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segunda-feira, 30 de junho de 2014

“O comunismo nos roubou a bandeira. A bandeira dos pobres é cristã”.


Entrevista com o Papa Francisco

O encontro é em Santa Marta, à tarde. Uma rápida verificação, e um guarda suíço me faz sentar em uma pequena sala de estar.

A reportagem é de Franca Giansoldati, publicada no jornal Il Messaggero, 29-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Seis poltroninhas verdes de veludo um pouco desgastado, uma mesinha de madeira, um televisor daqueles antigos, com a "barriga". Tudo em perfeita ordem, o mármore polido lucidamente, alguns quadros. Poderia ser uma sala de espera paroquial, uma daquelas a que se vai para pedir um conselho ou para fazer os documentos de casamento.

Francisco entra sorrindo: "Finalmente! Eu a leio e agora a conheço". Eu coro. "Eu, ao contrário, o conheço e agora o escuto". Ele ri. Ri com gosto, o papa, como fará outras vezes no decorrer de mais de uma hora de conversa livre.

Roma, com os seus males de megalópole, a época de mudanças que enfraquecem a política; o esforço para defender o bem comum; a reapropriação por parte da Igreja dos temas da pobreza e da partilha ("Marx não inventou nada"); a desolação diante da degradação das periferias da alma, escorregadio abismo moral em que se abusa da infância, tolera-se a mendicância, o trabalho infantil e, não por último, a exploração de meninas prostitutas com menos de 15 anos. E os clientes que poderiam ser seus avós; "pedófilos": o papa os define justamente assim.

Francisco fala, explica, se interrompe, retorna. Paixão, doçura, ironia. Um fio de voz, parecem ninar as palavras. As mãos acompanham o raciocínio, entrelaça-as, solta-as, parecem desenhar geometrias invisíveis no ar. Está em ótima forma, apesar dos rumores sobre a sua saúde.

Eis a entrevista.

É a hora do jogo entre a Itália e o Uruguai. Santo Padre, por quem o senhor torce?

Ah, eu, por ninguém, de verdade. Prometi à presidente do Brasil (Dilma Rousseff) que me manteria neutro.

Comecemos por Roma?

Mas você sabe que eu não conheço Roma? Pense que eu vi a Capela Sistina pela primeira vez quando participei do conclave que elegeu Bento XVI (2005). Nunca estive nem mesmo nos museus. O fato é que, como cardeal, eu não vinha muitas vezes. Eu conheço Santa Maria Maior, porque sempre ia lá. E depois São Lourenço Fora dos Muros, onde eu fui para crismas, quando estava o padre Giacomo Tantardini. Obviamente, conheço a Praça Navona, porque sempre me hospedei na Via della Scrofa, lá atrás.

Há algo de romano no argentino Bergoglio?

Pouco ou nada. Eu sou mais piemontês, são essas as raízes da minha família de origem. No entanto, estou começando a me sentir romano. Pretendo ir visitar o território, as paróquias. Estou descobrindo pouco a pouco esta cidade. É uma metrópole belíssima, única, com os problemas das grandes metrópoles. Uma cidade pequena possui uma estrutura quase unívoca; uma metrópole, ao contrário, inclui sete ou oito cidades imaginárias, sobrepostas, em vários níveis. Também níveis culturais. Penso, por exemplo, nas tribos urbanas dos jovens. É assim em todas as metrópoles. Em novembro, faremos em Barcelona um congresso dedicado justamente à pastoral das metrópoles. Na Argentina, foram promovidos intercâmbios com o México. Descobrem-se tantas culturas cruzadas, mas não tanto por causa das migrações, mas porque se trata de territórios culturais transversais, feitos de pertencimentos próprios. Cidades nas cidades. A Igreja deve saber responder também a esse fenômeno.

Por que, desde o início, o senhor quis enfatizar tanto a função de bispo de Roma?

O primeiro serviço de Francisco é este: ser o bispo de Roma. Ele só tem todos os títulos do papa, Pastor universal, Vigário de Cristo etc., porque é bispo de Roma. É a escolha primeira. A consequência do primado de Pedro. Se, amanhã, o papa quisesse ser bispo de Tivoli, é claro que me expulsariam.

Há 40 anos, com Paulo VI, o Vicariato promoveu o congresso sobre os males da Roma. Emergiu o quadro de uma cidade em que aqueles que tinham muito levavam a melhor, e aqueles que tinha, pouco, a pior. Hoje, na sua opinião, quais são os males desta cidade?

São os das metrópoles, como Buenos Aires. Quem aumenta os benefícios, e quem é cada vez mais pobre. Eu não estava ciente do congresso sobre os males da Roma. São questões muito romanas, e eu, na época, tinha 38 anos. Sou o primeiro papa que não participou do Concílio e o primeiro que estudou teologia na pós-Concílio,, e nesse tempo, para nós, a grande luz era Paulo VI. Para mim, a Evangelii nuntiandi continua sendo um documento pastoral nunca superado.

Existe uma hierarquia de valores a ser respeitada na gestão da coisa pública?

Certamente. Proteger sempre o bem comum. A vocação para qualquer político é essa. Um conceito amplo que inclui, por exemplo, a proteção da vida humana, a sua dignidade. Paulo VI costumava dizer que a missão da política continua sendo uma das formas mais altas de caridade. Hoje, o problema da política – eu não falo só da Itália, mas de todos os países, o problema é mundial – é que ela se desvalorizou, arruinada pela corrupção, pelo fenômeno dos subornos. Lembro-me de um documento que os bispos franceses publicaram há 15 anos. Era uma carta pastoral que se intitulava "Reabilitar a política" e abordava justamente esse assunto. Se não houver serviço na base, não se pode entender nem mesmo a identidade da política.

O senhor disse que a corrupção tem cheiro de podridão. Também disse que a corrupção social é o fruto do coração doente e não só de condições externas. Não haveria corrupção sem corações corruptos. O corrupto não tem amigos, mas idiotas úteis. Pode nos explicar isso melhor?

Eu falei dois dias seguidos desse assunto, porque eu comentava a leitura da Vinha de Nabot. Gosto de falar sobre as leituras do dia. No primeiro dia, abordei a fenomenologia da corrupção; no segundo dia, de como acabam os corruptos. O corrupto não tem amigos, mas apenas cúmplices.

De acordo com o senhor, fala-se muito da corrupção porque os meios de comunicação insistem demais no assunto ou porque efetivamente se trata de um mal endêmico e grave?

Não, infelizmente, é um fenômeno mundial. Há chefes de Estado na prisão justamente por causa disso. Eu me interroguei muito e cheguei à conclusão de que muitos males crescem principalmente durante as mudanças epocais. Estamos vivendo não tanto uma época de mudanças, mas uma mudança de época. E, portanto, se trata de uma mudança de cultura. Justamente nesta fase, emergem coisas desse tipo. A mudança de época alimenta a decadência moral, não só na política, mas também na vida financeira ou social.

Os cristãos também não parecem brilhar por testemunho...

É o ambiente que facilita a corrupção. Não digo que todos sejam corruptos, mas acho que é difícil permanecer honesto na política. Falo sobre todos os lugares, não da Itália. Eu também penso em outros casos. Às vezes há pessoas que gostariam de deixar as coisas claras, mas depois se encontram em dificuldades, e é como se fossem fagocitadas por um fenômeno endêmico, em vários níveis, transversal. Não porque seja a natureza da política, mas porque, em uma mudança de época, os estímulos em direção a um certo desvio moral se tornam mais fortes.

O senhor se assusta mais com a pobreza moral ou material de uma cidade?

Ambas me assustam. Por exemplo, eu posso ajudar um faminto para que não tenha mais fome, mas, se ele perdeu o trabalho e não encontra mais um emprego, isso tem a ver com a outra pobreza. Ele não tem mais dignidade. Talvez ele pode ir à Cáritas e levar para casa uma cesta básica, mas experimenta uma pobreza gravíssima que arruína o coração. Um bispo auxiliar de Roma me contou que muitas pessoas vão ao restaurante popular e, às escondidas, cheias de vergonha, levam comida para casa. A sua dignidade progressivamente se empobreceu, vivem em um estado de prostração.

Pelas ruas consulares de Roma, veem-se menininhas de apenas 14 anos muitas vezes forçadas à se prostituir na indiferença geral, enquanto, no metrô, assiste-se à mendicância das crianças. A Igreja ainda é fermento? O senhor se sente impotente como bispo diante dessa degradação moral?

Eu sinto dor. Sinto uma enorme dor. A exploração das crianças me faz sofrer. Na Argentina também é a mesma coisa. Para alguns trabalhos manuais, são usadas as crianças porque têm as mãos menores. Mas as crianças também são exploradas sexualmente em hotéis. Uma vez, avisaram-me que, em uma rua de Buenos Aires, havia menininhas prostitutas de 12 anos. Eu me informei, e efetivamente era assim. Isso me fez mal. Mas ainda mais por ver que eram carros de alta cilindrada dirigidos por idosos que paravam. Podiam ser seus os avós. Faziam com que a menina subisse e lhe pagavam 15 pesos, que depois serviam para comprar os restos da droga, o "pacote". Para mim, essas pessoas que fazem isso às meninas são pedófilos. Isso também acontece em Roma. A Cidade Eterna, que deveria ser um farol no mundo, é espelho da degradação moral da sociedade. Acho que são problemas que são resolvidos com uma boa política social.

O que a política pode fazer?

Responder de modo claro. Por exemplo, com serviços sociais que levam as famílias a entender, acompanhando-as para sair de situações pesadas. O fenômeno indica uma deficiência de serviço social na sociedade.

Mas a Igreja está trabalhando muito...

E deve continuar a fazê-lo. Ela precisa ajudar as famílias em dificuldades, um trabalho em saída que impõe o esforço comum.

Em Roma, cada vez mais jovens não vão à igreja, não batizam os filhos, não sabem nem mesmo fazer o sinal da cruz. Que estratégia é preciso para inverter essta tendência?

A Igreja deve sair pelas ruas, buscar as pessoas, ir às casas, visitar as famílias, ir às periferias. Não ser uma Igreja que só recebe, mas que oferece.

E os párocos não devem ficar penteando as ovelhas...

(Risos) Obviamente. Estamos em um momento de missão há cerca de uma década. Devemos insistir.

O senhor se preocupa com a cultura da desnatalidade na Itália?

Acho que se deve trabalhar mais pelo bem comum da infância. Formar uma família é um compromisso. Às vezes, o salário não é suficiente, não se chega ao fim do mês. Tem-se medo de perder o trabalho ou de não poder mais pagar o aluguel. A política social não ajuda. A Itália tem uma taxa baixíssima de natalidade. Na Espanha é o mesmo. A França vai um pouco melhor, mas ela também é baixa. É como se a Europa tivesse se cansado de ser mãe, preferindo ser avó. Muito depende da crise econômica e não só de um desvio cultural marcado pelo egoísmo e pelo hedonismo. Outro dia, eu lia uma estatística sobre os critérios para as despesas da população em nível mundial. Depois da alimentação, do vestuário e dos medicamentos, três itens necessários, seguem a cosmética e as despesas com animais de estimação.

Os animais importam mais do que as crianças?

Trata-se de outro fenômeno de degradação cultural. Isso porque a relação afetiva com os animais é mais fácil, mais programável. Um animal não é livre, enquanto ter um filho é uma coisa complexa.

O Evangelho fala mais aos pobres ou aos ricos para convertê-los?

A pobreza está no centro do Evangelho. Não se pode entender o Evangelho sem entender a pobreza real, levando em conta que também existe uma pobreza belíssima do espírito: ser pobre diante de Deus, porque Deus enche você. O Evangelho se volta indistintamente aos pobres e aos ricos. Ele fala tanto de pobreza quanto de riqueza. De fato, não condena os ricos; no máximo as riquezas, quando se tornam objetos idolatrados. O deus dinheiro, o bezerro de ouro.

O senhor passa a imagem de ser um papa comunista, pauperista, populista. A revista The Economist, que lhe dedicou uma capa, afirma que o senhor fala como Lênin. O senhor se reconhece em tudo isso?

Eu digo apenas que os comunistas nos roubaram a bandeira. A bandeira dos pobres é cristã. A pobreza está no centro do Evangelho. Os pobres estão no centro do Evangelho. Tomemos Mateus 25, o protocolo pelo do qual seremos julgados: tive fome, tive sede, estive na prisão, estava doente, nu. Ou olhemos para as Bem-aventuranças, outra bandeira. Os comunistas dizem que tudo isso é comunista. Sim, como não, 20 séculos depois... Então, quando eles falam, se poderia dizer a eles: mas vocês são cristãos! (risos)

Se o senhor me permite uma crítica...

Claro...

O senhor talvez fale pouco das mulheres e, quando fala, aborda o assunto apenas do ponto de vista da maternidade, da mulher esposa, da mulher mãe etc. Porém, as mulheres já lideram Estados, multinacionais, exércitos. Na Igreja, em sua opinião, que lugar as mulheres ocupam?

As mulheres são a coisa mais bela que Deus fez. A Igreja é mulher. Igreja é uma palavra feminina. Não se pode fazer teologia sem essa feminilidade. Sobre isso, você tem razão, não se fala o suficiente. Estou de acordo que é preciso trabalhar mais sobre a teologia da mulher. Eu já disse isso, e se está trabalhando nesse sentido.

O senhor não entrevê uma certa misoginia de fundo?

O fato é que a mulher foi tirada de uma costela... (ri com gosto). Estou brincando, é uma piada. Estou de acordo que se deve aprofundar mais a questão feminina, senão não se pode entender a própria Igreja.

Podemos esperar do senhor decisões históricas, tipo uma mulher como chefe de dicastério, não digo do clero...

(Risos) Bem, muitas vezes os padres acabam sob a autoridade das perpétuas...

Em agosto, o senhor vai para a Coreia. É a porta para a China? O senhor está apontando para a Ásia?

Vou ir à Ásia duas vezes em seis meses. À Coreia, em agosto, para encontrar os jovens asiáticos. Em janeiro, ao Sri Lanka e às Filipinas. A Igreja na Ásia é uma promessa. A Coreia representa muito, tem às suas costas uma história belíssima, por dois séculos não teve padres, e o catolicismo avançou graças aos leigos. Também houve mártires. Quanto à China, trata-se de um desafio cultural grande. Grandíssimo. E depois há o exemplo de Matteo Ricci, que fez tanto bem...

Onde está indo a Igreja de Bergoglio?

Graças a Deus, eu não tenho nenhuma Igreja, eu sigo a Cristo. Não fundei nada. Do ponto de vista do estilo, não mudei de como eu era em Buenos Aires. Sim, talvez alguma coisinha, porque se deve, mas mudar na minha idade teria sido ridículo. Sobre o programa, ao contrário, eu sigo aquilo que os cardeais pediram durante as congregações gerais antes do conclave. Eu vou nessa direção. O Conselho dos oito cardeais, um organismo externo, nasce daí. Havia sido pedido para que ajudasse a reformar a Cúria. O que, aliás, não é fácil, porque se dá um passo, mas depois surge que é preciso fazer isto ou aquilo, e, se antes havia um dicastério, depois se tornam quatro. As minhas decisões são o resultado das reuniões pré-conclave. Não fiz nada sozinho.

Uma abordagem democrática...

Foram decisões dos cardeais. Eu não sei se é uma abordagem democrática, eu diria mais sinodal, mesmo que a palavra não seja apropriada para os cardeais.

O que o senhor deseja aos romanos pelos patronos São Pedro e São Paulo?

Que continuem sendo bravos. São tão simpáticos. Eu vejo isso nas audiências e quando vou às paróquias. Eu lhes desejo que não percam a alegria, a esperança, a confiança, apesar das dificuldades. O romanaccio [dialeto romano] também é bonito.

Wojtyla tinha aprendido a dizer: Volemose bene, damose da fa'. O senhor aprendeu algumas frases em romanesco?


Por enquanto, pouco. Campa e fa' campa'! (risos).

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Francisco e a teologia da bagagem de mão


O Papa Francisco acendeu nos corações uma expectativa, esperanças de uma Igreja que se renova, que continua a sua incessante reforma. Isso depende de alguns gestos: pela primeira vez um papa subiu a escada do avião carregando nas mãos a sua maleta, sem confiá-la aos seus colaboradores.

A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 23-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Muitos estão falando de novo de "primavera da Igreja", inaugurada pelo Papa Francisco. Quem viveu a primavera anunciada por Pio XII em maio de 1958 e inaugurada pelo Papa João XXIII e pelo Concílio Vaticano II, não esperava mais uma nova estação rica em esperança e aberturas. Principalmente depois das duas últimas décadas.

E ao invés? Isso também deve ser reconhecido: o Papa Francisco acendeu nos corações uma expectativa, esperanças de uma Igreja que se renova, que continua a sua incessante reforma. Esse juízo positivo e acima de tudo essa expectativa dependem de algumas palavras e de alguns gestos: como os feitos nessa segunda-feira, que nos mostram pela primeira vez um papa subindo a escada do avião carregando nas mãos a sua maleta, sem confiá-la aos seus colaboradores.

Como se Francisco dissesse: ninguém deve portar um peso no meu lugar. E depois, tendo aterrissado no Brasil, subiu em um pequeno carro, um Fiat Idea, que era o menor carro do cortejo. Comecemos, portanto, pelos gestos. Em quatro meses, não podem ser muitos, mesmo que aqueles poucos tenha sido imediatamente relatados como "os floreios do Papa Francisco", por serem simples, eloquentes e também singulares, como as do Pobrezinho de Assis. Eleito papa no dia 13 de março, Francisco se assomou à Praça de São Pedro e, antes de conceder a bênção apostólica ao povo, pediu que o povo invocasse para ele a bênção de Deus e se inclinou em um silêncio de adoração a Deus, de oração a Deus, mas também de profunda comunhão.

Essa ação de Francisco, que surpreendeu e tocou os corações daqueles que no mundo queriam conhecer a identidade do novo papa, deve ser avaliada em si mesma, como um gesto seu, pessoal, que pertence ao seu estilo no exercício do ministério pastoral. Sim, com o Papa Francisco sentiu-se "algo de novo hoje debaixo do sol" (Giovanni Pascoli)... E assim, sem aumentar, mas também sem esquecer tal ato, é preciso contar a sua vontade de simplicidade, da qual os crentes tinham nostalgia desde a morte do Papa João XXIII.

A sua veste sóbria, a sua cruz peitoral não de ouro e não cheia de jóias, o desaparecimento do trono e dos ouropéis que lembravam "os direitos da coroa", a sua viagem no ônibus com os outros cardeais para retornar à Casa Santa Marta, o fato de se sentar à mesa dos coirmãos para as refeições, sem pensar logo em uma mesa sua e nos seus convidados, o fato de cumprimentar com entusiasmo e envolvimento nos abraços e nos apertos de mão aqueles que o encontram, a sua linguagem muito humana: tudo isso nos deu uma nova imagem do bispo de Roma.

É tolice fazer comparações com os papas anteriores, assim como será tolice fazer comparações com o que vier, mas o que deve ser enfatizado é que as pessoas sentem que este papa é um homem. Disse-se do Papa João XXIII: "Um cristão no trono de Pedro"; diz-se do Papa Francisco: "Um homem tornou-se bispo de Roma".

Quanto à liturgia, nela não há atitudes hieráticas, ele não assume perfis de baixo-relevo assírio: senta-se em uma poltrona, e não em um trono de reis, faz a homilia de pé do ambão, como todos, abandonou vestes que, embora dignas, não representavam mais o sentimento geral que quer sobriedade na liturgia. Além disso, não se pode esquecer um gesto litúrgico do qual o Papa Francisco efetivamente ampliou a interpretação de modo inédito e talvez até "escandaloso" para alguns católicos: o gesto do lava-pés, que sempre foi realizado em São Pedro com clérigos, cônegos, cardeais.

Pois bem, o Papa Francisco, em continuidade com o que havia feito no seu ministério episcopal em Buenos Aires, saiu do Vaticano para ir para a prisão juvenil romana de Casal del Marmo, onde lavou os pés de 12 detidos, incluindo duas jovens e alguns não batizados. Verdadeira interpretação inovadora! O Senhor lavou os pés ao longo de toda a sua vida, isto é, se fez servo de homens e mulheres marcados pelo sofrimento, pela doença, pela necessidade, pela pecado: isso nos lembra o exeghésato (Jo 1, 18) criativo com o qual o Papa Francisco narrou Jesus...

Mas o gesto até agora mais eloquente certamente foi a primeira viagem apostólica ao santuário dos últimos, da humanidade sofredora, àquele mar que, em vez de ser uma ponte de fraternidade, tornou-se para muitos pobres do mundo, que tentam ir rumo ao pão, um lugar de morte. Sem palavras demais, denunciou o egoísmo da margem europeia do Mediterrâneo, tentou causar um sentimento de vergonha naqueles que querem rejeitar esses pobres ou que tentaram não ouvir o seu grito. Aquelas margens europeias, infelizmente, são habitadas principalmente por cristãos e pessoas que se dizem cristãs a ponto de querer defender a sua identidade e os valores cristãos. Enquanto jogava aquela coroa de flores rumo aos afogados no mar, enquanto pedia perdão a Deus e às vítimas, nos sentimos, também nós, como Caim, incapazes de ser guardiões dos nossos irmãos. Sentimos ser dirigida a nós a pergunta: "Homem, onde estás? Que humanização é a sua?...". Em Lampedusa, o grito de Francisco foi um grito de homem a toda a humanidade.

"Esse papa fala demais", disseram alguns. Com efeito, todos os dias, Francisco nos dá uma breve homilia que, além de ser um ato litúrgico importante por si só, pronunciada pelo papa, impõe-se pela sua qualidade magisterial de ensino. Limitando-se a um exame estatístico do léxico do Papa Francisco, pode-se notar que a palavra que se repete mais frequentemente nas suas intervenções públicas é "alegria" (mais de 100 vezes), seguida por "misericórdia" (quase 100), que, unida a "perdão", dá um total de cerca de 150 ocorrências. Depois, "humilde-humildade" (65 vezes), "pobre-pobreza" (40 vezes).

Diante desses dados, parece-me urgente não tanto fazer uma escolha e discutir singularmente os vários termos, mas sim fazer emergir o pensamento do Papa Francisco na sua novidade, que hoje tem uma decisiva "performance" no coração de quem o ouve. Acima de tudo, Francisco tem uma visão de uma Igreja em êxodo, de uma Igreja em movimento e que tem a audácia de sair, de sair de si mesma. Para ser fiel à sua missão e à sua identidade, a Igreja deve sair, porque – são palavras pronunciadas por ele em uma entrevista de 2007 – "continuar sendo, permanecer fiéis implica uma saída. Justamente, se permanecemos no Senhor, saímos de nós mesmos". Sair para caminhar, para construir pontes e ir em frente, como fez o apóstolo Paulo. Portanto, "quando a Igreja perde essa coragem apostólica torna-se uma Igreja parada, uma Igreja ordenada, bonita, tudo bonito, mas sem fecundidade, porque perdeu a coragem de ir para as periferias, aqui onde estão tantas pessoas vítimas da idolatria, da mundanidade, do pensamento fraco... Aqueles que não caminham para não errar, cometem um erro mais grave" (Homilia do dia 8 de maio de 2013).

E na collatio realizada com os movimentos eclesiais na vigília de Pentecostes (18 de maio de 2013), Francisco afirmou: "Não se fechem, por favor! Esse é um perigo: fechamo-nos na paróquia, com os amigos, no movimento, com aqueles com os quais pensamos as mesmas coisas... Mas vocês sabem o que acontece? Quando a Igreja se torna fechada, adoece, adoece... A Igreja deve sair de si mesma. Para onde? Rumo às periferias existenciais, sejam quais forem, mas sair... Eu prefiro mil vezes uma Igreja acidentada, que incorreu em um acidente, do que uma Igreja doente de fechamento".

Em seguida, ofereceu uma verdadeira "pérola" de interpretação das palavras do Senhor Jesus em Apocalipse 3, 20 ("Eis que estou à porta e bato"). "Façam a si mesmos esta pergunta: quantas vezes Jesus está dentro e bate à porta para sair, para sair para fora, e nós não o deixamos sair, por causa das nossas seguranças, porque muitas vezes estamos fechados em estruturas caducas, que servem apenas para nos tornar escravos, e não livres filhos de Deus? Nessa 'saída' é importante ir ao encontro. Esta palavra para mim é muito importante: o encontro com os outros".

O Papa Francisco conhece bem a situação da Igreja e, em particular, a da hierarquia e das instituições que deveriam estar a serviço da própria Igreja. Ele sabe que para todos "a tentação é a de um cristianismo sem cruz, que para no meio do caminho... É a tentação do triunfalismo. Nós queremos o triunfo agora, sem ir para a cruz, um triunfo mundano. O triunfalismo paralisa a Igreja, paralisa os cristãos. A Igreja triunfalista é feliz assim, bem sistematizada, com todos os escritórios, tudo no seu lugar, tudo bonito e eficiente. Mas é uma igreja que renega os mártires... Pensa somente nos triunfos, nos sucessos, e não conhece a regra de Jesus: a regra do triunfo através do fracasso, do fracasso humano, do fracasso da cruz" (Homilia do dia 29 de maio de 2013).

E ainda: "Se seguirmos Jesus como uma proposta cultural, usamos esse caminho para ir mais alto, para ter mais poder. E a história da Igreja está cheia disso, começando por alguns imperadores e, depois, por tantos governantes e tantas pessoas, não? E também alguns – não quero dizer muitos, mas alguns – padres, alguns bispos, não? Alguns dizem que são muitos... Mas alguns que pensam que seguir Jesus é fazer carreira" (Homilia do dia 28 de maio de 2013).

É significativo que à pergunta direta de uma menina: "Mas tu querias ser papa?", ele respondeu: "Tu sabes o que significa que uma pessoa não queira tão bem a si mesma? Uma pessoa que quer ser papa não quer bem a si mesma, e Deus não a abençoa. Não, eu não quis ser papa..." (Collatio do dia 7 de junho). Sim, Francisco não era um bispo empenhado em fazer carreira eclesiástica!

É preciso recordar o motivo que levou o Papa Francisco a assumir esse nome: ele confessou que a inspiração lhe veio do amigo cardeal Cláudio Hummes, que se sentava ao seu lado e lhe disse: "Lembre-se dos pobres". Por isso, Francisco logo confessou o seu desejo que, na realidade, parece ser um verdadeiro manifesto: "Eu quero uma Igreja pobre e para os pobres" (Audiência aos representantes das mídias, 16 de março de 2013).

Não só uma Igreja que se coloca a serviço dos pobres, que atua em seu favor, mas também uma Igreja que se faz pobre percorrendo o itinerário da encarnação, a "via" do Senhor que "sendo rico se fez pobre por nós" (cf. 2Cor 8, 9) para compartilhar em tudo a condição humana. Eis, então, posto com autoridade o primeiro ponto decisivo para uma reforma da Igreja. O Papa Francisco provém daquela periferia do mundo que elaborou a "necessidade da opção preferencial pelos pobres, primeiros destinatários de direito do evangelho", e justamente por isso está habilitado a fazer com que a Igreja volte à condição desejada por Jesus. Não pauperismo ideológico, não romantismo de uma pobreza formal, mas a Igreja ou é pobre – mesmo tendo meios para a sua vida no mundo – ou é mundana, também ela a serviço dos ídolos do dinheiro e do poder, em grave contradição com relação à forma da encarnação do seu Senhor!

Mas o Papa Francisco também manifestou a sua vontade de uma reforma do papado e da Cúria que está a seu serviço. Há ao menos cinco séculos, sempre se volta a falar da reforma da Cúria Romana, mas esta só pode ser substancialmente reformada se se der nova forma e nova compreensão ao ministério petrino do bispo de Roma. Os católicos nunca renunciarão ao ministério de confirmação na fé e de comunhão próprio do bispo de Roma, mas sabem também que a forma que ele assumiu ao longo dos séculos variou e ainda pode mudar.

É graças ao papado que a Igreja Católica permaneceu unida ao longo dos séculos, mas continua sendo verdade que a estrutura do papado nem sempre foi conforme ao evangelho e que deve ser reformada todas as vezes em que se compreende essa urgência evangélica.

Hoje, a partir especialmente das indicações do Concílio Vaticano II, sente-se a necessidade de que o papa não apareça como o "bispo universal", mas sim o bispo da Igreja de Roma "que preside na caridade". A essa eclesiologia de comunhão, portanto, é preciso dar mais força e implementar a "sinodalidade", essa categoria do "caminhar juntos" entre papa, bispos e povo de Deus.

Na homilia do dia 29 de junho, em São Pedro, o Papa Francisco especificou que o ministério do sucessor de Pedro, como confirmação na unidade, deve harmonizar o primado com o sínodo dos bispos e deve trilhar o caminho da sinodalidade. Essas são palavras marcadas por uma radical novidade na boca de um papa: até agora, pertenciam somente aos teólogos.

Francisco está se manifestando como um papa do êxodo, que pode mostrar a todos os cristãos o dinamismo de uma comunhão em que "o amor é a primeira verdade" (Homilia do dia 4 de maio de 2013). O Papa Francisco en-sina, faz sinal indicando sempre a Jesus Cristo, aquele ao qual deve-se voltar o nosso olhar. Por isso, aos representantes dos movimentos eclesiais que gritavam: "Francisco, Francisco!", ele respondeu: "Eu gostaria que vocês gritassem: 'Jesus, Jesus é o Senhor, e está no meio de nós'. De agora em diante, nada de 'Francisco', mas sim 'Jesus'".


Artigo de Enzo Bianchi

24 de julho de 2013