sexta-feira, 26 de julho de 2013

Francisco e a teologia da bagagem de mão


O Papa Francisco acendeu nos corações uma expectativa, esperanças de uma Igreja que se renova, que continua a sua incessante reforma. Isso depende de alguns gestos: pela primeira vez um papa subiu a escada do avião carregando nas mãos a sua maleta, sem confiá-la aos seus colaboradores.

A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 23-07-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Muitos estão falando de novo de "primavera da Igreja", inaugurada pelo Papa Francisco. Quem viveu a primavera anunciada por Pio XII em maio de 1958 e inaugurada pelo Papa João XXIII e pelo Concílio Vaticano II, não esperava mais uma nova estação rica em esperança e aberturas. Principalmente depois das duas últimas décadas.

E ao invés? Isso também deve ser reconhecido: o Papa Francisco acendeu nos corações uma expectativa, esperanças de uma Igreja que se renova, que continua a sua incessante reforma. Esse juízo positivo e acima de tudo essa expectativa dependem de algumas palavras e de alguns gestos: como os feitos nessa segunda-feira, que nos mostram pela primeira vez um papa subindo a escada do avião carregando nas mãos a sua maleta, sem confiá-la aos seus colaboradores.

Como se Francisco dissesse: ninguém deve portar um peso no meu lugar. E depois, tendo aterrissado no Brasil, subiu em um pequeno carro, um Fiat Idea, que era o menor carro do cortejo. Comecemos, portanto, pelos gestos. Em quatro meses, não podem ser muitos, mesmo que aqueles poucos tenha sido imediatamente relatados como "os floreios do Papa Francisco", por serem simples, eloquentes e também singulares, como as do Pobrezinho de Assis. Eleito papa no dia 13 de março, Francisco se assomou à Praça de São Pedro e, antes de conceder a bênção apostólica ao povo, pediu que o povo invocasse para ele a bênção de Deus e se inclinou em um silêncio de adoração a Deus, de oração a Deus, mas também de profunda comunhão.

Essa ação de Francisco, que surpreendeu e tocou os corações daqueles que no mundo queriam conhecer a identidade do novo papa, deve ser avaliada em si mesma, como um gesto seu, pessoal, que pertence ao seu estilo no exercício do ministério pastoral. Sim, com o Papa Francisco sentiu-se "algo de novo hoje debaixo do sol" (Giovanni Pascoli)... E assim, sem aumentar, mas também sem esquecer tal ato, é preciso contar a sua vontade de simplicidade, da qual os crentes tinham nostalgia desde a morte do Papa João XXIII.

A sua veste sóbria, a sua cruz peitoral não de ouro e não cheia de jóias, o desaparecimento do trono e dos ouropéis que lembravam "os direitos da coroa", a sua viagem no ônibus com os outros cardeais para retornar à Casa Santa Marta, o fato de se sentar à mesa dos coirmãos para as refeições, sem pensar logo em uma mesa sua e nos seus convidados, o fato de cumprimentar com entusiasmo e envolvimento nos abraços e nos apertos de mão aqueles que o encontram, a sua linguagem muito humana: tudo isso nos deu uma nova imagem do bispo de Roma.

É tolice fazer comparações com os papas anteriores, assim como será tolice fazer comparações com o que vier, mas o que deve ser enfatizado é que as pessoas sentem que este papa é um homem. Disse-se do Papa João XXIII: "Um cristão no trono de Pedro"; diz-se do Papa Francisco: "Um homem tornou-se bispo de Roma".

Quanto à liturgia, nela não há atitudes hieráticas, ele não assume perfis de baixo-relevo assírio: senta-se em uma poltrona, e não em um trono de reis, faz a homilia de pé do ambão, como todos, abandonou vestes que, embora dignas, não representavam mais o sentimento geral que quer sobriedade na liturgia. Além disso, não se pode esquecer um gesto litúrgico do qual o Papa Francisco efetivamente ampliou a interpretação de modo inédito e talvez até "escandaloso" para alguns católicos: o gesto do lava-pés, que sempre foi realizado em São Pedro com clérigos, cônegos, cardeais.

Pois bem, o Papa Francisco, em continuidade com o que havia feito no seu ministério episcopal em Buenos Aires, saiu do Vaticano para ir para a prisão juvenil romana de Casal del Marmo, onde lavou os pés de 12 detidos, incluindo duas jovens e alguns não batizados. Verdadeira interpretação inovadora! O Senhor lavou os pés ao longo de toda a sua vida, isto é, se fez servo de homens e mulheres marcados pelo sofrimento, pela doença, pela necessidade, pela pecado: isso nos lembra o exeghésato (Jo 1, 18) criativo com o qual o Papa Francisco narrou Jesus...

Mas o gesto até agora mais eloquente certamente foi a primeira viagem apostólica ao santuário dos últimos, da humanidade sofredora, àquele mar que, em vez de ser uma ponte de fraternidade, tornou-se para muitos pobres do mundo, que tentam ir rumo ao pão, um lugar de morte. Sem palavras demais, denunciou o egoísmo da margem europeia do Mediterrâneo, tentou causar um sentimento de vergonha naqueles que querem rejeitar esses pobres ou que tentaram não ouvir o seu grito. Aquelas margens europeias, infelizmente, são habitadas principalmente por cristãos e pessoas que se dizem cristãs a ponto de querer defender a sua identidade e os valores cristãos. Enquanto jogava aquela coroa de flores rumo aos afogados no mar, enquanto pedia perdão a Deus e às vítimas, nos sentimos, também nós, como Caim, incapazes de ser guardiões dos nossos irmãos. Sentimos ser dirigida a nós a pergunta: "Homem, onde estás? Que humanização é a sua?...". Em Lampedusa, o grito de Francisco foi um grito de homem a toda a humanidade.

"Esse papa fala demais", disseram alguns. Com efeito, todos os dias, Francisco nos dá uma breve homilia que, além de ser um ato litúrgico importante por si só, pronunciada pelo papa, impõe-se pela sua qualidade magisterial de ensino. Limitando-se a um exame estatístico do léxico do Papa Francisco, pode-se notar que a palavra que se repete mais frequentemente nas suas intervenções públicas é "alegria" (mais de 100 vezes), seguida por "misericórdia" (quase 100), que, unida a "perdão", dá um total de cerca de 150 ocorrências. Depois, "humilde-humildade" (65 vezes), "pobre-pobreza" (40 vezes).

Diante desses dados, parece-me urgente não tanto fazer uma escolha e discutir singularmente os vários termos, mas sim fazer emergir o pensamento do Papa Francisco na sua novidade, que hoje tem uma decisiva "performance" no coração de quem o ouve. Acima de tudo, Francisco tem uma visão de uma Igreja em êxodo, de uma Igreja em movimento e que tem a audácia de sair, de sair de si mesma. Para ser fiel à sua missão e à sua identidade, a Igreja deve sair, porque – são palavras pronunciadas por ele em uma entrevista de 2007 – "continuar sendo, permanecer fiéis implica uma saída. Justamente, se permanecemos no Senhor, saímos de nós mesmos". Sair para caminhar, para construir pontes e ir em frente, como fez o apóstolo Paulo. Portanto, "quando a Igreja perde essa coragem apostólica torna-se uma Igreja parada, uma Igreja ordenada, bonita, tudo bonito, mas sem fecundidade, porque perdeu a coragem de ir para as periferias, aqui onde estão tantas pessoas vítimas da idolatria, da mundanidade, do pensamento fraco... Aqueles que não caminham para não errar, cometem um erro mais grave" (Homilia do dia 8 de maio de 2013).

E na collatio realizada com os movimentos eclesiais na vigília de Pentecostes (18 de maio de 2013), Francisco afirmou: "Não se fechem, por favor! Esse é um perigo: fechamo-nos na paróquia, com os amigos, no movimento, com aqueles com os quais pensamos as mesmas coisas... Mas vocês sabem o que acontece? Quando a Igreja se torna fechada, adoece, adoece... A Igreja deve sair de si mesma. Para onde? Rumo às periferias existenciais, sejam quais forem, mas sair... Eu prefiro mil vezes uma Igreja acidentada, que incorreu em um acidente, do que uma Igreja doente de fechamento".

Em seguida, ofereceu uma verdadeira "pérola" de interpretação das palavras do Senhor Jesus em Apocalipse 3, 20 ("Eis que estou à porta e bato"). "Façam a si mesmos esta pergunta: quantas vezes Jesus está dentro e bate à porta para sair, para sair para fora, e nós não o deixamos sair, por causa das nossas seguranças, porque muitas vezes estamos fechados em estruturas caducas, que servem apenas para nos tornar escravos, e não livres filhos de Deus? Nessa 'saída' é importante ir ao encontro. Esta palavra para mim é muito importante: o encontro com os outros".

O Papa Francisco conhece bem a situação da Igreja e, em particular, a da hierarquia e das instituições que deveriam estar a serviço da própria Igreja. Ele sabe que para todos "a tentação é a de um cristianismo sem cruz, que para no meio do caminho... É a tentação do triunfalismo. Nós queremos o triunfo agora, sem ir para a cruz, um triunfo mundano. O triunfalismo paralisa a Igreja, paralisa os cristãos. A Igreja triunfalista é feliz assim, bem sistematizada, com todos os escritórios, tudo no seu lugar, tudo bonito e eficiente. Mas é uma igreja que renega os mártires... Pensa somente nos triunfos, nos sucessos, e não conhece a regra de Jesus: a regra do triunfo através do fracasso, do fracasso humano, do fracasso da cruz" (Homilia do dia 29 de maio de 2013).

E ainda: "Se seguirmos Jesus como uma proposta cultural, usamos esse caminho para ir mais alto, para ter mais poder. E a história da Igreja está cheia disso, começando por alguns imperadores e, depois, por tantos governantes e tantas pessoas, não? E também alguns – não quero dizer muitos, mas alguns – padres, alguns bispos, não? Alguns dizem que são muitos... Mas alguns que pensam que seguir Jesus é fazer carreira" (Homilia do dia 28 de maio de 2013).

É significativo que à pergunta direta de uma menina: "Mas tu querias ser papa?", ele respondeu: "Tu sabes o que significa que uma pessoa não queira tão bem a si mesma? Uma pessoa que quer ser papa não quer bem a si mesma, e Deus não a abençoa. Não, eu não quis ser papa..." (Collatio do dia 7 de junho). Sim, Francisco não era um bispo empenhado em fazer carreira eclesiástica!

É preciso recordar o motivo que levou o Papa Francisco a assumir esse nome: ele confessou que a inspiração lhe veio do amigo cardeal Cláudio Hummes, que se sentava ao seu lado e lhe disse: "Lembre-se dos pobres". Por isso, Francisco logo confessou o seu desejo que, na realidade, parece ser um verdadeiro manifesto: "Eu quero uma Igreja pobre e para os pobres" (Audiência aos representantes das mídias, 16 de março de 2013).

Não só uma Igreja que se coloca a serviço dos pobres, que atua em seu favor, mas também uma Igreja que se faz pobre percorrendo o itinerário da encarnação, a "via" do Senhor que "sendo rico se fez pobre por nós" (cf. 2Cor 8, 9) para compartilhar em tudo a condição humana. Eis, então, posto com autoridade o primeiro ponto decisivo para uma reforma da Igreja. O Papa Francisco provém daquela periferia do mundo que elaborou a "necessidade da opção preferencial pelos pobres, primeiros destinatários de direito do evangelho", e justamente por isso está habilitado a fazer com que a Igreja volte à condição desejada por Jesus. Não pauperismo ideológico, não romantismo de uma pobreza formal, mas a Igreja ou é pobre – mesmo tendo meios para a sua vida no mundo – ou é mundana, também ela a serviço dos ídolos do dinheiro e do poder, em grave contradição com relação à forma da encarnação do seu Senhor!

Mas o Papa Francisco também manifestou a sua vontade de uma reforma do papado e da Cúria que está a seu serviço. Há ao menos cinco séculos, sempre se volta a falar da reforma da Cúria Romana, mas esta só pode ser substancialmente reformada se se der nova forma e nova compreensão ao ministério petrino do bispo de Roma. Os católicos nunca renunciarão ao ministério de confirmação na fé e de comunhão próprio do bispo de Roma, mas sabem também que a forma que ele assumiu ao longo dos séculos variou e ainda pode mudar.

É graças ao papado que a Igreja Católica permaneceu unida ao longo dos séculos, mas continua sendo verdade que a estrutura do papado nem sempre foi conforme ao evangelho e que deve ser reformada todas as vezes em que se compreende essa urgência evangélica.

Hoje, a partir especialmente das indicações do Concílio Vaticano II, sente-se a necessidade de que o papa não apareça como o "bispo universal", mas sim o bispo da Igreja de Roma "que preside na caridade". A essa eclesiologia de comunhão, portanto, é preciso dar mais força e implementar a "sinodalidade", essa categoria do "caminhar juntos" entre papa, bispos e povo de Deus.

Na homilia do dia 29 de junho, em São Pedro, o Papa Francisco especificou que o ministério do sucessor de Pedro, como confirmação na unidade, deve harmonizar o primado com o sínodo dos bispos e deve trilhar o caminho da sinodalidade. Essas são palavras marcadas por uma radical novidade na boca de um papa: até agora, pertenciam somente aos teólogos.

Francisco está se manifestando como um papa do êxodo, que pode mostrar a todos os cristãos o dinamismo de uma comunhão em que "o amor é a primeira verdade" (Homilia do dia 4 de maio de 2013). O Papa Francisco en-sina, faz sinal indicando sempre a Jesus Cristo, aquele ao qual deve-se voltar o nosso olhar. Por isso, aos representantes dos movimentos eclesiais que gritavam: "Francisco, Francisco!", ele respondeu: "Eu gostaria que vocês gritassem: 'Jesus, Jesus é o Senhor, e está no meio de nós'. De agora em diante, nada de 'Francisco', mas sim 'Jesus'".


Artigo de Enzo Bianchi

24 de julho de 2013

O início do fim: Papa Francisco condena a legalização das drogas


O Papa Francisco foi saudado pela mídia nacional como o portador das aspirações e ideais mais modernos e antenados, como arauto do “politicamente correto”. Quando eleito líder máximo da Igreja Católica em março, iniciou-se o “Domingo de Ramos” do Pontífice Romano e, na época, dissemos que havia muito exagero nas manifestações de apreço da mídia. Parecia-nos que estavam tentando sequestrar a voz do Papa em nome de ideologias. Entendemos que a JMJ 2013 pode marcar a deterioração dessa relação pela mídia politicamente engajada.

Na primeira viagem do Papa Francisco depois da eleição, parece ter começado a “Semana Santa” do relacionamento do Sumo Pontífice com os meios de comunicação. Na quarta-feira passada, dia 14/07, enquanto visitava hospital dedicado ao tratamento e apoio de dependentes químicos, o Santo Padre retomou um tema incômodo para a mídia “politicamente correta”: a descriminação das drogas. O Papa Francisco retomou os ensinamentos tradicionais da doutrina da Igreja Católica e confirmou que a descriminalização das drogas não favorece a luta contra a difusão nem diminui a influência maléfica das drogas sobre os indivíduos. Outras são as ações que realmente têm impacto no combate à dependência de drogas. Eis o texto do Papa:

A chaga do tráfico de drogas, que favorece a violência e que semeia a dor e a morte, exige da inteira sociedade um ato de coragem. Não é deixando livre o uso das drogas, como se discute em várias partes da América Latina, que se conseguirá reduzir a difusão e a influência da dependência química. É necessário enfrentar os problemas que estão na raiz do uso das drogas, promovendo uma maior justiça, educando os jovens para os valores que constroem a vida comum, acompanhando quem está em dificuldade e dando esperança no futuroFonte: Papa Francisco, Discurso do Santo Padre em visita ao Hospital Francisco de Assis.

Já dissemos em outro lugar que o uso de drogas tem muito a ver com escravidão. Por este motivo, não é justo nem honesto com os dependentes químicos tratar o assunto como um tema colateral, como uma questão jurídica, simplesmente não é honesto. A drogadição é um drama humano e deve ser tratado como um mal objetivo à vida das pessoas e de suas famílias. Quando o Papa Francisco retoma o ensinamento eclesial católico e rejeita a manipulação midiática do assunto, mesmo que particularmente amável com os dependentes, garante a sadia solução para os que sofrem sob o domínio das drogas: a liberdade da virtude. Em nenhum mundo possível o vício pode ser louvado em contraposição às virtudes. Essa é a doutrina e o ensinamento cristão e filosófico, desde Pedro até Bento XVI, e não será Francisco – que teve embates homéricos com a presidente Christina Kirchner quando bispo – que vai dar qualquer guinada à esquerda por pressão política.

Algo, porém, está para mudar com a visita do Papa Francisco ao Brasil. Aposto que a partir dessa Jornada com os Jovens levantar-se-ão vozes dissonantes ao Papa Francisco nos meios de comunicação nacionais. Obviamente, os críticos não serão abertamente contrários ao Papa, pois afinal, ele é o Papa “que faz a própria comida”, “que não anda em carro caro”, “que não cede a poderosos”, “que não telefone de última geração”, “que não gosta de pompa”. Práticas pessoas que, aliás, os seus aduladores da mídia engajada não seguem absolutamente, mas que gostam de ver outros seguirem. Provavelmente o caminho da crítica a Francisco colocará na conta de Bento XVI a culpa por seu “conservadorismo”. Dir-se-á que o Papa Latino-americano não leva mais adiante a agenda liberal por causa de Ratzinger. E quando não houver mais razões externas, quando não se puder mais esconder o católico sob o Francisco, dir-se-á que a Igreja Católica ainda é a mesma e que ainda não está pronta para o mundo moderno.


by Robson Oliveira – 

domingo, 21 de julho de 2013

O rosto da adúltera de Jesus


Então, Jesus foi abordado por um grupo de pessoas muito preocupadas com a retidão da lei. Traziam consigo uma mulher em prantos que havia sido pega em adultério. Jogada ao chão, ela tremia de medo. O povo pedia para que Jesus fizesse valer a lei: morte da adúltera por apedrejamento.

Isso foi há 2.000 anos, mas ainda hoje, no mesmo Oriente Médio, tem gente que apedreja mulheres e acha (agora, no Egito) que violentá-las nas praças seja um “direito da soberania popular revolucionária”, enquanto se matam, nas mesmas praças, pelo modo ocidental de vida ou por outra forma de lei (o fundamentalismo islamita).

E assim caminha a humanidade, em ciclos, para lugar nenhum, mas com festas e crenças diferentes no meio, e demagogos a cantar…

Mas voltemos a Jesus. Fatos como esses me fazem achar que Jesus era um cabra macho. Enfrentar o povo quando este se julga movido pelo correto modo de viver é algo que exige, como dizem los hermanos, “cojones”. Jesus disse que quem estivesse livre de pecado que atirasse a primeira pedra. Todos foram embora.

Esta é uma das passagens típicas do mundo bíblico na qual fica claro o tema da hipocrisia como motivação profunda daqueles que se acham arautos do bem, moral ou político.

Mas Jesus era um filósofo hebreu e estes filósofos eram diferentes dos filósofos gregos. O mundo bíblico é diferente da filosofia grega. Naquele, o “regime da verdade” (ou modo de busca da verdade) é interno e moral, na filosofia grega é externo e político.

O problema de saber se o que eu digo é verdade ou não, quando falo ou argumento, inexiste na Bíblia, porque o personagem principal do diálogo é Deus, e Ele sempre sabe de tudo, não há como mentir para Ele como há como mentir para outro homem ou para assembleia “soberana”, como na filosofia ou democracia gregas. Segundo o crítico George Steiner, o Deus de Israel irrita porque está em toda parte e sabe de tudo.

Sabe-se que o advento da democracia grega levou muita gente a pensar sobre a diferença entre pura retórica, que visa o mero convencimento dos outros numa assembleia (eu acho que a democracia é 90% isso mesmo), e a verdade em si do que se fala.

O problema que nasce daí é a relatividade da verdade, dependendo do ponto de vista de quem fala e de quem ouve. Na Bíblia, o problema é se minto para mim mesmo ou não. Na esfera pública, é o tema da hipocrisia, na privada, o da verdade interior. A Bíblia criou o sujeito e as bases da psicologia profunda.

Na Bíblia, como o poder é sempre de Deus e ele é mais íntimo de mim do que sou de mim mesmo, o problema é como eu enfrento a mim mesmo. A preocupação com a lei é sempre acompanhada da atenção para com a falsidade de quem diz ser justo. Por isso foram os hebreus que deram os primeiros passos para a descoberta do espaço interior onde vejo a distância entre mim e a verdade sobre mim mesmo, em vez de me preocupar com a verdade política, sofro com a mentira moral.

O crítico Erich Auerbach, no seu “A Cicatriz de Ulisses“, parte da coletânea “Mímesis“, reconhece este traço do texto hebraico: a relação de atenção e agonia entre Deus e seus eleitos molda o herói bíblico, dando a ele um rosto marcado por uma tensão moral.

Ainda na Bíblia hebraica, o rei David, o preferido de Deus, em seus belos “Salmos”, O encanta justamente porque expõe seu coração sem qualquer tentativa de mentir para si mesmo.

Santo Agostinho com suas “Confissões” faz eco a David. A literatura monástica e mística medievais cultivou este espaço até seu ressurgimento no século 19 no pietismo alemão de gente como J.G. Hamann, o “mago do norte”, ancestral direto do romantismo. Do romantismo e seu epicentro na verdade interior do sujeito, chegamos à psicologia profunda e à psicanálise.

A filosofia hebraica funda regimes de verdade que leva o sujeito a olhar para si mesmo ao invés de olhar para os outros. Em vez de cultivar uma filosofia política, ela cultiva uma filosofia moral da vida interior na qual não é barulho da assembleia que importa, mas o silêncio no qual os demônios desvelam nossa própria face.

Luiz Felipe Pondé (jornal FSP – 15.07.2013)
ESTE ARTIGO É PROPRIEDADE INTELECTUAL DO AUTOR E DO JORNAL QUE O PUBLICA

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Como posso fugir à banalidade e rotina do meu quotidiano?


Na minha opinião, existem duas formas de fugir à banalidade e à rotina do quotidiano.

A primeira consiste em conservar uma certa distância, também em termos espaciais, da área do quotidiano. Posso recolher-me frequentemente no silêncio. Posso retirar-me para o lugar onde costumo meditar e fazê-lo em silêncio. Posso entrar numa igreja e simplesmente ficar lá em silêncio, ou assistir a uma missa.

Procurar um lugar diferente é, num sentido mais amplo, uma nova qualidade. Para mim, esses são momentos sagrados. Sagrado é aquilo que é extraído do mundo. O tempo sagrado pertence a Deus e pertence-me a mim.

Nessa altura, as pretensões do quotidiano não têm qualquer poder sobre mim. Nessa altura, não sou controlado pelas reuniões, nem pelas pessoas, nem mesmo pelas suas expectativas. Nessa altura, posso respirar bem fundo e ser eu próprio.

Sinto necessidade destes locais e momentos sagrados, para não sucumbir sob o peso dos meus afazeres, e recorrentemente poder entrar em contacto com o meu verdadeiro ser, que se distancia do quotidiano. É aí que o meu verdadeiro ser se encontra, que Deus vem ter comigo. É sempre Ele que me liberta da rotina do quotidiano e da pressão das pessoas que me cercam.

A segunda forma consiste, para mim, em aceitar a banalidade e a rotina do meu quotidiano, e em descobrir qualquer coisa especial precisamente naquilo que parece normal.

O meu quotidiano tem, frequentemente, a mesma evolução. Levanto-me sempre à mesma hora. Faço o mesmo trabalho - que nem sempre é interessante.

No entanto, ao aceitar o caráter mediano do meu quotidiano, este transforma-se, para mim, num importante campo de treino espiritual, uma vez que é lá que exercito a lealdade; a lealdade para comigo, para com as pessoas e para com Deus. Entrego-me a este trabalho, às pessoas com quem me encontro hoje.

Nesse caso, o quotidiano não é uma coisa vazia, mas sim o local onde pratico e concretizo o meu amor. Se assim for, terei também encontros no meu quotidiano que me farão feliz.

E, de repente, o vazio transforma-se em plenitude, o banal em sagrado e a rotina desabrocha para as surpresas divinas, nas quais o caráter disponível do amor divino penetra na vivência dos meus dias.

Anselm Grün

In O livro das respostas de Anselm Grün, ed. Paulinas