domingo, 27 de outubro de 2013

No começo estava o povo de Deus. As vítimas devem estar sempre no centro


Jon Sobrino, s.j.
Teólogo. Director del Centro Monseñor Romero de la UCA

Com essas duas frases, gostaríamos de pôr alguma luz na confusão e, em muitos casos, indignação, que começou no dia 30 de setembro.

Sem aviso prévio e sem levar em conta a dignidade das pessoas, o arcebispado fechou a Tutela Legal (http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=77988). Desde então, houve comunicados dos que demitiram e dos que foram demitidos, mais divulgados os daqueles do que os destes. Logo houve também comunicados de instituições internacionais de renome, da Universidad Centroamericana (UCA) e da Conferência de Religiosos e Religiosas de El Salvador. Mais recentemente, o arcebispo e a promotoria intercambiam opiniões sobre os direitos de ambas instituições com relação aos arquivos.

Muitas outras coisas aconteceram. Algumas são conhecidas pelo povo de Deus; e, a maioria, como costuma ser normal, as desconhecem. Recentemente, o arcebispado nomeou uma comissão de conotados sacerdotes para velar pelos arquivos, para fazer bem as coisas no futuro –e para reparar a imagem do arcebispado, agora deteriorada como quando retiraram os desenhos de Fernando Llort da fachada da catedral. Um camponês formulou como vê o que aconteceu com essas palavras: "Triste. Vergonhoso!”.

1. Os leigos. O povo de Deus e o Socorro Jurídico. "Povo de Deus” é expressão abstrata e seu conteúdo concreto não é muito conhecido pelos salvadorenhos. No entanto, há 50 anos, um Concílio universal definiu o mais real da Igreja de Jesus Cristo com as palavras "Povo de Deus” e não com as palavras "Igreja hierárquica”. Isso quer dizer que bispos, padres, seculares, os chamados leigos e leigas, todos são primordial e igualmente membros da Igreja. As diferenças vêm depois. São diferenças de natureza funcional, e nada dizem da qualidade de vida cristã de seus membros.

Nos anos 70, em El Salvador, foram os leigos que se preocuparam com a violação dos direitos humanos no país e os que defenderam as vítimas. Surgiu o Socorro Jurídico. Muitos salvadorenhos levavam séculos sofrendo a morte lenta da pobreza, da violência originária. Porém, nos anos 70, a essa morte uniu-se a morte rápida da repressão. Clamava aos céus e o grupo de leigos citado, no qual havia advogados, ou seja, gente do direito, se moveu em sua defesa com a novidade de defendê-los também no âmbito dos direitos humanos, que eram grosseiramente violados. Daí o adjetivo jurídico [de Socorro] e depois o adjetivo legal [da Tutela].

Um jesuíta, o Pe. Segundo Montes, a quem Benjamín Cuéllar recorda no artigo que publicamos a seguir, acompanhou e aglutinou ao grupo no Externato San José, Dom Romero reconheceu que o Socorro Jurídico era importante colaborador seu na defesa das vítimas e na denúncia dos vitimários. De fato, na primeira página do Diário de Dom Romero [que tal como se vê, começa na sexta-feira 31 de março de 1978] aparece a referência Socorro Jurídico. Menciona algum nome de seus membros e fala de tarefas concretas... E agrega: "Agradeci-lhes e manifestei-lhes minha satisfação pela acolhida que prestaram ao chamado e pela boa vontade que manifestaram como advogados de consciência cristã”.

Mias tarde, surgiu a Tutela Legal. Até o dia de hoje, com Tutela trabalharam outros bispos, outros sacerdotes e outros leigos/as. O nome de María Julia Hernández é entranhável e inesquecível. Nesses trinta anos, houve cooperação e tensões entre eles. Historicamente, costuma ser o normal.

Agora, entramos em um novo período. Porém, seja qual for a novidade, insistimos em que os direitos humanos é responsabilidade de "todo o Povo de Deus”. Recordo isso porque não é nenhuma sutileza teológica rotineira, mas uma necessidade cristã e histórica. Os leigos são responsáveis como também são outros membros do Povo de Deus, ministros e hierarcas. Têm a mesma dignidade. Uns e outros devem tratar-se com o mesmo respeito.

2. A hierarquia a serviço de todo o Povo de Deus; não acima dele. Na Igreja, há leigos/as e há hierarquia. O Vaticano II disse que, acima das diferenças, deve-se enfatizar que ambos fazem parte por igual do povo de Deus. Sem dúvida, a potestas, o poder ministerial da hierarquia, oferece possibilidades para fazer o bem; porém, tal como demonstra a história, e como todo poder, tem sempre perigos. "Que digam as coisas a mim que sou reitor de uma universidade”, dizia o Pe. Ignacio Ellacuría.

Em democracia se dá por sentado que esse perigo deve ser superado ou, pelo menos, limitado. E, por isso, se insiste na obrigação de "prestar contas”, no que insistia o PE. Dean Brackley, a quem acabamos de recordar nesses dias. Falava muito da necessidade de "accountability”. E em coisas de Igreja, além da democracia, sempre fica o Evangelho, sua exigência e sua utopia: os que estão acima, que se abaixem, disse Jesus.

Ante acontecimentos públicos que geram grave confusão, como aconteceu com o fechamento de Tutela Legal, a história, a democracia e as tradições evangélicas oferecem outros modos de atuar: a disponibilidade para explicar as decisões de antemão e com argumentos convincentes; o diálogo prévio; a prestação de contas e a atitude acolhedora.

Seguindo com a utopia, o ideal é que o Povo de Deus seja exemplo de solidariedade. Certamente, como ajuda e defesa dos que necessitam. Porém, além disso, no Povo de Deus, deveria existir outra forma de solidariedade, que não diminui a mencionada; ao contrário, a incrementa: "carregar, mutuamente, uns aos outros”, ministros, leigos, hierarcas. E quando há agravos, reais ou supostos, que haja a disponibilidade ao diálogo sincero e ao perdão. Com relação à hierarquia, é uma forma de abaixar-se para servir que a utopia evangélica toma. E não se deveria esperar que isso comece pelo outro. Quando essa solidariedade acontecer, o Povo de Deus dará uma grande ajuda ao país.

3. Pelo menos na retórica, parece que na presente conjuntura de conflitos há coincidência de que o mais importante são as vítimas. O Socorro Jurídico primeiro e Tutela Legal depois promoveram nesse país "a memória histórica”. Durante anos, espalharam amor para milhares de perseguidos, assassinados, desaparecidos, os que têm que migrar para poder viver, especialmente mulheres e crianças. Ambas instituições mantiveram milhares de vítimas com vida e com dignidade.

O Pe. Ellacuría as chamou o "Povo Crucificado”. E Dom Romero, depois que o exército assassinou a mais de uma centena de camponeses, no dia 19 de junho de 1977, disse em Aguilares: "Vocês são o Divino traspassado”. E não só lhes deu dignidade com essas palavras, como que confessou ante eles, indefesamente, como entendia sua missão de arcebispo: "Vou recolhendo os cadáveres”. Essa era, ex officio, sua tarefa fundamental por ser arcebispo. "Recolher cadáveres” é uma forma vigorosa de expressar o que todo o Povo de Deus deve fazer com as vítimas. O Socorro Jurídico, Tutela Legal, o IDHUCA e todas as instituições de direitos humanos podem assumi-las. E também todos os membros de todas as igrejas salvadorenhas de qualquer confissão religiosa.

Importantes são os arquivos com nomes, inventários; que estejam bem protegidos. Importantes são as ONGs e sua contribuição. Porém, isso não substitui o "recolher cadáveres” de Dom Romero e de outros nesse país, mártires muitos deles.

4. Deus sabe qual será o futuro de Tutela Legal. Os acontecimentos desses dias não deveriam levar a que diminuam e se empobreçam suas tarefas; mas, que cresçam e melhorem. Que as discussões existentes sirvam para levar luz ao Povo de Deus. E que não levem ao desejo, compreensível, porém, não muito cristão, de "ter mais razão do que o outro”.

As reflexões que acabamos de fazer podem parecer excessivamente conceituais, inclusive complicadas apesar de que pretendam ser simples e trazer luz aos fatos. Termino agora com as palavras de Pedro Casaldáliga, estas, sim, breves e claras: "Tudo é relativo menos Deus e a fome”. E em El Salvador, bem podemos dizer: "menos Deus e as vítimas”.

22 de Outubro de 2013

[Publicado em espanhol, em Carta a las iglesias 642. Centro Monseñor Romero, UCA San Salvador].


Traduzido por Adital

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