Eis aí um senhor legado; vale a pena pensar nele e aplicá-lo como uma homenagem à grande pessoa que o deixou
O BRASIL perdeu recentemente um grande
pensador, um educador formidável e um democrata valente, com a morte de
Goffredo Telles Junior. Polêmico muitas vezes, em razão de suas convicções e da
forma como as expunha, formou gerações de advogados orientados pelo seu
conceito de que a ciência do direito é a ciência da comunhão entre os homens e
também é a sabedoria da convivência.
Em uma aula de encerramento de curso na
gloriosa São Francisco, o grande mestre fez questão de deixar um legado útil
aos seus alunos, uma mensagem que também daria a seu filho se este lhe
perguntasse quais as normas da convivência humana. E as resumiu em sete regras
que considerava essenciais:
Primeira regra: "Ser simples de coração e
atitude".
Queria com isso dizer que por mais poderoso
possa alguém ser deve banir do coração a arrogância e a insolência. Propunha
abafar o orgulho porque a essência humana é uma só, e o poder é passageiro.
Segunda regra: "Ser verdadeiro, mas não
falar oracularmente".
E nessa regra firmava posição irredutível de
compromisso com a verdade: nunca escamoteá-la, jamais traí-la, não adulterá-la,
não se corromper. Sem a pretensão de ser o dono da verdade, é preciso entender
que ela, por circunstâncias, pode até mudar, se prova cabal houver para isso. Portanto,
pregar e praticar a verdade não significa ser oracular, absolutamente certo.
Terceira regra: "Saber ouvir, saber
reconsiderar, saber confessar nosso engano".
Saber ouvir, segundo o mestre, não é só
escutar: é adentrar o espírito das palavras ouvidas, entendê-las sem
preconceito, mesmo discordando ou eventualmente duvidando. Dizia que quem sabe
ouvir aprende a evoluir.
Quarta regra: "Não ferir o amor-próprio
alheio".
Essa é uma regra de ouro, porque a ferida do
amor-próprio não se cura. Daí que o cinismo e o sarcasmo são armas violentas
que matam o entendimento e a amizade. Zombar de outrem é uma agressão
inaceitável e muitas vezes covarde.
Quinta regra: "Não atormentar o próximo
com críticas ou lamúrias".
A crítica só faz sentido se for construtiva e
nunca terá valor se praticada por inveja, despeito ou incapacidade de fazer bem
feito. A crítica como incentivo, sim, mas com muito cuidado, para não ofender e
diminuir. Quanto à lamúria, é sempre um desrespeito para o interlocutor
otimista. O lamuriento é um chato, deve guardar suas penas só para si. Sua
atitude é um lamento em si mesma.
Sexta regra: "Evitar a intimidade".
E explicava que ser íntimo pode representar a
invasão da alma, descerrar o mistério do coração do amigo, e isso é perigoso. Se
oferecida, a intimidade pode ser aceita com dignidade, mas buscá-la a qualquer
preço destrói a amizade, inviabilizava a convivência. Ver por dentro a alma do
amigo o transforma em vassalo, dominado, e isso é terrível para a relação.
Sétima regra: "Ser prestativo, sem se
tornar intruso nem servo".
Aqui, o mestre pregava o amor em sua essência,
cristão mesmo, buscando servir sem pedir compensação ou esperá-la. E servir
somente quando precisam da gente, não impondo o serviço. Nem deixando que
abusem do dedicado espírito colaborador. Servir sempre, em nome do bem e da
verdade. Eis aí um senhor legado! Vale muito à pena pensar nessas regras e
aplicá-las para dar sentido à vida. Segui-las é também uma homenagem ao grande
brasileiro que nos deixou.
* Artigo publicado na Folha de S. Paulo, em 10
de agosto de 2009.
Roberto Rodrigues (ex ministro da Agricultura e
ex-aluno do Prof. Goffredo)

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