Na minha opinião, existem duas formas de fugir
à banalidade e à rotina do quotidiano.
A primeira consiste em conservar uma certa
distância, também em termos espaciais, da área do quotidiano. Posso recolher-me
frequentemente no silêncio. Posso retirar-me para o lugar onde costumo meditar
e fazê-lo em silêncio. Posso entrar numa igreja e simplesmente ficar lá em
silêncio, ou assistir a uma missa.
Procurar um lugar diferente é, num sentido mais
amplo, uma nova qualidade. Para mim, esses são momentos sagrados. Sagrado é
aquilo que é extraído do mundo. O tempo sagrado pertence a Deus e pertence-me a
mim.
Nessa altura, as pretensões do quotidiano não
têm qualquer poder sobre mim. Nessa altura, não sou controlado pelas reuniões,
nem pelas pessoas, nem mesmo pelas suas expectativas. Nessa altura, posso
respirar bem fundo e ser eu próprio.
Sinto necessidade destes locais e momentos
sagrados, para não sucumbir sob o peso dos meus afazeres, e recorrentemente
poder entrar em contacto com o meu verdadeiro ser, que se distancia do
quotidiano. É aí que o meu verdadeiro ser se encontra, que Deus vem ter comigo.
É sempre Ele que me liberta da rotina do quotidiano e da pressão das pessoas
que me cercam.
A segunda forma consiste, para mim, em aceitar
a banalidade e a rotina do meu quotidiano, e em descobrir qualquer coisa
especial precisamente naquilo que parece normal.
O meu quotidiano tem, frequentemente, a mesma
evolução. Levanto-me sempre à mesma hora. Faço o mesmo trabalho - que nem
sempre é interessante.
No entanto, ao aceitar o caráter mediano do meu
quotidiano, este transforma-se, para mim, num importante campo de treino
espiritual, uma vez que é lá que exercito a lealdade; a lealdade para comigo,
para com as pessoas e para com Deus. Entrego-me a este trabalho, às pessoas com
quem me encontro hoje.
Nesse caso, o quotidiano não é uma coisa vazia,
mas sim o local onde pratico e concretizo o meu amor. Se assim for, terei
também encontros no meu quotidiano que me farão feliz.
E, de repente, o vazio transforma-se em
plenitude, o banal em sagrado e a rotina desabrocha para as surpresas divinas,
nas quais o caráter disponível do amor divino penetra na vivência dos meus
dias.
Anselm Grün
In O livro das respostas de Anselm Grün, ed.
Paulinas

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