sábado, 10 de março de 2012

AS SETE REGRAS*



Eis aí um senhor legado; vale a pena pensar nele e aplicá-lo como uma homenagem à grande pessoa que o deixou

O BRASIL perdeu recentemente um grande pensador, um educador formidável e um democrata valente, com a morte de Goffredo Telles Junior. Polêmico muitas vezes, em razão de suas convicções e da forma como as expunha, formou gerações de advogados orientados pelo seu conceito de que a ciência do direito é a ciência da comunhão entre os homens e também é a sabedoria da convivência.

Em uma aula de encerramento de curso na gloriosa São Francisco, o grande mestre fez questão de deixar um legado útil aos seus alunos, uma mensagem que também daria a seu filho se este lhe perguntasse quais as normas da convivência humana. E as resumiu em sete regras que considerava essenciais:

Primeira regra: "Ser simples de coração e atitude".

Queria com isso dizer que por mais poderoso possa alguém ser deve banir do coração a arrogância e a insolência. Propunha abafar o orgulho porque a essência humana é uma só, e o poder é passageiro.

Segunda regra: "Ser verdadeiro, mas não falar oracularmente".

E nessa regra firmava posição irredutível de compromisso com a verdade: nunca escamoteá-la, jamais traí-la, não adulterá-la, não se corromper. Sem a pretensão de ser o dono da verdade, é preciso entender que ela, por circunstâncias, pode até mudar, se prova cabal houver para isso. Portanto, pregar e praticar a verdade não significa ser oracular, absolutamente certo.

Terceira regra: "Saber ouvir, saber reconsiderar, saber confessar nosso engano".

Saber ouvir, segundo o mestre, não é só escutar: é adentrar o espírito das palavras ouvidas, entendê-las sem preconceito, mesmo discordando ou eventualmente duvidando. Dizia que quem sabe ouvir aprende a evoluir.

Quarta regra: "Não ferir o amor-próprio alheio".

Essa é uma regra de ouro, porque a ferida do amor-próprio não se cura. Daí que o cinismo e o sarcasmo são armas violentas que matam o entendimento e a amizade. Zombar de outrem é uma agressão inaceitável e muitas vezes covarde.

Quinta regra: "Não atormentar o próximo com críticas ou lamúrias".

A crítica só faz sentido se for construtiva e nunca terá valor se praticada por inveja, despeito ou incapacidade de fazer bem feito. A crítica como incentivo, sim, mas com muito cuidado, para não ofender e diminuir. Quanto à lamúria, é sempre um desrespeito para o interlocutor otimista. O lamuriento é um chato, deve guardar suas penas só para si. Sua atitude é um lamento em si mesma.

Sexta regra: "Evitar a intimidade".

E explicava que ser íntimo pode representar a invasão da alma, descerrar o mistério do coração do amigo, e isso é perigoso. Se oferecida, a intimidade pode ser aceita com dignidade, mas buscá-la a qualquer preço destrói a amizade, inviabilizava a convivência. Ver por dentro a alma do amigo o transforma em vassalo, dominado, e isso é terrível para a relação.

Sétima regra: "Ser prestativo, sem se tornar intruso nem servo".

Aqui, o mestre pregava o amor em sua essência, cristão mesmo, buscando servir sem pedir compensação ou esperá-la. E servir somente quando precisam da gente, não impondo o serviço. Nem deixando que abusem do dedicado espírito colaborador. Servir sempre, em nome do bem e da verdade. Eis aí um senhor legado! Vale muito à pena pensar nessas regras e aplicá-las para dar sentido à vida. Segui-las é também uma homenagem ao grande brasileiro que nos deixou.


* Artigo publicado na Folha de S. Paulo, em 10 de agosto de 2009.
Roberto Rodrigues (ex ministro da Agricultura e ex-aluno do Prof. Goffredo)

ASSEMBLÉIA CELEBRATIVA - 20 ANOS DA REGIÃO EPISCOPAL BRASILÂNDIA



Brasilândia - No dia da celebração dos 20 anos - 20/06/2009
Ata - Assembléia Brasilândia

“Meu Pai era um arameu errante: ele desceu ao Egito e ali residiu com poucas pessoas; depois tornou-se uma nação grande, forte e numerosa”. Assim começa o chamado credo histórico de Israel, colocado no livro do Deuteronômio, 26,5ss. E o mesmo credo termina dizendo: “e agora, eis que trago as primícias dos frutos do solo que tu me deste, Yahweh”.

É uma oração a ser recitada quando se apresenta diante de Deus para oferecer-lhe os frutos da terra. Mais ou menos o que estamos fazendo aqui hoje, reunindo-nos para apresentarmos a Deus, e não simplesmente a nós, os frutos de 20 anos da terra que o Senhor Yahweh nos deu. Se não são primícias, ainda são frutos. Não se trata de qualquer terra, mas sim da terra do Brasil. Afinal, é isso que significa Brasilândia: terra do Brasil, ainda que dito através de raízes inglesas. Não vou rememorar fatos, embora talvez devesse fazer isso. Afinal, uma história só é boa quando contada. Mas ela foi mais do que narrada agora, foi apresentada daí que me dispenso de simplesmente narrar fatos. Fazer memória pode ser, também, perguntar-se pelo significado de fatos acontecidos ou de uma história vivida. Por isso quero perguntar-me pelo significado de 20 anos de Região Brasilândia.

A Região começou, todos se lembram, de uma crise. Crise é motivo de crescimento, todos sabem. A divisão da Arquidiocese, motivada por razões de política eclesiástica, dizíamos nós. Sentimo-nos dispersos, atacados, separados. Bem quando se falava de unidade, nos separavam. Ainda mais, dividiu-se a Região Lapa; nos separaram ainda mais. Na época ainda diziam as más línguas que era necessário “encontrar lugar para um bispo”, e por isso dividiram a Lapa, criando uma nova Região. Nascida em meio a solavancos da história, a região, ainda sem nome, tinha apenas tudo a ser feito: estabelecimento de fronteiras, organização interna, cúria, casa do bispo, centro pastoral, tantas coisas que algumas ainda estão por se fazer. Mas pelo menos o nome se estabeleceu rapidamente, não sem discussões: seu nome é Brasilândia, terra do Brasil, do fundo da periferia da cidade. E pelo nome já se define a identidade: é da periferia de São Paulo.

Ser da periferia significa em primeiro lugar saber se arranjar, saber se virar. E a Brasilândia começou a ser se virando. Arrumou uma cúria provisória no prédio da paróquia de Itaberaba; tão provisória que está lá até hoje, como pobre que chega na casa dos parentes e “vai ficando”... Provisoriamente também se definiu a moradia do bispo: no fundo do seminário da Freguesia; provisoriamente, está lá até hoje. Saber viver do provisório, saber utilizar o pouco que se tem é não apenas característica dos pobres, que não têm outra coisa a fazer, mas dos que têm fé, e confiam na ação de Deus. Não uma ação mágica, de quem vai “prover” o que não se tem, mas a confiança do filho que sabe que é assistido pelo Pai e por isso, vai se virando...

Viver do provisório não significa aquele velho adágio que “somos peregrinos neste mundo porque nossa pátria é o céu”; na Terra do Brasil, Brasilândia, viver do provisório, como é próprio dos pobres, significa não se apegar às posses e propriedades, significa não ater-se ao que se possui, até porque como definição o “pobre não tem”, mas compreender que viver é cultivar outros valores que não os de propriedade. Significa fazer confiança, ou seja, ter fé numa promessa feita por alguém que já provou que nos ama ao ponto de entregar sua vida. Viver do provisório é uma maneira de testemunhar a fé que se tem.

Mas a história da Região Brasilândia desenvolveu-se, e muito, no depois de sua criação. Um momento de crise é gerador de crescimento, e foi assim que se deu. A Brasilândia aos poucos se estruturou, contando com o trabalho abnegado não só dos bispos, o primeiro e o segundo, ou dos padres, mas sobretudo de leigos e leigas, religiosos e religiosas, tantos e tantas que gastaram suas vidas ajudando a construir esta igreja. Celebramos hoje 20 anos de Região, tentando ver que “há males que vêm para o bem”, como diz a voz do povo.

Durante todo este tempo a Região viveu com muitas dificuldades: financeiras, de pessoal, crises de todos os tipos. Não foram poucos os momentos em que, de cima, de baixo ou pelos lados procurou-se fazer com que a Região Brasilândia desaparecesse, não como entidade geográfica, mas como comportamento eclesial. Mas ela resistiu, está aí. A Brasilândia, teimosamente, continua Brasilândia. Vivendo da bela e santa teimosia (assim como há uma bela e Santa Catarina!), teimosia dos pobres. Porque os pobres são teimosos, teimam em continuar vivendo quando tantas forças querem sua morte. A igreja que se une aos pobres aprende a ser teimosa. Teimar em viver, teimar em cultivar sua identidade eclesial, teimar em afirmar o princípio de comunhão na igreja, teimar em colocar-se ao lado e ao serviço dos pobres, teimar em fazer-se ministérios e participação, teimar em ser igreja. Santa Teimosia!!! Para os ouvidos mais puros, pode-se falar em “Perseverança”. E, como diz a Escritura, “quem perseverar até o fim será salvo”!

1989, ano do nascimento da Região Brasilândia, foi também ano de outros acontecimentos, como a queda do muro de Berlim, do outro lado do mundo, ou a presença de uma prefeita atenta à periferia, esta mais próxima de nós. Foi também ano de messianismos colloridos e de críticas ao velho jeito de ser “novo jeito de ser igreja”. Foi momento em que começou-se a perceber, também no seio da igreja, que o leme estava girando. A barca não procurava apenas outra condução ou outra direção, procurava outras águas onde navegar, mais calmas e seguras. O discurso de firmeza, clareza e segurança voltava a convencer multidões. A Região Brasilândia foi sentindo isso também, ainda que aos poucos. Questões e debates diferentes foram aparecendo aos poucos, povoando corações, mentes e reuniões. Até que chegou o momento de ser claro. E aí a igreja da Terra do Brasil deixou então bem claro para todos: ela continua a apostar nas Cebs.

As comunidades eclesiais de base sempre se afirmaram como “novo jeito de ser igreja”. Novo não apenas porque continha novidade no seu nome, mas porque apostava numa proposta diferente do que a velha e conhecida mentalidade eclesiástica. Durante algum tempo as Cebs pensaram que esse “novo jeito” significava simplesmente “nova estrutura”. E a Brasilândia teve de, ao fio dos anos, aprender que isso significava “ser igreja de outro jeito”, com ênfase no jeito, e não na estrutura. Afinal, comunidades eclesiais de base não são uma estrutura: são uma mentalidade. E a Brasilândia continuou com a mentalidade de comunidades de base, isto é, uma mentalidade que vê não simplesmente a estrutura de uma “administração” feita de pequenas comunidades, ainda que isso não seja ruim, mas sim a compreensão de que a tarefa eclesial é vocação de todos, e não só de alguns, tenham ou não vestes diferentes; que a igreja é toda ministerial, e não que alguns tenham a concentração de todos os ministérios; a compreensão de verdadeiro protagonismo eclesial de leigos e leigas, não apenas porque se quer participação, mas em virtude da razão sacramental do batismo; o pensamento que a igreja é servidora do mundo, e por isso a atuação social e política é inerente ao ser cristão, uma vez que o mundo é que precisa ser salvo. Enfim, a Brasilândia continuou teimosamente a querer ter mentalidade de Comunidade Eclesial de Base.

Importante lembrar que a Brasilândia não se faz igreja dos pobres simplesmente por situação geográfica. Também aqui a questão é de mentalidade. A evangélica opção pelos pobres, reafirmada pela Conferência de Aparecida e pelas Diretrizes Gerais da CNBB, não é opcional, nem relativa, nem geográfica. É inerente à fé cristã, como até o papa reconhece. A Brasilândia é igreja dos pobres não porque está na periferia, mas porque reconhece a presença de seu Deus no meio desse povo. Por isso não é simplesmente assistencialista, e nunca se afastou da prática política. Uma igreja dos pobres não é a que simplesmente os reúne e lhes dá coisas que se tem, seja comida ou catequese; igreja dos pobres é a que se põe a seu serviço, que assume sua defesa proclamando “o evangelho da dignidade humana”, segundo as palavras de Aparecida. É uma igreja que não separa material do espiritual, nem temporal ou social do religioso; é uma igreja que sabe que existem estruturas de pecado, mesmo se não se fala mais delas (aliás, a perda da consciência de pecado não se dá, sobretudo, no nível estrutural); é uma igreja que não se contenta em rezar para que o sofrimento do irmão diminua, mas que se compromete solidariamente com os que sofrem. E aqui, muitas vezes, a Brasilândia foi “a voz do que grita no deserto”; outras vezes teve de ouvir o grito do pobre “clamando à porta”, porque até corria o risco de esquecer sua identidade e sua função.

Aliás, cabe bem numa celebração um ato penitencial. E a igreja da Brasilândia também tem de pedir perdão e se penitenciar. E como! Mas não de sua teimosia, que é virtude como vimos, ou de sua criticidade, igualmente valorosa, como veremos. Tem de se penitenciar porque nem tudo são flores em sua caminhada, ao contrário, ela carrega muito entulho. Entulho que vem de mentalidades autoritárias e de gestos arbitrários que, de baixo até em cima, corroem o espírito de comunhão; entulho que vem de sentimentos de devocionismos que cultivam a religiosidade, mas não o ser de igreja; práticas administrativas que confundem o particular com o de todos, e socializam dívidas sem contemplar as necessidades dos pobres, repetindo o que acontece no mundo da política, tantas vezes corrompido; pensamentos e práticas que criam rivalidades e oposições entre aqueles que deviam testemunhar a comunhão, ou seja, entre líderes de comunidades, padres, movimentos eclesiais; mentalidades que confundem o serviço aos outros com o serviço a si próprio, buscando privilégios, carreira, bem-estar. Enfim, é preciso lembrar que nem sempre a Brasilândia foi Brasilândia, e cedeu a tentações e facilidades, falsificou seu ser e sua identidade.

Mas isso foi às vezes. Outras vezes ela demonstrou seu espírito de vanguarda, como por exemplo na questão da formação de leigos e leigas (permitam que eu me expresse dessa maneira, ao invés de dizer laicato, termo que não considero adequado). O Itebra desempenhou certo pioneirismo, que hoje é seguido por praticamente todas as regiões episcopais. Suas semanas de estudo e formação, que não precisam ser simplesmente litúrgicas, também são exemplos seguidos em muitos lugares. Até o recente Documento de Aparecida lembra a importância da formação de leigos e leigas, e lembra que não se trata simplesmente de formação catequética, mas completa. Essa ênfase na formação de agentes de pastoral, em todos os níveis e ambientes, construiu uma igreja participativa, porque capacitada para pensar que participar é importante, e comunhão é o outro nome de Deus. Se nem sempre ela conseguiu acompanhar convenientemente os leigos e leigas que formou ocasionando situações em que estes se viram abandonados e terminaram por abandonar as estruturas eclesiais, isto é um de seus pecados; mas o investimento na formação continua sendo exigido pelo povo e precisa continuar sendo uma prioridade na igreja.

Ao lado de leigos e leigas com consciência de participação, a Brasilândia tem um clero especial. Formados ou não na Arquidiocese, nossos padres têm um comportamento eclesial diferenciado; não formamos um clero, formamos um presbitério. A questão não é meramente semântica, mas eclesiológica. Somos corresponsáveis pela Região, nutrindo um espírito de comunhão e de “cuidado para com todas as igrejas”. É verdade que nem sempre enfrentamos convenientemente nossas diferenças, e muitas vezes estabelecemos concorrência e luta pelo poder; é verdade que nossos pecados, pessoais e coletivos, nos pesam nos ombros, inclusive aqueles de não nos comprometermos suficientemente uns com os outros, sem a necessária caridade presbiteral. Tanto que a pastoral presbiteral ainda não é realidade entre nós e a comissão de presbíteros sua bastante, sem conseguir responder aos desafios de estabelecer uma verdadeira comunhão entre padres tão diferentes. Mas é verdade também que a maioria de nós enfrenta, de peito aberto, o desafio de testemunhar a fé e a solidariedade nas periferias de nossa Região. As comunidades da Brasilândia ostentam a luminosidade da santidade de tantos padres que, se não recitam nos horários previstos a liturgia das horas, não medem esforços para congregar o Povo de Deus e fortalecê-los na solidariedade, desempenhando sua função de pastores no modelo de Jesus de Nazaré.

Por isso temos rosto. A Brasilândia tem características próprias, que assustam muitas vezes quem não se dispõe à comunhão vivida, preferindo discursos genéricos distanciados do dia-a-dia da vida do povo de Deus. Sim, a Brasilândia é crítica, exigente. Aqui, quem “põe a mão no arado e olha para trás” é duramente criticado, porque o discurso, inclusive o religioso, tem de ser acompanhado pelo testemunho. Não se trata da imposição de pontos de vista de uns sobre outros, mas da clareza evangélica de dizer sim quando é sim, e não quando é não. Temos consciência que somos não donos da verdade, mas sujeitos de participação que têm o direito de expor seu ponto de vista, de cobrar coerência e de responsabilizar-se verdadeiramente pelo pastoreio do Povo de Deus que nos foi confiado. E se certa eclesiologia universalista está presente no nosso meio, sabemos todos que o compromisso eclesial é para ser vivido primariamente em nossa igreja local. E o fazemos, e desejamos que todos o façam.

Por isso a Brasilândia enfrenta os desafios da cidade grande e de suas periferias. Tantas são as pastorais e atividades que fecundam a vida de nossas comunidades, as tornam comprometidas com a evangelização no sentido da afirmação do “evangelho da dignidade humana”. Enfrentamos o conjunto de pastorais lutando por uma pastoral de conjunto, e reunimos nossas igrejas numa rede de comunidades, porque é na comunhão que acreditamos, e não nos individualismos mais ou menos heróicos. Assim compreendemos nossa missão de ser seguidores de Jesus, não buscando confortos, privilégios ou publicidade, mas a criação de relacionamentos renovados que brotam da Páscoa do Senhor.

Somos igreja não porque temos templos, a maioria precisando de reformas, ou fazemos reuniões, e tantas! Mas porque nos reunimos pela fé apostólica no mesmo Deus que quer a vida dos pobres; porque nos colocamos na escuta de sua Palavra, na Escritura e na vida; porque celebramos a eucaristia, os sacramentos, as devoções, liturgias e outras rezas com espírito de comunhão filial e fraterna; porque construímos solidariedade guiados e ajudados pelo testemunho apostólico dos pastores que nos são dados. Somos assembléia eclesial não porque nos foi dado um ordenamento jurídico, mas porque permanecemos fiéis “ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações”. Numerosos prodígios e sinais se realizam por meio dos apóstolos, e tentamos colocar entre nós tudo em comum, dividindo os bens segundo as necessidades de cada um. Dia após dia somos assíduos nos templos e partimos “o pão pelas casas, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração” (At 2, 42ss).

Sabemos que é o Espírito que produz isso em nós. Mas sabemos também que não somos perfeitos. Temos muito ainda que caminhar, e por isso somos igreja da Esperança. Por várias razões: por estarmos no continente da esperança; por sermos Terra do Brasil, e este ser o país da esperança; porque sabemos que o que somos não é o que queremos ser, nem o que somos chamados a ser; porque queremos outro mundo que aquele que temos agora; porque a esperança é a força dos pobres e para ela nos conduz nossa fé. Também porque foi a esperança que aprendemos com nossos pastores: sim, queremos “paz e esperança” e aprendemos com o profeta da metrópole que é preciso caminhar “de esperança em esperança”, que é preciso ter “esperança sempre”! Nós não vivemos de ilusão, mas da esperança de ver “o dia da paz renascer e o sol da esperança brilhar” sobre todos os pobres e excluídos, na esperança de ver o Reino de Deus estabelecendo a justiça e a solidariedade entre todos os membros da criação de Deus.

O que é a Região Brasilândia? Qual seu rosto? Quais suas características?

A Brasilândia é uma igreja da periferia que vive do provisório e com teimosia se afirma no espírito das Cebs como igreja dos pobres, apesar de seus pecados; investe na formação e na participação de todo o Povo de Deus para viver o Espírito de Comunhão, como igreja toda ministerial, participativa, crítica e coerente; onde brilham não poucos testemunhos de santidade, e na fidelidade do seguimento de Jesus proclama a Esperança do Reino de Deus.

Em Perus, Brasilândia, no dia da celebração dos 20 anos, 20/06/2009.
Antonio Manzatto

NO BRASIL, QUEM SE LEMBRA?

O texto abaixo foi publicado em 27/08/09




D. Hélder da Câmara morreu há 10 anos 
Bispo brasileiro fica na história pelo seu pioneirismo dentro e fora da Igreja

Numa das suas passagens por Portugal, D. Hélder da Câmara afirmou que “ninguém nasce para ser escravo ou mendigo”. No entanto, ao observar a realidade que o circundava, o antigo bispo de Olinda e Recife (Brasil) via que eles existiam e estavam bem perto do pastor. A cidade de Fortaleza (Brasil) viu nascer, a 7 de Fevereiro de 1909, D. Hélder da Câmara. Filho de uma família pobre e numerosa (dos treze irmãos apenas oito conseguiram sobreviver), os pais deram-lhe o nome de um pequeno porto holandês: Hélder.

Aos 14 anos ingressa no Seminário diocesano da cidade natal (Prainha de São José), sendo metade das despesas pagas pela Obra das Vocações Sacerdotais. Recebeu a ordenação sacerdotal em 1931 e, cinco anos depois, foi enviado para o Rio de Janeiro, onde se tornou animador da Ação Católica Brasileira e, posteriormente, seu assistente nacional. Nos ouvidos ressoam-lhe palavras antigas do pai: “Meu filho, você sabe o que é ser padre? Padre e egoísmo nunca podem andar juntos.”

Apesar de ter ficado conhecido como ícone da paz e irmão dos pobres, nos primeiros tempos de padre esteve ligado ao movimento «Ação Integrista Brasileiro», próximo das teses de Mussolini e do corporativismo português. Aos olhos de alguns era uma «persona non grata». Mais tarde, D. Hélder da Câmara explica esse episódio: “Participei num movimento de que estava convencido. O grande combate era entre o Este e o Oeste, os Estados Unidos e a União Soviética”. E acrescenta: “Mas depressa me apercebi que mais grave do que essa luta era a que se travava entre o Norte e o Sul”.

A Segunda Guerra Mundial e o agravamento da situação social no Brasil reconduziram D. Hélder da Câmara ao lugar de líder da contestação social e religiosa no Brasil. Em 1952 é nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro pelo papa Pio XII.

Poucos anos antes da sua nomeação trabalhou na Nunciatura Apostólica do Rio e, através de contactos diretos com Monsenhor Montini (futuro Papa Paulo VI), conseguiu que a Secretaria de Estado do Vaticano aprovasse a constituição da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB). Esta foi a precursora das Conferências Episcopais criadas, mais tarde, pelo II Concílio do Vaticano. Depois da aprovação da CNBB, D. Hélder propõe ao Vaticano a fundação do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM). A autorização chegou em 1955, acumulando D. Hélder Câmara o cargo de Secretário-Geral da CNBB e Vice-presidente da CELAM.

Paralelamente à dinamização destes dois organismos, o prelado brasileiro empenhou-se também no campo social. Em 1956 funda a Cruzada S. Sebastião (destinada à solução dos problemas habitacionais nas favelas) e, três anos mais tarde (1959) criou o Banco da Providência (entidade de assistência social para os casos de miséria absoluta).

Em 1964 foi nomeado arcebispo de S. Luis do Maranhão e meses depois é enviado para Olinda e Recife, onde permanecerá, como bispo residencial, durante vinte anos. “Aqui eu sonhei com uma obra em que pudesse trabalhar não para o povo, mas com o povo” – sublinhou na altura. Preocupa-se com o problema do desenvolvimento e da pobreza em todo o nordeste brasileiro.

A sua voz profética ecoava, apesar das perseguições que lhe moveram. Em 1968, o pastor daquele território eclesial publica o livro «Revolução dentro da Paz». Dois anos depois, uma campanha difamatória impede-o de receber o Prêmio Nobel da Paz. Foi acusado de demagogo, exibicionista e “emissário camuflado de Fidel Castro e Mao”.

Nunca recebeu galardão da Paz, no entanto o município de Oslo (Noruega) concedeu-lhe (em 1974) um prêmio de valor equivalente. O seu prestígio internacional era intocável e recebeu o doutoramento «Honoris Causa» de várias universidades. O Japão atribuiu-lhe (1983) o prêmio Niwano para a Paz, enquanto a Itália o distinguiu com o Prêmio Balzan.

Trabalhar com os pobres era a sua paixão. No entanto, da sua pena saíram várias obras literárias: «O deserto é fértil» (1971); «Cristianismo, Socialismo, Capitalismo» (1973); «Nossa senhora no meu caminho» (1981) e «Utopias peregrinas» (1993). Dois poemas seus inspiraram uma oratória e um ballet: «Sinfonia dos dois mundos» (musicada pelo Pe. Pierre Kaelin) e «Missa para um tempo futuro» (com coreografia de Maurice Béjart).

A 7 de Julho de 1980, durante a viagem de João Paulo II ao Brasil, o papa polaco reabilita publicamente a sua imagem ao abraçá-lo efusivamente e dando-lhe o maior título de sempre: «Irmão dos pobres e meu irmão». Um gesto ovacionado por uma multidão perplexa.

No mês de Abril de 1984, o «bispo vermelho e dos pobres» despede-se da sua diocese, depois de Roma ter aceite a sua resignação por limite de idade. “Pouco importa que um bispo se jubile; a Igreja continua” – disse D. Hélder Câmara na Eucaristia celebrada no Estádio do Recife perante 30 mil pessoas.

A 27 de Agosto de 1999, o homem que tinha como lema «In Manus Tuas» (Nas Tuas Mãos) despediu-se da vida terrena. Quando soube da sua morte, D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal disse: “um gigante da história da Igreja que impressionava pela sua fragilidade humana, mas albergava uma coragem do tamanho do mundo”.

Fonte: Newsletter Agência Ecclesia – 27/08/09

terça-feira, 6 de março de 2012

Viver no Vaticano



O consultor de uma congregação organizou os cincos «não» para se sobreviver na “Cúria”:

Não penses.
Se pensas, não fales.
Se pensas e falas, não escrevas.
Se pensas e falas e escreves, não assines com o teu nome.
Se pensas e falas e escreves e assinas como teu nome, não fiques surpreendido.

Thomas J. Reese, "No Interior do Vaticano", Publicações Europa-América, p. 197 (Thomas J. Reese é padre jesuíta).