Jon Sobrino, s.j.
Teólogo. Director del Centro Monseñor Romero de la UCA
Com essas duas frases, gostaríamos de pôr
alguma luz na confusão e, em muitos casos, indignação, que começou no dia 30 de
setembro.
Sem aviso prévio e sem levar em conta a
dignidade das pessoas, o arcebispado fechou a Tutela Legal (http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=77988). Desde então, houve comunicados
dos que demitiram e dos que foram demitidos, mais divulgados os daqueles do que
os destes. Logo houve também comunicados de instituições internacionais de
renome, da Universidad Centroamericana (UCA) e da Conferência de Religiosos e
Religiosas de El Salvador. Mais recentemente, o arcebispo e a promotoria
intercambiam opiniões sobre os direitos de ambas instituições com relação aos
arquivos.
Muitas outras coisas aconteceram. Algumas são
conhecidas pelo povo de Deus; e, a maioria, como costuma ser normal, as
desconhecem. Recentemente, o arcebispado nomeou uma comissão de conotados
sacerdotes para velar pelos arquivos, para fazer bem as coisas no futuro –e
para reparar a imagem do arcebispado, agora deteriorada como quando retiraram
os desenhos de Fernando Llort da fachada da catedral. Um camponês formulou como
vê o que aconteceu com essas palavras: "Triste. Vergonhoso!”.
1. Os leigos. O povo
de Deus e o Socorro Jurídico. "Povo de Deus” é expressão abstrata e seu conteúdo concreto não é
muito conhecido pelos salvadorenhos. No entanto, há 50 anos, um Concílio
universal definiu o mais real da Igreja de Jesus Cristo com as palavras
"Povo de Deus” e não com as palavras "Igreja hierárquica”. Isso quer
dizer que bispos, padres, seculares, os chamados leigos e leigas, todos são primordial e igualmente membros da
Igreja. As diferenças vêm depois. São diferenças de natureza funcional, e nada dizem
da qualidade de vida cristã de seus membros.
Nos anos 70, em El Salvador, foram os leigos
que se preocuparam com a violação dos direitos humanos no país e os que
defenderam as vítimas. Surgiu o Socorro Jurídico. Muitos salvadorenhos levavam
séculos sofrendo a morte lenta da pobreza, da violência originária. Porém, nos
anos 70, a essa morte uniu-se a morte rápida da repressão. Clamava aos céus e o
grupo de leigos citado, no qual havia advogados, ou seja, gente do direito, se
moveu em sua defesa com a novidade de defendê-los também no âmbito dos direitos
humanos, que eram grosseiramente violados. Daí o adjetivo jurídico [de Socorro] e depois o adjetivo legal [da Tutela].
Um jesuíta, o Pe. Segundo Montes, a quem
Benjamín Cuéllar recorda no artigo que publicamos a seguir, acompanhou e
aglutinou ao grupo no Externato San José, Dom Romero reconheceu que o Socorro
Jurídico era importante colaborador seu na defesa das vítimas e na denúncia dos
vitimários. De fato, na primeira página do Diário de Dom Romero [que tal como
se vê, começa na sexta-feira 31 de março de 1978] aparece a referência Socorro
Jurídico. Menciona algum nome de seus membros e fala de tarefas concretas... E
agrega: "Agradeci-lhes e manifestei-lhes minha satisfação pela acolhida
que prestaram ao chamado e pela boa vontade que manifestaram como advogados de
consciência cristã”.
Mias tarde, surgiu a Tutela Legal. Até o dia de
hoje, com Tutela trabalharam outros bispos, outros sacerdotes e outros
leigos/as. O nome de María Julia Hernández é entranhável e inesquecível. Nesses
trinta anos, houve cooperação e tensões entre eles. Historicamente, costuma ser
o normal.
Agora, entramos em um novo período. Porém, seja
qual for a novidade, insistimos em que os direitos humanos é responsabilidade
de "todo o Povo de Deus”. Recordo isso porque não é nenhuma sutileza
teológica rotineira, mas uma necessidade cristã e histórica. Os leigos são
responsáveis como também são outros membros do Povo de Deus, ministros e
hierarcas. Têm a mesma dignidade. Uns e outros devem tratar-se com o mesmo
respeito.
2. A hierarquia a
serviço de todo o Povo de Deus; não acima dele. Na Igreja, há leigos/as e há hierarquia. O
Vaticano II disse que, acima das diferenças, deve-se enfatizar que ambos fazem
parte por igual do povo de Deus. Sem
dúvida, a potestas, o poder
ministerial da hierarquia, oferece possibilidades para fazer o bem; porém, tal
como demonstra a história, e como todo poder, tem sempre perigos. "Que
digam as coisas a mim que sou reitor de uma universidade”, dizia o Pe. Ignacio
Ellacuría.
Em democracia se dá por sentado que esse perigo
deve ser superado ou, pelo menos, limitado. E, por isso, se insiste na
obrigação de "prestar contas”, no que insistia o PE. Dean Brackley, a quem
acabamos de recordar nesses dias. Falava muito da necessidade de
"accountability”. E em coisas de Igreja, além da democracia, sempre fica o
Evangelho, sua exigência e sua utopia: os que estão acima, que se abaixem,
disse Jesus.
Ante acontecimentos públicos que geram grave
confusão, como aconteceu com o fechamento de Tutela Legal, a história, a
democracia e as tradições evangélicas oferecem outros modos de atuar: a
disponibilidade para explicar as decisões de antemão e com argumentos
convincentes; o diálogo prévio; a prestação de contas e a atitude acolhedora.
Seguindo com a utopia, o ideal é que o Povo de
Deus seja exemplo de solidariedade. Certamente, como ajuda e defesa dos que
necessitam. Porém, além disso, no Povo de Deus, deveria existir outra forma de
solidariedade, que não diminui a mencionada; ao contrário, a incrementa:
"carregar, mutuamente, uns aos outros”, ministros, leigos, hierarcas. E
quando há agravos, reais ou supostos, que haja a disponibilidade ao diálogo
sincero e ao perdão. Com relação à hierarquia, é uma forma de abaixar-se para
servir que a utopia evangélica toma. E não se deveria esperar que isso comece
pelo outro. Quando essa solidariedade acontecer, o Povo de Deus dará uma grande
ajuda ao país.
3. Pelo menos na
retórica, parece que na presente conjuntura de conflitos há coincidência de que
o mais importante são as vítimas. O Socorro Jurídico primeiro e
Tutela Legal depois promoveram nesse país "a memória histórica”. Durante
anos, espalharam amor para milhares de perseguidos, assassinados,
desaparecidos, os que têm que migrar para poder viver, especialmente mulheres e
crianças. Ambas instituições mantiveram milhares de vítimas com vida e com
dignidade.
O Pe. Ellacuría as chamou o "Povo
Crucificado”. E Dom Romero, depois que o exército assassinou a mais de uma
centena de camponeses, no dia 19 de junho de 1977, disse em Aguilares:
"Vocês são o Divino traspassado”. E não só lhes deu dignidade com essas
palavras, como que confessou ante eles, indefesamente, como entendia sua missão
de arcebispo: "Vou recolhendo os cadáveres”. Essa era, ex officio, sua
tarefa fundamental por ser arcebispo. "Recolher cadáveres” é uma forma
vigorosa de expressar o que todo o Povo de Deus deve fazer com as vítimas. O
Socorro Jurídico, Tutela Legal, o IDHUCA e todas as instituições de direitos
humanos podem assumi-las. E também todos os membros de todas as igrejas
salvadorenhas de qualquer confissão religiosa.
Importantes são os arquivos com nomes,
inventários; que estejam bem protegidos. Importantes são as ONGs e sua
contribuição. Porém, isso não substitui o "recolher cadáveres” de Dom
Romero e de outros nesse país, mártires muitos deles.
4. Deus sabe qual será
o futuro de Tutela Legal. Os acontecimentos desses dias não deveriam levar a que diminuam e se
empobreçam suas tarefas; mas, que cresçam e melhorem. Que as discussões
existentes sirvam para levar luz ao Povo de Deus. E que não levem ao desejo,
compreensível, porém, não muito cristão, de "ter mais razão do que o
outro”.
As reflexões que acabamos de fazer podem
parecer excessivamente conceituais, inclusive complicadas apesar de que
pretendam ser simples e trazer luz aos fatos. Termino agora com as palavras de
Pedro Casaldáliga, estas, sim, breves e claras: "Tudo é relativo menos
Deus e a fome”. E em El Salvador, bem podemos dizer: "menos Deus e as
vítimas”.
22 de Outubro de 2013
[Publicado em espanhol, em Carta a las iglesias
642. Centro Monseñor Romero, UCA San Salvador].
Traduzido por Adital

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