
o problema na Praça Roosevelt, eu telefonei muitas vezes para o número dele,
mas ele não atendeu.
IHU On-Line – Quais serão os possíveis reflexos
dessas manifestações nas eleições estaduais de SP e nacionais?
Júlio Lancellotti – Vai continuar uma campanha muito
forte contra as manifestações. Os políticos e candidatos vão se utilizar disso
nas campanhas. A repressão que está havendo em SP vai favorecer o governo,
porque grande parte da população gosta e acha bom, pois há muita manipulação, e
quem está na manifestação é visto como baderneiro. Manifestação pacífica é a
marcha para Jesus; manifestação é cobrança e sempre há tensão. Por outro lado,
o descrédito político é muito grande, e parte das pessoas votará porque o voto
é obrigatório. Mas há uma perda de legitimidade na política.
fonte: IHU

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