quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Onde nasceu Jesus?


Para Mateus (2:1) e Lucas (2:6-7) a resposta é peremptória: Belém. Já Marcos omite a Natividade. E em João 7:42, Belém é mera referência contextual. Estes dois últimos dos quatro evangelistas sugerem que Jesus nasceu em Nazaré (Marcos 1:9, 1:24, 6:1, 6:4, 10:47, 14:67 e 16:6; João 1:45""46 e 7:40""44). Atos dos Apóstolos faz referências a "Jesus de Nazaré" e a "Jesus Cristo de Nazaré".

Belém ou Nazaré? Para complicar, há hoje uma cidade chamada Belém em Israel e outra no território árabe que Israel ocupa. Quanto a Nazaré, tempestuosa polêmica.

Nem o Velho Testamento nem a Tanakh (Bíblia judaica) nem o Talmud (compêndio doutrinário que suplementa a Tanakh) mencionam a cidade. A mais antiga referência documental a Nazaré data do século 4. Achados arqueológicos em área geodésica onde ela poderia ter existido antes atestam apenas rústico arraial de lavradores.

Já Belém é histórica. Segundo Lucas 2:1-7, censo decretado pelo imperador Augusto exigia que todos os súditos de Roma deveriam alistar-se, cada um na cidade dos ancestrais. Pelo que José teria de ir de Nazaré "[...] à Cidade de Davi, chamada Belém, porque [José] era da casa e família de Davi [...]".

Contudo, gente prática, aos romanos interessava apenas calcular quanto imposto cada contribuinte poderia pagar. Para isso faziam censos, mas regionais, nunca em todo o império. Muito menos com obrigação de cada contribuinte se alistar na cidade dos antepassados. Nenhum chefe de família precisava sair de onde morasse para declarar seus bens.

Por que então José iria sujeitar Maria, em vésperas de parto, a tão perigosa e incômoda viagem –120 quilômetros a pé ou no lombo de cavalgadura, da Galileia à Judeia? Difícil não ver ficção de propaganda nas genealogias e natividades (criadas pelos mesmos dois autores). Objetivo: credenciar Jesus como o Messias.

Os cognomes hebraicos Mashiach ou Mashiah, e o grego Christos, significam "ungido". Aludem ao rito no qual um sacerdote ou profeta besuntava com azeite a cabeça do líder ao consagrá-lo rei. No messianismo judaico, futuramente Mashiah governará o mundo a partir de Jerusalém. Os primeiros cristãos acreditavam que Jesus iria revelar-se no papel escatológico de Messias a qualquer momento.

Na Judeia então ocupada e governada por romanos, quase todo judeu pertencia a uma seita que era também partido nacionalista: essênios, fariseus, saduceus, zelotes. À margem, crescia petulante grupo de judeus heréticos, os "nazarenos", nome de etimologia não gentílica pelo qual judeus referem os cristãos ainda hoje.

Esses protocatólicos proclamavam que Jesus era o Messias das profecias referidas em Miqueias, Isaías, Zacarias e nos Salmos. Pois ele não era divino (como os milagres atestavam), descendente de Davi e nascido em Belém (como garantiam as genealogias e a Natividade)? Até Jesus acreditava (Mateus 26:64, Marcos 14:62, João 4:26 e João 10:23-25), embora nem sempre confiante (Lucas 22:67-68).

Paulo morreu bem antes de sua seita cristã começar a denominar-se católica (do grego, katholikos, "universal"). Mas já então a linha universalista paulina (Cristo para todos, com dispensa de circuncisão) prevalecera sobre a nacionalista de Pedro (cristianismo apenas para judeus circuncidados).

Paulo vacilava quanto a Parusia, a questão teológica da Segunda Vinda de Jesus: Paulo a presenciaria em vida ou ela se daria apenas em futuro indeterminado? Certo é que nenhuma escritura atribuída a Paulo menciona nem Belém nem Nazaré.

Já prospectos de turismo...

ALDO PEREIRA, 81, é ex-editorialista e colaborador especial da Folha. aldopereira.argumento@uol.com.br

Fonte: Folha de São Paulo - Tendências / Debates

domingo, 22 de dezembro de 2013

25 anos sem Chico Mendes - Uma pequena biografia


Quem foi

Chico Mendes (nome completo: Francisco Alves Mendes Filho) foi um dos mais importantes ambientalistas (pessoas que lutam em defesa da preservação do meio ambiente) brasileiros. Nasceu na cidade de Xapuri (estado do Acre) no dia 15 de dezembro de 1944. Trabalhou na região da Amazônia, desde criança, com seu pai, como seringueiro (produzindo borracha). Tornou-se vereador e sindicalista.

Principais momentos de sua vida:

Ü      1975 – É fundado o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia. Chico Mendes aceitou o convite para ser secretário geral da instituição.
Ü      1976 – Começou a organizar os seringueiros para lutarem em defesa da posse de terra.
Ü      1977 – Participou da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. Neste mesmo ano, foi eleito vereador pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro)
Ü      1978 – Começou a receber ameaças dos fazendeiros locais, descontentes com sua atuação sindical.
Ü      1980 – Participou da fundação do Partidos dos Trabalhadores (PT), tornando-se dirigente do partido no estado do Acre. Neste mesmo ano, foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional a pedido de fazendeiros da região, que o acusavam de envolvimento no assassinato de um capataz de uma fazenda. Foi absolvido por falta de provas.
Ü      1981 – Tornou-se presidente do Sindicato de Xapuri.
Ü      1982 – Candidatou-se a deputado estadual pelo PT, porém não conseguiu eleger-se.
Ü      1985 – Organizou o 1º Encontro Nacional de Seringueiros. Participou da fundação do CNS (Conselho Nacional dos Seringueiros). Participou da proposta do “União dos Povos da Floresta”, que previa a união dos interesses dos seringueiros e indígenas na defesa da floresta amazônica.
Ü      1987 – Recebeu em Xapuri uma comissão da ONU (Organização das Nações Unidas), mostrando a devastação causada na floresta amazônica por empresas financiadas pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Após levar as denúncias ao senado dos Estados Unidos, o BID suspendeu os financiamentos a estas empresas.
Ü      1987 – Recebeu vários prêmios na área de ecologia e meio ambiente em função de sua luta em defesa da floresta amazônica e de seus povos nativos. O mais importante destes prêmios foi o “Global 500”, entregue pela ONU.
Ü      1988 – Participou da criação das primeiras reservas extrativistas no Acre. Foi eleito suplente da direção nacional da CUT (Central Única dos Trabalhadores) durante o 3º Congresso Nacional da CUT.
Ü      22 de dezembro de 1988 – Chico Mendes foi assassinado na porta de sua casa. Deixou esposa (Ilzamar Mendes) e dois filhos pequenos (Sandino e Elenira).

***

Bibliografia indicada:

Chico Mendes - um povo da floresta
Autor: Martins, Edilson
Editora: Garamond
Temas: Biografia, Memórias, Meio Ambiente

Chico Mendes
Autor: Criado, Alex
Editora: Salesiana
Temas: Biografia, Meio Ambiente

A História de Chico Mendes para crianças
Autor: Reis, Fátima
Editora: Prumo

Temas: Biografia, Educação Ambiental

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Cristo, um rei servidor


Devemos redefinir a realeza, caso quisermos aplicá-la ao Cristo ressuscitado na Igreja de hoje.

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 34º Domingo do Tempo Comum – Ciclo C do Ano Litúrgico (24 de novembro de 2013). A tradução é de André Langer.

Referência bíblica:
Evangelho: Lc 23,35-43

Eis o texto.

Festejar Cristo, Rei do Universo, é uma outra maneira de celebrar a Páscoa. Essa festa termina bem o ano litúrgico. Sem morte-ressurreição, a festa de hoje não teria nenhum sentido. De que realeza estamos falando? Que tipo de rei reconhecemos? Como dizia o biblista Jean-Pierre Prévost: “Para ser honesto com vocês, devo dizer francamente que não tenho nenhuma prelileção particular pela realeza e que, em si, o título de rei aplicado a Jesus não é aquele que mais me inspira”. Por essa razão, devemos redefinir a realeza, caso quisermos aplicá-la ao Cristo ressuscitado na Igreja de hoje; caso contrário, corremos o risco de associar Cristo a um monarca igual a todos os outros e que nos faria perder de vista o que Cristo foi e ainda é na Igreja de hoje. Infelizmente, alguns dirigentes da Igreja com frequência confundiram a realeza de Cristo com aquela dos homens, a ponto de deformar o rosto de Jesus. Felizmente, em cada época, houve discípulos, homens e mulheres, que souberam devolver ao Cristo a sua verdadeira realeza, que consiste em servir e não em ser servido.

1. A problemática da realeza

Jean-Pierre Prévost escreve: “A história da realeza em Israel começou mal. Foi a contragosto que o profeta Samuel acabou por consagrar Saul primeiro rei de Israel, para responder à demanda do povo que queria ser como todas as outras nações” (1 Sm 8,5). Podemos acrescentar que esse não teve um sucesso real. E por quê? Simplesmente porque o poder corrompe e o prestígio sobe à cabeça daqueles que exercem o poder. É evidente que na história de Israel houve reis melhores que outros; pensemos em Davi ou em Salomão. Mas esses dois reis, que a tradição bíblica soube embelezar, tornando-os símbolos idílicos, a história mostra que também eram muito humanos, portanto, limitados e pecadores.

No fundo, a Bíblia nos ensina que Deus não queria reis, porque a experiência da realeza era bastante negativa e a história de Israel é a prova disso, uma vez que a realeza não durou mais do que 400 anos e terminou de maneira trágica com o exílio de Sedecias para a Babilônia. O que Deus queria era um rei servidor e não um príncipe que dirige e que explora o seu povo. Esta má experiência da realeza permitiu ao povo de Israel purificar sua fé e imaginar um rei ideal, que seria um verdadeiro pastor e que viria estabelecer um reino de justiça e de paz a serviço dos pobres e dos desafortunados. Esse rei nós o reconhecemos no Cristo Pascal.

2. Cristo, Rei do Universo

Foi somente em 1925 que nasceu esta festa e não é pelas mesmas razões que nós continuamos a celebrá-la hoje. Jesus nunca se declarou rei; pelo contrário, o evangelho nos ensina que esse título foi dado a ele de maneira irônica e sarcástica por um rei, Herodes, e por um representante de César, Pôncio Pilatos... Jesus se defendeu: “Pilatos disse a Jesus: ‘Então tu és rei?’ Jesus respondeu: ‘Você está dizendo que eu sou rei’” (Jo 18,37a). Por outro lado, se dizemos que Cristo é rei, é porque reconhecemos nele o servidor que quis estabelecer o reino de justiça e de paz, tão desejado pelos homens e pelas mulheres do seu tempo. Mas ele não tem nada de outro rei: seu trono é a cruz; sua coroa é de espinhos e seu cetro é seu bastão de pastor. O evangelho de Lucas o apresenta, ao mesmo tempo, como um rei sem poder – “Se tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo” (Lc 23,37) – e como um rei muito humano, de sorte que o ladrão crucificado com ele que o interpela, não lhe diz: Majestade ou Senhor, ou Mestre ou ainda Sua Santidade ou Monsenhor... Não! Ele o chama de Jesus: “Jesus, lembra-te de mim quando vieres em teu Reino” (Lc 23,42). Esse bandido torna-se o primeiro sujeito do Reino: “Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará comigo no Paraíso” (Lc 23,43). É o que fez São João Crisóstomo dizer: “Fiel à sua profissão de ladrão, ele rouba por sua confissão o reino dos céus”.

3. Atualização

Atualmente, temos necessidade de reler este evangelho para celebrar Cristo, Rei do Universo. É preciso nos perguntar: como sociedade e como Igreja, que tipo de rei apresentamos? Que rosto de Cristo mostramos às mulheres e aos homens do nosso tempo? Quantos políticos e lideranças da Igreja exercem o seu poder como monarcas déspotas e cruéis que têm coração muito mais para enriquecer do que servir a coletividade, a comunidade? Na Igreja, quantas dores foram infligidas aos cristãos(as) por lideranças principescas que acreditaram ser os únicos detentores da verdade?

Há alguns anos, o Papa João Paulo II pediu perdão pela Igreja do Renascimento; o cardeal Marc Ouellet fez o mesmo pela Igreja de Quebec antes de 1960, por todos os sofrimentos infligidos às mulheres, aos autóctones, aos judeus, às crianças, aos homossexuais... A reação das pessoas foi muito negativa. Homens, mulheres, membros do clero criticaram duramente tanto o Papa como o cardeal. Diziam que seu perdão era incompleto e condicional; não acreditavam em sua sinceridade. De sorte que o jornalista do jornal Presse, Alain Dubuc, resumiu bem o pensamento de muitos quebequenses sobre o cardeal Marc Ouellet, durante sua passagem pela Comissão Bouchard-Taylor, em 2007. Ele escreve: “Com seu ardor e sua carta de perdão, o cardeal Ouellet conseguiu nos lembrar porque os quebequenses rejeitaram em massa e tão brutalmente a sua Igreja durante os anos 1960. As reações foram muito vivas, porque Ouellet, com sua rigidez e sua arrogância, nos mergulha novamente neste período que os mais velhos dentre nós querem esquecer. Ouellet, eu o digo pesando minhas palavras, após uma leitura atenta das suas intervenções públicas, é um reacionário no sentido mais forte da palavra, alguém que se insurge contra a evolução da sociedade que o cerca, que quer resistir às mudanças e que defende as práticas e os valores que pertencem ao passado”.

Pessoalmente, acredito sinceramente que algumas lideranças eclesiais de hoje fazem muito mais mal à Igreja do que a ajudam; eles encarnam esta Igreja que os quebequenses não querem mais: uma Igreja dogmática e doutrinal que sempre exclui as mulheres, uma Igreja homofóbica que condena os homossexuais, uma Igreja obcecada pela sexualidade, uma Igreja que rejeita aquelas e aqueles que vivem um fracasso em seu casamento e que querem continuar a amar, uma Igreja que acredita ser a única detentora da verdade sobre Deus e sobre o mundo, uma Igreja que recusa qualquer evolução e qualquer mudança na sociedade, uma Igreja que não está a serviço do povo de Deus, mas que se serve dos cristãos para aumentar seu prestígio e seu poder. Com uma Igreja assim, estamos longe do Evangelho e, como durante muito tempo encontramos nela esses príncipes, não deveríamos nos surpreender ao ver mulheres e homens se afastarem desta instituição que lhes parece completamente ultrapassada. Felizmente, há o Papa Francisco que nos faz ter esperança e que se junta a todos os bispos, padres religiosos(as), cristãos que continuam a acreditar e que tanto gostariam de viver o evangelho hoje, apresentando um rosto de Cristo amável, misericordioso, tolerante, aberto, livre, justo, respeitoso do outro, dos outros, compassivo: um rosto de Cristo que faz o homem e a mulher na Quebec de hoje ter esperança.

Concluindo, eu gostaria de citar novamente o Alain Dubuc em sua reflexão sobre a Igreja e sua aproximação negativa ao cardeal Marc Ouellet:

“De acordo com o cardeal Ouellet, um povo não pode se esvaziar tão rapidamente da sua essência sem consequências graves. De onde a confusão da juventude, a queda vertiginosa dos casamentos, a taxa ínfima de natalidade e o número espantoso de abortos e de suicídios para elencar apenas algumas das consequência que se somam às condições precárias dos idosos e da saúde pública. Esse retrato apocalíptico apaga convenientemente as misérias desta época passada, os efeitos da pobreza e da ignorância. Ele atribui à revolução silenciosa um fenômeno que encontramos em todas as partes do Ocidente. E o mais importante, ele se esquece de perguntar se este abandono brutal da religião não se deve às falhas da Igreja mais do que aos complôs dos artistas da revolução silenciosa.

A Igreja, em vez de acompanhar seus fiéis em um período de mudanças difíceis, os abandona, orgulhosa de sua rigidez, e dessa maneira falha em sua missão. Outras Igrejas, portadoras dos mesmos valores, escolheram um outro caminho, especialmente os anglicanos, nossa Igreja irmã, onde os padres são casados, onde se ordena mulheres e onde o casamento gay começa, com dificuldades, a ser aceito.

De fato, o que é mais prejudicial é que a alternativa de Ouellet, uma iniciativa individual, compromete o verdadeiro diálogo no qual se engajaram muitos de seus colegas. Mas seria assombroso se tivesse um grande impacto, eleitoral ou qualquer outro, porque o cardeal está se tornando num personagem marginal para os menores de 70 anos. Exceto para nos lembrar porque a separação entre a Igreja e o Estado é tão boa”.

Fonte: Unisinos

22 de novembro de 2013

terça-feira, 19 de novembro de 2013

O país de Caça-Rato


Amigo torcedor, amigo secador, no país de Caça-Rato, símbolo da sobrevivência e herói do time do Santa Cruz, tudo é diferente da fantasia e da modernidade que tentam nos vender a cada instante, a cada clique, a cada moda. No país de Caça-Rato, o menino Paulo Henrique, 9, nada de braçada no esgoto do canal do Arruda, como na foto de Diego Nigro (JC Imagem), que assombrou o mundo esta semana.

No país de Caça-Rato, alguns, como o próprio jogador, escapam graças ao futebol, ao funk, ao rap, ao pagode. Muitos outros ficam no caminho, caça-ratinhos fadados ao limbo dos refugos humanos ou às balas nada perdidas da polícia --quase sempre morte matada antes dos 30.

No país de Caça-Rato, vale o libelo da música de Chico Science, no rastro das imagens do médico e escritor Josué de Castro (1908-73): o homem-caranguejo saiu do mangue e virou gabiru.

No país de Caça-Rato, as vidas são desperdiçadas, velho Bauman, muito mais do que nos exemplos do teu livro sobre o tema. No país de Caça-Rato só há o barulho dos roedores em sinfonia (wagneriana) com a denúncia permanente das tripas.

Neste país, não se diz estou abaixo da linha da pobreza ou qualquer outra frieza estatística, neste país se diz simplesmente "tô no rato", o mesmo que estar lascado como um maxixe em cruz. O mesmo que estar na pele daquele roedor da fábula de Kafka, o bicho que vê o mundo cada vez mais estreito, sem saída à esquerda e muito menos à direita, restando apenas recorrer à orientação de um gato para não cair na ratoeira. O gato o orienta, civilizadamente, mas o abocanha na sequência.

No país de Caça-Rato, tudo é mesmo diferente. Estádio não é arena, não se sabe quem governa, e o Santa Cruz é muito mais que a seleção Brasileira. É a pátria dos pés-descalços, ouviram do canal do Arruda às margens fétidas e baldeadas.

O dialeto que se fala neste país não entra no Aurélio, mas sim no Liêdo, um sábio recifense, autor, entre outras joias, de "O Povo, o Sexo, a Miséria ou o Homem é Sacana".

A alta gastronomia no país de Caça-Rato tem o aruá, o sururu --já bem escasso e artigo de luxo--, o mingau de cachorro e o caroço de jaca assado na brasa. O rei do camarote neste país sem fronteiras é conhecido como cafuçu, o avesso do playboy, mas uma criatura que capricha no estilo dentro das suas posses. O jogador do Santa Cruz que dá nome a este país é o príncipe dos cafuçus.

No reino de Caça-Rato, o menino que nada no esgoto no canal do Arruda é apenas uma foto que assombra a classe média. Não se fala outra coisa no país de Caça-Rato: que gente mais besta e limpinha, por que tanto barulho sobre uma cena tão repetida diariamente? O país de Caça-Rato sabe que daqui a pouco ninguém mais se lembra. O país de Caça-Rato funciona à prova de padrão Fifa.

xico sá

Xico Sá, jornalista e escritor, com humor e prosa, faz a coluna para quem "torce". É autor de "Modos de Macho & Modinhas de Fêmea" e "Chabadabadá - Aventuras e Desventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha", entre outros livros. Na Folha, foi repórter especial. Na TV, participa dos programas "Cartão Verde" (Cultura) e "Saia Justa" (GNT). Mantém blog e escreve às sextas, a cada quatro semanas, na versão impressa de "Esporte". [09/11/2013]

@xicosa

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Jovem negro tem 3,7 vezes mais chances de ser morto no Brasil


Segundo o Ipea, os dados mostram que, ao nascer no Brasil, o homem negro perde 1,73 ano de expectativa de vida por causa da violência, enquanto que para o branco esse número cai para 0,71.

A reportagem é da Agência Estado, 17-10-2013.

Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre racismo no Brasil divulgado nesta quinta-feira, 17, revelou que a possibilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior do que um branco. Pelo levantamento, a expectativa de vida de um homem brasileiro negro é menos que a metade a de um branco.

Os dados mostram que, ao nascer no Brasil, o homem negro perde 1,73 ano de expectativa de vida por causa da violência, enquanto que para o branco esse número cai para 0,71. As informações são baseadas em um dos textos constantes no boletim. No artigo Segurança Pública e Racismo Institucional, os autores Almir de Oliveira Júnior e Verônica Couto de Araújo Lima, respectivamente pesquisador da Diretoria de Estudos e Políticas do Estado das Instituições e da Democracia (Diest) do Instituto e acadêmica da área de Direitos Humanos da Universidade de Brasília (UnB), falam da desigualdade de acesso à segurança entre brancos e negros.

A conclusão é que a cor aumenta a vulnerabilidade dos negros, que correm 8% mais chances de se tornar vítimas de homicídio que um homem branco, ainda que nas mesmas condições de escolaridade e características socioeconômicas. O estudo aponta que, mais de 60 mil pessoas são assassinadas todos os anos no Brasil, e que a cada três pessoas mortas de forma violenta, duas são negras.

A taxa de homicídio de negros é de 36,5 para 100 mil habitantes, com base em dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cruzados com informações do Ministério da Saúde. No caso dos brancos, esse número cai para 15,5. Ao se somar a população residente nos 226 municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes, calcula-se que a possibilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior em comparação com os brancos.

Ao levar em conta agressões por parte de policiais, os negros também são as vítimas em potencial. Segundo a Pesquisa Nacional de Vitimização, 6,5% dos negros que sofreram uma agressão em 2009, um ano antes de o IBGE coletar os dados que serviram de base para a pesquisa. O Ipea classificou esse comportamento como racismo institucional, mas os pesquisadores acreditam que o comportamento reflete as posições de diversos outros grupos sociais.


Essas diferenças, apontou o Ipea, levam menos negros a buscar ajuda policial em caso de agressão que os brancos. Enquanto apenas 38,2% dos brancos não procuram a polícia nesses casos, esse porcentual sobe para 61,8% quando se trata de negros. As informações vão constar em um mapa do racismo no País, que deverá ser divulgado no próximo mês. O boletim contém ainda seis outros artigos que tratam de temas como segurança pública, pacificação de favelas e manifestações de junho.

domingo, 27 de outubro de 2013

No começo estava o povo de Deus. As vítimas devem estar sempre no centro


Jon Sobrino, s.j.
Teólogo. Director del Centro Monseñor Romero de la UCA

Com essas duas frases, gostaríamos de pôr alguma luz na confusão e, em muitos casos, indignação, que começou no dia 30 de setembro.

Sem aviso prévio e sem levar em conta a dignidade das pessoas, o arcebispado fechou a Tutela Legal (http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=77988). Desde então, houve comunicados dos que demitiram e dos que foram demitidos, mais divulgados os daqueles do que os destes. Logo houve também comunicados de instituições internacionais de renome, da Universidad Centroamericana (UCA) e da Conferência de Religiosos e Religiosas de El Salvador. Mais recentemente, o arcebispo e a promotoria intercambiam opiniões sobre os direitos de ambas instituições com relação aos arquivos.

Muitas outras coisas aconteceram. Algumas são conhecidas pelo povo de Deus; e, a maioria, como costuma ser normal, as desconhecem. Recentemente, o arcebispado nomeou uma comissão de conotados sacerdotes para velar pelos arquivos, para fazer bem as coisas no futuro –e para reparar a imagem do arcebispado, agora deteriorada como quando retiraram os desenhos de Fernando Llort da fachada da catedral. Um camponês formulou como vê o que aconteceu com essas palavras: "Triste. Vergonhoso!”.

1. Os leigos. O povo de Deus e o Socorro Jurídico. "Povo de Deus” é expressão abstrata e seu conteúdo concreto não é muito conhecido pelos salvadorenhos. No entanto, há 50 anos, um Concílio universal definiu o mais real da Igreja de Jesus Cristo com as palavras "Povo de Deus” e não com as palavras "Igreja hierárquica”. Isso quer dizer que bispos, padres, seculares, os chamados leigos e leigas, todos são primordial e igualmente membros da Igreja. As diferenças vêm depois. São diferenças de natureza funcional, e nada dizem da qualidade de vida cristã de seus membros.

Nos anos 70, em El Salvador, foram os leigos que se preocuparam com a violação dos direitos humanos no país e os que defenderam as vítimas. Surgiu o Socorro Jurídico. Muitos salvadorenhos levavam séculos sofrendo a morte lenta da pobreza, da violência originária. Porém, nos anos 70, a essa morte uniu-se a morte rápida da repressão. Clamava aos céus e o grupo de leigos citado, no qual havia advogados, ou seja, gente do direito, se moveu em sua defesa com a novidade de defendê-los também no âmbito dos direitos humanos, que eram grosseiramente violados. Daí o adjetivo jurídico [de Socorro] e depois o adjetivo legal [da Tutela].

Um jesuíta, o Pe. Segundo Montes, a quem Benjamín Cuéllar recorda no artigo que publicamos a seguir, acompanhou e aglutinou ao grupo no Externato San José, Dom Romero reconheceu que o Socorro Jurídico era importante colaborador seu na defesa das vítimas e na denúncia dos vitimários. De fato, na primeira página do Diário de Dom Romero [que tal como se vê, começa na sexta-feira 31 de março de 1978] aparece a referência Socorro Jurídico. Menciona algum nome de seus membros e fala de tarefas concretas... E agrega: "Agradeci-lhes e manifestei-lhes minha satisfação pela acolhida que prestaram ao chamado e pela boa vontade que manifestaram como advogados de consciência cristã”.

Mias tarde, surgiu a Tutela Legal. Até o dia de hoje, com Tutela trabalharam outros bispos, outros sacerdotes e outros leigos/as. O nome de María Julia Hernández é entranhável e inesquecível. Nesses trinta anos, houve cooperação e tensões entre eles. Historicamente, costuma ser o normal.

Agora, entramos em um novo período. Porém, seja qual for a novidade, insistimos em que os direitos humanos é responsabilidade de "todo o Povo de Deus”. Recordo isso porque não é nenhuma sutileza teológica rotineira, mas uma necessidade cristã e histórica. Os leigos são responsáveis como também são outros membros do Povo de Deus, ministros e hierarcas. Têm a mesma dignidade. Uns e outros devem tratar-se com o mesmo respeito.

2. A hierarquia a serviço de todo o Povo de Deus; não acima dele. Na Igreja, há leigos/as e há hierarquia. O Vaticano II disse que, acima das diferenças, deve-se enfatizar que ambos fazem parte por igual do povo de Deus. Sem dúvida, a potestas, o poder ministerial da hierarquia, oferece possibilidades para fazer o bem; porém, tal como demonstra a história, e como todo poder, tem sempre perigos. "Que digam as coisas a mim que sou reitor de uma universidade”, dizia o Pe. Ignacio Ellacuría.

Em democracia se dá por sentado que esse perigo deve ser superado ou, pelo menos, limitado. E, por isso, se insiste na obrigação de "prestar contas”, no que insistia o PE. Dean Brackley, a quem acabamos de recordar nesses dias. Falava muito da necessidade de "accountability”. E em coisas de Igreja, além da democracia, sempre fica o Evangelho, sua exigência e sua utopia: os que estão acima, que se abaixem, disse Jesus.

Ante acontecimentos públicos que geram grave confusão, como aconteceu com o fechamento de Tutela Legal, a história, a democracia e as tradições evangélicas oferecem outros modos de atuar: a disponibilidade para explicar as decisões de antemão e com argumentos convincentes; o diálogo prévio; a prestação de contas e a atitude acolhedora.

Seguindo com a utopia, o ideal é que o Povo de Deus seja exemplo de solidariedade. Certamente, como ajuda e defesa dos que necessitam. Porém, além disso, no Povo de Deus, deveria existir outra forma de solidariedade, que não diminui a mencionada; ao contrário, a incrementa: "carregar, mutuamente, uns aos outros”, ministros, leigos, hierarcas. E quando há agravos, reais ou supostos, que haja a disponibilidade ao diálogo sincero e ao perdão. Com relação à hierarquia, é uma forma de abaixar-se para servir que a utopia evangélica toma. E não se deveria esperar que isso comece pelo outro. Quando essa solidariedade acontecer, o Povo de Deus dará uma grande ajuda ao país.

3. Pelo menos na retórica, parece que na presente conjuntura de conflitos há coincidência de que o mais importante são as vítimas. O Socorro Jurídico primeiro e Tutela Legal depois promoveram nesse país "a memória histórica”. Durante anos, espalharam amor para milhares de perseguidos, assassinados, desaparecidos, os que têm que migrar para poder viver, especialmente mulheres e crianças. Ambas instituições mantiveram milhares de vítimas com vida e com dignidade.

O Pe. Ellacuría as chamou o "Povo Crucificado”. E Dom Romero, depois que o exército assassinou a mais de uma centena de camponeses, no dia 19 de junho de 1977, disse em Aguilares: "Vocês são o Divino traspassado”. E não só lhes deu dignidade com essas palavras, como que confessou ante eles, indefesamente, como entendia sua missão de arcebispo: "Vou recolhendo os cadáveres”. Essa era, ex officio, sua tarefa fundamental por ser arcebispo. "Recolher cadáveres” é uma forma vigorosa de expressar o que todo o Povo de Deus deve fazer com as vítimas. O Socorro Jurídico, Tutela Legal, o IDHUCA e todas as instituições de direitos humanos podem assumi-las. E também todos os membros de todas as igrejas salvadorenhas de qualquer confissão religiosa.

Importantes são os arquivos com nomes, inventários; que estejam bem protegidos. Importantes são as ONGs e sua contribuição. Porém, isso não substitui o "recolher cadáveres” de Dom Romero e de outros nesse país, mártires muitos deles.

4. Deus sabe qual será o futuro de Tutela Legal. Os acontecimentos desses dias não deveriam levar a que diminuam e se empobreçam suas tarefas; mas, que cresçam e melhorem. Que as discussões existentes sirvam para levar luz ao Povo de Deus. E que não levem ao desejo, compreensível, porém, não muito cristão, de "ter mais razão do que o outro”.

As reflexões que acabamos de fazer podem parecer excessivamente conceituais, inclusive complicadas apesar de que pretendam ser simples e trazer luz aos fatos. Termino agora com as palavras de Pedro Casaldáliga, estas, sim, breves e claras: "Tudo é relativo menos Deus e a fome”. E em El Salvador, bem podemos dizer: "menos Deus e as vítimas”.

22 de Outubro de 2013

[Publicado em espanhol, em Carta a las iglesias 642. Centro Monseñor Romero, UCA San Salvador].


Traduzido por Adital

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

“A corte é a lepra do papado”, afirma Francisco


O jornal La Repubblica, 01-10-2013, publica entrevista que o papa Francisco concedeu ao jornalista Eugenio Scalfari. Scalfari escreveu duas cartas a Bergoglio, as quais foram respondidas pelo próprio Papa, que agora aceitou o convite do jornalista, fundador e primeiro diretor do jornal La Repubblica.

Eis a entrevista.

Disse-me o papa Francisco: “O mais grave dos males que afligem o mundo nestes anos é o desemprego dos jovens e a solidão em que são deixados os idosos. Os idosos necessitam de cuidado e de companhia. Os jovens precisam de trabalho e de esperança, mas não têm nenhum dos dois. Diga-me: pode-se viver jogado fora do presente? Sem memória do passado e sem desejo de projetar-se no futuro construindo um projeto, um futuro, uma família? É possível continuar assim? Isto, segundo me parece, é o problema mais urgente que a Igreja tem pela frente”.

Santidade lhe digo, é um problema sobretudo político, diz respeito aos Estados, aos governos, aos partidos, às organizações sindicais.

Sem dúvida, o senhor tem razão, mas diz respeito à Igreja, sobretudo à Igreja, porque esta situação não fere somente os corpos, mas também as almas. A Igreja deve sentir-se responsável tanto pelas almas quanto pelos corpos.

Santidade, o senhor diz que a Igreja dever ser responsável. Devo deduzir que a Igreja não está consciente deste problema e que o senhor a incita nesta direção?

Em grande medida, existe a consciência, mas não o bastante. Eu desejo que ela seja maior. Não é somente este problema que temos pela frente, mas é o mais urgente e o mais dramático.

O encontro com o Papa ocorreu na terça-feira passada, na sua residência de Santa Marta, numa pequena sala, austera, com uma mesa e cinco ou seis cadeiras, um quadro na parede. Foi precedida por um telefonema que não mais esquecerei enquanto eu estiver vivo.

Eram duas e meia da tarde. Tocou o telefone, e a voz um pouco agitada da minha secretária me disse: “O Papa está na linha e o passo imediatamente”.

Surpreso, ouço imediatamente a voz de Sua Santidade do outro lado da linha, que diz:

“Bom dia, sou Papa Francisco”.

Bom dia, Santidade – digo, e depois – estou surpreso. Não esperava que me telefonasse.

Por que surpreso? O senhor me escreveu uma carta pedindo para me conhecer pessoalmente. Eu tinha o mesmo desejo e aqui estou para agendar o encontro. Vejamos a minha agenda: quarta-feira não posso, nem segunda-feira. O senhor pode na terça?

Respondo: “Sim, está ótimo!”

O horário é um pouco incômodo. Às 15h, pode ser? Se não puder, mudamos o dia.

Santidade, o horário está ótimo.

Então, estamos de acordo: terça-feira, 24, às 15h. Em Santa Marta. O senhor deve entrar pela porta do Santo Ofício.

Não sei como concluir este telefonema e lhe digo: posso abraçá-lo pelo telefone?

Sem dúvida, lhe abraço igualmente. Depois o faremos pessoalmente. Até logo.

Agora estou eu aqui. O Papa entra e me dá a mão. Sentamos. O Papa sorri e me diz:

Alguns dos meus colaboradores que lhe conhecem me disseram que o senhor tentará me converter.

É uma anedota e lhe respondo. Também os meus amigos pensam que o senhor quer me converter. Ele sorri e responde:

O proselitismo é uma solene besteira (una solene sciocchezza), não tem sentido. É preciso que nos conheçamos, nos escutemos e cresçamos no conhecimento do mundo que nos circunda. Acontece comigo que, depois de um encontro, tenho vontade de fazer outro, porque nascem novas ideias e se descobrem novas necessidades. Isto é importante: conhecer-se, ouvir, ampliar o horizonte dos pensamentos. O mundo é feito de estradas que nos aproximam e distanciam, mas o importante é que nos levem para o Bem.

Santidade existe uma visão única do Bem? E quem o estabelece?

Cada um de nós tem uma visão do Bem e também do Mal. Devemos incitar a proceder para aquilo que cada um pensa que seja o Bem.

O senhor, Santidade, já o escrevera na carta que me endereçou. A consciência é autônoma, dissera, e cada um de nós deve obedecer à própria consciência. Penso que aquela seja uma das passagens mais corajosas ditas por um Papa.

E o repito. Cada um de nós tem uma ideia do Bem e do Mal e deve fazer a escolha de seguir o Bem e combater o Mal como o concebe. Isto bastaria para melhorar o mundo.

A Igreja o está fazendo?

Sim, as nossas missões têm este objetivo: individuar as necessidades materiais e imateriais das pessoas e buscar satisfazê-las da maneira como podemos. O senhor sabe o que é “ágape”?

Sim, sei.

É o amor pelos outros, como Nosso Senhor o pregou. Não é proselitismo, é amor. Amor pelo próximo, fermento que serve o bem comum.

Ama o próximo como a ti mesmo.

Exatamente assim.

Jesus na sua pregação disse que o ágape, o amor pelos outros, é o único modo de amar a Deus. Corrija-me caso esteja errado.

Não está errando. O Filho de Deus se encarnou para infundir nas almas dos homens o sentimento da fraternidade. Todos irmãos e todos filhos de Deus. Abba, como ele chamava o Pai. Eu lhes indico o caminho, dizia. Segui e encontrareis o Pai e sereis todos seus filhos e Ele terá a sua complacência em vocês.

O ágape, o amor de cada um de nós por todos os outros, do mais próximo aos mais longínquos, é, precisamente, o único modo que Jesus indicou para encontrar o caminho da salvação e das bem-aventuranças.

Contudo, a exortação de Jesus, recordamos anteriormente, é que o amor pelo próximo é igual ao que temos a nós mesmos. Portanto, o que muitos chamam de narcisismo é reconhecido como válido, positivo, na mesma medida do outro. Discutimos longamente a este respeito.

A mim – dizia o Papa – a palavra narcisismo não agrada, indica um amor desfocado para si mesmo e isto não é bom, pois pode produzir graves problemas não somente para a alma de quem é afetado, mas também na relação com os outros, com a sociedade em que vive. O verdadeiro problema é que os mais atingidos por isto, que na realidade é uma espécie de distúrbio mental, são pessoas que têm muito poder. Muitas vezes os chefes (“i Capi”, no original) são narcísicos.

Também muitos chefes da Igreja foram narcísicos.

Sabe o que penso sobre isto? Os chefes da Igreja muitas vezes foram narcísicos e excitados pelos seus cortesãos. A corte é a lepra do papado.

A lepra do papado. O senhor falou precisamente assim. Mas que corte? O senhor alude, por acaso, à Cúria?, perguntei.

Não, na Cúria há, às vezes, cortesãos. Mas a Cúria na sua complexidade é uma outra coisa. É a que nos exércitos se chama de intendência, gere os serviços que servem a Santa Sé. Mas tem um defeito: é Vaticano-cêntrica. Vê e cuida dos interesses do Vaticano, que são ainda, em grande parte, interesses temporais. Esta visão Vaticano-cêntrica descuida do mundo que nos circunda. Não compartilho com esta visão e farei tudo para mudá-la. A Igreja é e deve voltar a ser uma comunidade do povo de Deus, e os presbíteros, os párocos, os bispos estão a serviço do povo de Deus. A Igreja é isto, uma palavra, não por acaso, diferente da Santa Sé, que tem uma função importante, mas está a serviço da Igreja. Eu não teria a fé plena em Deus e no seu Filho se não fosse formado na Igreja e tive a sorte de me encontrar, na Argentina, numa comunidade sem a qual não teria consciência de mim e da minha fé.

O senhor percebeu a sua vocação desde jovem?

Não, não muito jovem. Tive que trabalhar, ganhar algum salário. Fiz a universidade. Tive uma professora que aprendi a respeitar e se tornou minha amiga, era uma fervorosa comunista. Muitas vezes lia para mim e me dava para ler textos do Partido Comunista. Assim conheci também aquela concepção muito materialista. Recordo que me fez ver o comunicado dos comunistas americanos em defesa de Rosenberg, que foram condenados à morte. A mulher de que estou falando foi presa, torturada e morta pelo regime ditatorial da Argentina.

O comunismo o seduziu?

O seu materialismo não me seduziu. Mas conhecê-lo por meio de uma pessoa corajosa e honesta me foi útil. Compreendi algumas coisas, um aspecto social, que depois encontrei na doutrina social da Igreja.

A teologia da libertação, que o papa Wojtyla excomungou, era bastante presente na América Latina.

Sim, muitos dos seus expoentes eram argentinos.

O senhor acha que foi certo que o Papa os combatesse?

Sim, porque davam um seguimento político à teologia. Mas muitos deles eram crentes e com um alto conceito de humanidade.

Santidade, permita-me que lhe diga algo da minha formação cultural? Fui educado por uma mãe muito católica. Aos 12 anos venci uma disputa de alunos de catequese feita entre várias paróquias de Roma e ganhei um prêmio do Vicariato. Comungava sempre nas primeiras sextas-feiras, enfim, praticava a liturgia e acreditava. Mas tudo mudou quando entrei no liceu. Li, entre outros textos de filosofia que estudávamos, o “Discurso do Método” de Descartes e fiquei impressionado pela frase, que se tornou icônica, “Penso, logo existo”. O ‘eu’ tornou-se, assim, a base da existência humana, a sede autônoma do pensamento.

Descartes, no entanto, nunca negou a fé do Deus transcendente.

É verdade, mas tinha posto o fundamento de uma visão totalmente diferente e me encaminhou depois, corroborado por muitas outras leituras, e me levou à outra margem.

O senhor, no entanto, se entendi bem, é não crente mas não um anticlerical. São duas coisas muito diferentes.

É verdade, não sou anticlerical, mas me torno quando encontro um clerical.

O Papa sorri e me diz:

Também me acontece isto. Quando encontro um clerical, me torno anticlerical de vez. O clericalismo não deveria ter nada a ver com o cristianismo. São Paulo, que foi o primeiro a falar aos Gentios, aos pagãos, aos crentes em outras religiões, foi o primeiro a nos ensinar isto.

Posso lhe pedir, Santidade, quais são os santos que estão mais próximos da sua alma e quais lhe ajudaram a formar a experiência religiosa?

São Paulo é aquele que me colocou os eixos da nossa religião e do nosso credo. Não se pode ser cristão consciente sem São Paulo. Traduziu a pregação de Cristo numa estrutura doutrinária que, apesar dos aggiornamentos de uma imensa quantidade de pensadores, de teólogos, de pastores de almas, resistiu e resiste depois de dois mil anos. E depois Agostinho, Bento e Tomás e Inácio. E, naturalmente, Francisco. Devo lhe explicar por quê?

Francisco – seja-me permitido, a esta altura, chamá-lo assim, porque é ele mesmo que o sugere pelo que fala, sorri, por suas exclamações de surpresa ou de partilha, me olha como que me encorajando a lhe fazer perguntas mais escabrosas e mais complicadas para quem guia a Igreja. Assim, lhe pergunto: De Paulo explicou a importância e o seu papel, mas gostaria de saber quais foram, entre os que foram citados, os que sente mais próximos da sua alma?

O senhor me pede uma classificação, mas estas podem ser feitas se falamos de esporte ou de coisas análogas. Poderei lhe citar os melhores jogadores de futebol da Argentina. Mas os santos...

Mas não quero evadir a sua pergunta. O senhor não me pediu uma classificação sobre a importância cultural e religiosa, mas quais santos estiveram mais próximos da minha alma. Então lhe digo: Agostinho e Francisco.

E não Inácio, ordem a qual o senhor pertence?

Inácio, por razões compreensíveis, é aquele que conheço mais do que os outros. Fundou a nossa Ordem. Recordo-lhe que desta Ordem também era Carlo Maria Martini, que me é muito caro assim como ao senhor. Os jesuítas foram e ainda são o fermento – não os únicos mas, talvez, os mais eficazes – da catolicidade; cultura, ensino, testemunho missionário, fidelidade ao Pontífice. Mas Inácio fundou a Companhia, era também um reformador e um místico. Sobretudo um místico.

E o senhor acha que os místicos são importantes para a Igreja?

Foram fundamentais. Uma religião sem místicos é uma filosofia.

O senhor tem uma vocação mística?

O que o senhor acha?

Parece-me que não.

Provavelmente, o senhor tem razão. Adoro os místicos. Também Francisco, por muitos aspectos da sua vida, foi místico, mas eu não acredito que tenho esta vocação. Mas é preciso que nos entendamos sobre o significado profundo desta palavra. O místico consegue despojar-se do fazer, dos fatos, dos objetivos e até da pastoralidade missionária e se eleva até atingir a comunhão com as Bem-aventuranças. São momentos breves, mas que preenchem a vida inteira.

Para o senhor isto nunca aconteceu?

Raramente. Por exemplo, quando o Conclave me elegeu Papa. Antes da aceitação, pedi para me retirar por alguns instantes no quarto que fica ao lado do balcão sobre a praça. A minha cabeça estava completamente vazia e uma grande ânsia me invadira. Para fazê-la passar e me relaxar, fechei os olhos e todo e qualquer pensamento desapareceu. Também aquele de recusar o encargo, como o resto do procedimento litúrgico seguinte. Fechei os olhos e não mais tive nenhuma ânsia ou emotividade. A um certo ponto, uma grande luz me invadiu. Durou um instante, mas me pareceu algo longuíssimo. Depois a luz se dissipou. Levantei-me e me dirigi até a sala em que me esperavam os cardeais e a mesa sobre a qual estava o ato de aceitação. Assinei-o, o cardeal camerlengo o assinou, e depois foi o momento do “Habemus Papam”.

Permanecemos alguns momentos em silêncio e depois disse: falávamos dos santos que o senhor sente mais próximos da sua alma e ficamos em Agostinho. Pode me dizer por que o sente mais próximo de si?

Também o meu predecessor tem em Agostinho o seu ponto de referência. Esse santo passou por muitos eventos na sua vida e mudou várias vezes a sua posição doutrinária. Teve também palavras muito duras no confronto com os hebreus, que eu nunca compartilhei. Escreveu muitos livros, e aquele que me parece mais revelador da sua intimidade intelectual e espiritual é “Confissões”. Elas contêm algumas manifestações de misticismo, mas ele não é, como muitos sustentam, o continuador de Paulo. Ele vê a Igreja e a fé no mundo de uma maneira profundamente diferente de Paulo, talvez porque quatro séculos os separam.

Qual é a diferença, Santidade?

Para mim, em dois aspectos substanciais. Agostinho se sente impotente de fronte à imensidade de Deus e às tarefas que um cristão e um bispo deveriam realizar. No entanto, ele não foi impotente, mas na sua alma se sentia sempre como estando abaixo do que deveria e queria fazer. E depois da graça dispensada pelo Senhor como elemento fundante da fé. Da vida. Do sentido da vida. Quem não é tocado pela graça pode ser uma pessoa sem mácula e sem medo, mas não será nunca uma pessoa tocada pela graça. Esta é a intuição de Agostinho.

O senhor se sente tocado pela graça?

Isto não se pode saber. A graça faz parte da consciência, é a quantidade de luz que temos na alma, não de sabedoria nem de razão. Também o senhor, sem o saber, poderia estar tocado pela graça.

Sem fé? Não crente?

A graça diz respeito à alma.

Eu não creio em alma.

Não crê, mas tem.

Santidade, o senhor dissera que não tinha nenhuma intenção em me converter e creio que não conseguiria.

Isto não se sabe; contudo, não tenho nenhuma intenção em lhe converter.

E Francisco?

É grandíssimo porque é tudo. Homem que quer fazer, quer construir, funda uma Ordem e as suas regras, é itinerante e missionário, é poeta e profeta, é místico. Constatou nele mesmo o mal e o superou. Ama a natureza, os animais, a erva do campo e os pássaros que voam no céu, mas sobretudo ama as pessoas, as crianças, os velhos, as mulheres. É o exemplo mais luminoso daquele ágape de que falávamos antes.

O senhor tem razão, Santidade. A descrição é perfeita. Mas por que nenhum dos seus predecessores escolheu o nome de Francisco? E, segundo me parece, nenhum outro o escolherá depois do senhor.

Isto não sabemos. Não hipotequemos o futuro. É verdade, antes nenhum o escolheu. Aqui afrontamos o problema dos problemas. O senhor quer beber algo?

Obrigado, talvez um copo d'água.

O Papa se levanta, abre a porta e pede a um colaborador que estava entrando que lhe traga dois copos de água. Pede se eu quero um café. Digo que não é preciso. Chega a água. No fim da nossa conversação o meu copo está vazio, mas o dele permaneceu cheio. Molha a garganta e começa.

Francisco queria uma Ordem mendicante e também itinerante. Missionários em busca de encontrar, escutar, dialogar, ajudar, difundir a fé e o amor. Sobretudo o amor. E mirava uma Igreja pobre que assumisse o cuidado dos outros, recebesse ajuda material e a utilizasse para sustentar os outros, com nenhuma preocupação consigo mesma. Passaram 800 anos desde então, e os tempos mudaram muito, mas o ideal de uma Igreja missionária e pobre permanece mais do que válida. Esta é a Igreja que foi pregada por Jesus e pelos seus discípulos.

Vocês cristãos são, atualmente, uma minoria. Até na Itália, que era definida como o jardim do Papa, os católicos praticantes seriam, segundo algumas sondagens, entre 8 e 15%. Os católicos que dizem sê-lo mas que são de fato, são poucos, uns 20%. No mundo existe um bilhão de católicos, e também com as outras Igrejas cristãs, vocês superam um bilhão e meio. Mas o planeta é habitado por 6 a 7 bilhões de pessoas. Vocês são, é certo, muitos, especialmente na África e na América Latina, mas minorias.

Sempre fomos minoria, mas o tema, hoje, não é este. Pessoalmente penso que ser uma minoria pode ser uma força. Devemos ser uma semente de vida e de amor, e a semente é uma quantidade infinitamente menor da massa dos frutos, das flores e das árvores que nascem da semente. Parece-me que já disse que o nosso objetivo não é o proselitismo, mas a escuta das necessidades, dos desejos, das desilusões, do desespero, da esperança. Devemos voltar a dar esperança aos jovens, ajudar os idosos, abrir para o futuro, difundir o amor. Pobres entre os pobres. Devemos incluir os excluídos e pregar a paz. O Vaticano II, inspirado pelo papa João e por Paulo VI, decidiu olhar para o futuro com espírito moderno e abrir-se à cultura moderna. Os padres conciliares sabiam que abrir-se à cultura moderna significava ecumenismo religioso e diálogo com os não-crentes. Desde então foi feito muito pouco nesta direção. Tenho a humildade e a ambição de querer fazê-lo.

Também porque - me permito acrescentar - a sociedade moderna em todo o planeta atravessa um momento de crise profunda, e não somente econômica, mas social e espiritual. O senhor, no início deste nosso encontro, descreveu uma geração excluída do presente. Também nós, não-crentes, sentimos este sofrimento quase antropológico. Por isto queremos dialogar com os crentes e com quem melhor os representa.

Eu não sei se sou o melhor representante, mas a Providência me colocou como guia da Igreja e da Diocese de Pedro. Farei o que for possível para cumprir o mandato que me foi confiado.

Jesus, como o senhor recordou, disse: ama o teu próximo como a ti mesmo. Parece-lhe que isto aconteceu?

Não. O egoísmo aumentou e o amor aos outros diminuiu.

Este, então, é o objetivo que nos une: ao menos intensificar estes dois tipos de amor. A sua Igreja está pronta e preparada para esta tarefa?

O senhor, o que pensa?

Penso que o amor pelo poder temporal seja ainda muito forte entre os muros do Vaticano e na estrutura institucional de toda a Igreja. Penso que a Instituição predomina sobre a Igreja pobre e missionária que o senhor desejaria.

Realmente, as coisas estão assim e nesta matéria não se fazem milagres. Recordo-lhe que também Francisco, no seu tempo, teve que negociar com a hierarquia romana e com o Papa para que as regras da sua Ordem fossem reconhecidas. No fim obteve a aprovação, mas com profundas mudanças e compromissos.

O senhor seguirá o mesmo caminho?

Certamente não sou Francisco de Assis, e não tenho a sua força e a sua santidade. Mas sou o Bispo de Roma e o Papa da catolicidade. Como primeira coisa, decidi nomear um grupo de oito cardeais para que sejam o meu conselho. Não cortesãos, mas pessoas sábias e animadas pelos mesmos sentimentos.

Fonte: La Repubblica
Tradução é da IHU On-Line.

01 de outubro de 2013

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Significados de Carapuça


Carapuça é uma espécie de barrete ou capuz de forma cônica e remonta ao período da Inquisição, em que os condenados eram obrigados a vestir trajes ridículos ao comparecer aos julgamentos. Além de usar uma túnica com o formato de um poncho, eles precisavam colocar sobre a cabeça um chapéu longo e ponteagudo, conhecido como carapuça. Daí a expressão "vestir a carapuça" ter se incorporado ao português escrito e falado com o sentido de "assumir a culpa".

A palavra vem do italiano antigo, carapazza, e do espanhol caperuza. Atualmente, a carapuça é utilizada em aves de rapina, na prática da falcoaria.



O fabricante de carapuças chama-se carapuceiro.


domingo, 25 de agosto de 2013

O que vem a ser “secularização”?


Atualmente nos deparamos com certas mudanças que nos surpreendem e que chegam a nos questionar sobre até onde é capaz de ir o homem com a sua mentalidade secularizada.

É importante saber o que vem a ser “secularização”, pois por vezes vivemos a nossa vida sem perceber o que realmente acontece na nossa sociedade, ao nosso redor. Chegamos a aplaudir fatos e acontecimentos sem que percebamos o imenso mal que podem nos fazer. Diariamente recebemos muitas informações que são fontes de uma espécie de “indiferentismo religioso e do ateísmo nas suas mais variadas formas, particularmente naquela que hoje talvez seja a mais espalhada: a do secularismo” (CL, 13.4).

Para que se possa entender o que é secularização, e também por que o Santo Padre pede com urgência uma nova evangelização, é bom citar alguns exemplos que ainda são atuais: tivemos há pouco tempo notícias de cientistas que conseguiram colocar uma orelha humana em um rato, também fizeram um clone de uma ovelha. Isso teve repercussão no mundo inteiro, tornando-se uma questão de ética, de moral, pois abriu a possibilidade de se criar clones humanos. É verdade que a tecnologia, a informação, a informática e a ciência trazem grandes benefícios; mas quando valorizam a pessoa humana só pelo que ela tem e não pelo que ela é de fato, deixam de ser benefícios para se tornarem um mal.

Mas, o que é realmente secularização? Segundo o Dicionário de Conceitos Fundamentais de Teologia, secularização “designa o processo, iniciado na Idade Média e que continuou a manifestar-se nos tempos modernos, de afastamento, separação e emancipação, praticamente de todos os campos do universo da vida humana, do contexto de sentido fornecido pela fé cristã” (DCFT, 81).

Em outras palavras, o homem usa de seus conhecimentos técnicos, dons concedidos gratuitamente por Deus, de uma forma errada, ou que o fascinam por suas próprias conquistas, esquecendo-se de que é uma criatura. Assim, torna-se atual a velha tentação de “querer ser como Deus” (Gn 3,5). Usando de uma liberdade sem parâmetros, o homem vai eliminando as raízes religiosas que estão no fundo do seu ser. Ele vai esquecendo-se de Deus. Muitos quiseram propagar a “morte de Deus” na cabeça e no coração do povo. Apesar de não terem conseguido muita coisa, ainda hoje há alguns que querem ser “Deus”, ou tornar Deus um ser insignificante, sem valor.

A secularização atinge muitos setores da vida humana, roubando-lhes o sentido de pertencer a Deus e tê-lo como pertença maior. Não só o indivíduo, mas a família, a comunidade, a sociedade entram nesse sistema, e por isso o Santo Padre grita pela nova evangelização, por um retorno a Deus, porque uma vez secularizado, o homem tornou-se só, vazio, amargo, triste e perdido. Roda em círculos procurando uma felicidade que pensa estar nas suas descobertas, fora de Deus, ou seja, uma felicidade em que ele é o centro de tudo, o que não é verdade, bem sabemos.

É um grande desafio para a evangelização enfrentar neste mundo cada vez mais secularizado. É um grande desafio apresentar Jesus a este mundo descrente que prefere apostar em si mesmo do que se deixar amar por Deus. Mas não deve ser um desestímulo para nós, que acreditamos e experimentamos a cada dia o amor de Deus, muito pelo contrário, quanto mais se observar que o mundo está mergulhado em uma cultura secularizada, se afastando de Deus, que o homem não ama mais a seu Deus e ao seu próximo, aí é que devemos anunciar o Amor. “Apesar de tudo, portanto, a humanidade pode e deve ter esperança: o Evangelho vivo e pessoal, Jesus Cristo em pessoa, é a “notícia” nova e portadora de alegria que a Igreja cada dia anuncia e testemunha a todos os homens” (CL 19,7). Não podemos desanimar uma vez que temos Jesus Cristo como centro de nossas vidas.


Lutemos, pois, para que Deus seja novamente posto no seu devido lugar: o coração do homem, o coração da sociedade.