terça-feira, 8 de julho de 2014

“Manifestação pacífica é a marcha para Jesus; manifestação é cobrança e sempre há tensão”. Entrevista especial com Júlio Lancellotti


“Temos visto, desde as manifestações que tiveram início no dia da abertura da Copa, e em manifestações anteriores, uma presença excessiva, ostensiva, agressiva e altamente sofisticada da polícia”, diz o coordenador da Pastoral do Povo de Rua.

As manifestações que ocorreram em São Paulo nas últimas semanas, reunindo diversos coletivos, têm como ponto em comum “a contestação dos gastos excessivos da Copa e a ausência de direitos nas áreas de saúde, moradia e das várias questões que são fundamentais para assegurar a dignidade humana”, mas a popularidade dos protestos está associada à ação da polícia e às prisões que, segundo padre Júlio Lancellotti, são equivocadas.

De acordo com ele, “os grupos da polícia chamados de RoboCop têm equipamentos muitos sofisticados, alguns de origem israelense, que fotografam, filmam e digitalizam a imagem de todas as pessoas que estão nas manifestações. Esse equipamento israelense que estão usando é como uma coluna que carregam numa mochila, nas costas, o qual fotografa, em 360 graus, centenas de imagens por minuto”.

Coordenador da Pastoral do Povo de Rua, padre Júlio Lancellotti está participando das manifestações em São Paulo e recebeu ameaças por ter criticado a ação da polícia durante os protestos. Em entrevista à IHU On-Line, por telefone, ele esclarece que “há muita provocação” durante as manifestações, “mas elas têm de ser lidas num contexto”. Segundo ele, a provocação dos manifestantes à polícia “não é pessoal, é institucional”, mas os policiais “dizem coisas muito pesadas para os manifestantes, que chegam a ser caracterizadas como assédio moral para as mulheres, e ameaças como ‘hoje vocês vão rodar’, ‘vocês vão sentir o peso’, ‘a chapa vai esquentar’, etc. Em contrapartida, menciona, os manifestantes “cantam refrãos como, por exemplo, ‘acabou, vai acabar, eu quero o fim da polícia militar’, depois eles cantam algo dizendo que o trabalho da polícia é de repressão, e depois cantam ‘não estudou, vai estudar, porque se não vai acabar sendo polícia militar’. São essas coisas que fazem parte de uma manifestação”. E dispara: “O pessoal não vai para a manifestação louvando à Maria”.

Na entrevista a seguir, Lancellotti relata como ocorreu o processo de prisão de Fábio Hideki Harano e de Rafael Marques Lusvarghi e as agressões sofridas pelo advogado Daniel Biral. Na avaliação dele, após a Copa a repressão às manifestações deve continuar e “em SP vai favorecer o governo, porque grande parte da população gosta e acha bom, pois há muita manipulação, e quem está na manifestação é visto como baderneiro”, pontua.

Júlio Renato Lancellotti é formado em Pedagogia e Teologia, foi professor primário, professor universitário, membro da Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo e há mais de dez anos é o vigário episcopal do povo de rua. É pároco da Igreja São Miguel Arcanjo, na Moóca, zona leste de São Paulo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual tem sido o teor dos protestos em São Paulo, durante a Copa, e quais grupos participam das manifestações?

Júlio Lancellotti – Vários grupos e coletivos participam das manifestações, entre eles, o grupo Copa para quem?, o grupo Não vai ter Copa, o grupo Se Não Tiver Direitos, Não Vai Ter Copa, o grupo Popular da Copa, os quais apresentam várias reivindicações e questões. O ponto em comum entre todos eles é a contestação dos gastos excessivos da Copa e a ausência de direitos nas áreas de saúde, moradia e das várias questões que são fundamentais para assegurar a dignidade humana, as quais contrastam com os gastos exorbitantes e da corrupção dos ingressos.

Temos visto, desde as manifestações que tiveram início no dia da abertura da Copa, e em manifestações anteriores, uma presença excessiva, ostensiva, agressiva e altamente sofisticada da polícia. Os grupos da polícia chamados de RoboCop têm equipamentos muito sofisticados, alguns de origem israelense, que fotografam, filmam e digitalizam a imagem de todas as pessoas que estão nas manifestações. Esse equipamento israelense que estão usando é como uma coluna que carregam numa mochila, nas costas, o qual fotografa, em 360 graus, centenas de imagens por minuto. É um equipamento sofisticado, e às vezes parece que os policiais até têm medo de que aconteça algo com o equipamento. Segundo soube, a imagem das pessoas é digitalizada e enviada para a polícia, que identifica quem são as pessoas e fazem a caçada a elas, como foi a caçada do Fábio Hideki Harano e do Rafael Marques Lusvarghi, que foram presos.

Temos percebido que ocorrem muitas revistas no metrô, intimidação. Nas últimas vezes temos ficado cercados de todos os lados, pela cavalaria, pela Tropa de Choque.

Percebemos, então, como ocorreu na primeira manifestação no dia da abertura da Copa, nas estações Carrão e Tatuapé, uma caçada, um cerco aos manifestantes. Oficialmente a polícia diz que está nas ruas para garantir o direito de manifestação e usam a expressão absurda de que as manifestações devem ser “pacíficas”.

IHU On-Line – Como ocorreu a prisão deles?

Júlio Lancellotti – Eles estavam participando de uma manifestação na Av. Paulista. Naquele dia havia o triplo de policiais na rua e uma forte presença da polícia civil, porque essa manifestação foi antecedida daquela do Movimento Passe Livre - MPL, segundo a qual a polícia diz ter recebido um ofício em que o MPL afirmava não precisar da presença policial nas manifestações, e a polícia, então, diz que ficou afastada. Mas isso tudo é uma tática, porque a polícia não vai obedecer a uma ordem de civis. Mas eles ficaram longe da manifestação, e aconteceram depredações.

Antes de relatar como ocorreu a prisão do Fábio e do Rafael, gostaria de destacar alguns pontos. Entre eles, a grande presença de P2, que são policiais infiltrados nas manifestações, inclusive com máscaras, como se fossem manifestantes. Nós percebemos rapidamente quem eles são pelo calçado, pelo corte de cabelo e pelas atitudes. Naquele dia em que a polícia estava afastada, em que a manifestação desceu pela Av. Rebouças, foi pela Marginal Pinheiros, onde aconteceram depredações; é muito complicado dizer quem são os autores das depredações e como elas começaram, porque até agora prenderam uma pessoa sem máscara, um homem que jogou um extintor de incêndio numa vitrine.

"Há uma massificação midiática, uma demonização dos movimentos com base em uma racionalidade da perversidade"

Prisões

Depois disso houve uma manifestação na Av. Paulista, que iniciou na Praça do Ciclista, e foi da Av. Paulista até chegar ao Paraíso e, de lá, voltou até o Masp, onde depois houve a dispersão dos manifestantes. Havia uma grande presença de policiais militares: parecia mais uma manifestação da PM que nós estávamos acompanhando. Também tinha uma grande presença de policiais civis, com carros descaracterizados. Durante a dispersão, eu já estava cansado, e quando entramos na estação do metrô, a escada rolante parou de funcionar, porque a haviam paralisado, e imediatamente vimos dois seguranças do metrô e dois policiais civis agarrando o Fábio. Descemos a escada rolante e eles estavam na escada fixa, de modo que ficamos par a par com eles, separados pelo corrimão. Um policial que estava do lado da escada rolante pulou e passou para o outro lado. Todas as pessoas que foram parando começaram a fazer pressão para soltá-lo. O Fábio ainda estava com o capacete da bicicleta que ele usa. Eu vi os policiais fazerem a revista nele, virarem a mochila dele, retiraram de lá um salgadinho sabor pimenta, uma garrafinha de vinagre e coisas pessoais dele. Não tinha nada mais.

Durante o tempo todo da revista e da pressão em cima do Fábio, os policiais falavam ao telefone, dando e recebendo instruções e, em seguida, a Tropa de Choque entrou na estação a galope, e a nossa reação foi correr. Alguns pularam as catracas. Os policiais pegaram um dos rapazes que estava pulando a catraca e nós voltamos para que a polícia o soltasse. Ele foi solto e conduzido a comprar o bilhete do metrô, como uma dessas humilhações que os policiais fazem.

Nessa confusão, não sei como, o capacete do Fábio veio parar na minha mão. Aí nós voltamos, subimos e os policiais já tinham levado o Fábio até a entrada da estação do metrô. A tropa de choque pôs todos os escudos, não deixando ninguém se aproximar, mas como nós estávamos dentro da estação, eu cheguei bem perto dele e os policiais queriam pegar o capacete, mas eu disse que o capacete era dele e eu só entregaria na mão dele. Nosso receio é que pusessem algo no capacete. Nessa hora já havia dez policiais do Departamento Estadual de Investigações Criminais - Deic na volta dele, muitos falando ao celular. Nesse momento chegou o carro da polícia e Fábio foi arremessado para dentro do carro e levado.

A prisão do Rafael eu não vi, mas o vi na manifestação. Ele estava com uma saia escocesa e tinha até bebido vodca, porque ele tem muita ligação com a cultura russa e polonesa, e ele não tinha nada nas mãos nem naquela roupa. Eles o pegaram perto da estação do metrô e o jogaram no chão. As duas prisões foram feitas no momento da dispersão. A impressão que dá é de que como a manifestação estava acabando e eles não tinham pegado ninguém, precisavam de alguém. Temos de ler as manifestações no encadeamento de uma com a outra. Depois teve uma discussão na Praça Roosevelt, onde dois advogados foram presos e um deles ficou ferido.

IHU On-Line – Há algum motivo específico para a prisão de Fábio e Rafael? A que o senhor atribui essas duas prisões?

Júlio Lancellotti – Acredito que sim. O Rafael, porque é ex-policial e esteve na polícia militar de São Paulo. A forma como ele age não é agressiva, não ofende os policiais, mas a presença dele traz um incômodo muito grande. O Fábio é do Sindicato dos Trabalhadores da USP - Sintusp, que comanda a greve da USP, e tem sido fartamente fotografado com os demais manifestantes. Nesse levantamento que é feito pela polícia, devem ter identificado o Fábio como um sindicalista, mas ele é um pacifista. Eu sou testemunha de defesa dele, porque o habeas corpus, inclusive, foi negado.

IHU On-Line – Como e em que momento se dá o confronto entre a polícia e os manifestantes? Quais são as provocações que geram as agressões? Há confronto também durante as manifestações ou somente nos momentos de dispersão, como o senhor relatou?

Júlio Lancellotti – Há muita provocação, mas elas têm de ser lidas num contexto, e eu já disse isso para alguns oficiais da PM. A provocação a eles não é pessoal, é institucional, mas eles dizem coisas muito pesadas para os manifestantes, que chegam a ser caracterizadas como assédio moral para as mulheres, e ameaças como “hoje vocês vão rodar”, “vocês vão sentir o peso”, “a chapa vai esquentar”, etc. Eles falam coisas provocativas que acabam tendo reações. Agora, os dois advogados presos na Praça Roosevelt foram presos porque estavam exigindo a identificação dos policiais e por isso Dr. Daniel Biral foi pego pelo colarinho, sacudido e jogado na parede e no chão. A prisão do Fábio e do Rafael foi cinematográfica e feita com base em acusações delirantes, dizendo que eles eram líderes do black bloc, e que o Fábio é mentor intelectual do black bloc. Quem tem o mínimo de seriedade e conhece essas coisas, sabe que isso não existe.

IHU On-Line – E como os manifestantes provocaram os policiais?

Júlio Lancellotti – Eles cantam refrões como, por exemplo, “acabou, vai acabar, eu quero o fim da polícia militar”, depois eles cantam algo dizendo que o trabalho da polícia é de repressão, e depois cantam “não estudou, vai estudar, porque se não vai acabar sendo polícia militar”. São essas coisas que fazem parte de uma manifestação. O pessoal não vai para a manifestação louvando à Maria.

IHU On-Line – E os black blocs participaram das manifestações?

Júlio Lancellotti – Nós precisamos desmistificar e não demonizar quando se forma um black bloc nas manifestações. Um black bloc não é uma pessoa. É muito interessante o estudo de Francis Dupuis-Déri, que foi lançado no Brasil, sobre a formação dos black blocs. Ele explica que eles se formam no anonimato, no momento. É interessante a análise que ele faz: numa sociedade ao culto à personalidade, da identidade, do consumo, eles buscam o anonimato e no momento do glamour estão todos de negro. A formação de um black bloc se dá, às vezes, de maneira inesperada; é um grupo que tem a sua maneira de ser. É um estudo muito interessante, que não parte em defesa das táticas, mas explica que o movimento não tem liderança e, assim sendo, não se pode acusar o Fábio, por exemplo, de formação de milícia.

Os black blocs são um fenômeno que está presente em vários locais: na Grécia, no Canadá, nos EUA, na Itália, na França, na Alemanha. É uma tática, um bloco, que age em diferentes situações e momentos.

"A Copa não é esporte; é uma competição nacionalista"

IHU On-Line - Durante doze anos do governo PT, apontam-se críticas positivas em relação à distribuição de renda, ao acesso a crédito, ao ingresso de uma massa no mercado de consumo, acesso ao ensino universitário, etc. Como explica as manifestações diante desse contexto? Trata-se de algo específico em relação à Copa do Mundo ou não?

Júlio Lancellotti – Além da questão da Copa, estão presentes nas manifestações reações à questão da corrupção, aos desvios de verbas, à própria estrutura de um governo que se chama de progressista, ao descrédito da democracia representativa, à reforma política, que não acompanhou as mudanças, e a que se propõe está longe dos anseios da população. Há ainda, por parte dos governantes, uma incapacidade de entender e dialogar com novos sujeitos e personagens históricos. Hoje, a estrutura de sindicatos é questionada e os governantes querem conversar com as lideranças, porque estão dentro de uma estrutura que tem líderes, tem uma organização hierárquica; eles não estão conseguindo entender grupos libertários e horizontais. A estrutura do poder dificulta isso e há uma cristalização de uma visão, que não consegue perceber outras formas de visão. Convivendo com as pessoas que participam desses movimentos, vejo seres humanos que não são demônios. Dizer que eles não são politizados é um engano. E ao dizer que eles estão só manifestando raiva, parece que toda raiva é somente ruim.

IHU On-Line - Antes do mundial havia muitas manifestações contrárias à Copa, mas depois do início dos jogos, a pressão popular diminuiu bastante. Como explica isso?

Júlio Lancellotti – Tem a espetacularização midiática, apesar de agora começar a aparecer toda a corrupção interna da Copa com a venda de ingressos. Acredito que há uma massificação midiática, uma demonização dos movimentos com base em uma racionalidade da perversidade: estão inconformados, não estão satisfeitos com nada. Isso mexe com aquilo que vemos: a Copa não é esporte; é uma competição nacionalista. Tudo isso tem colocado em xeque os vários grupos que se manifestam.

IHU On-Line - O senhor tem recebido muitas ameaças após as manifestações?

Júlio Lancellotti – Existem as ameaças implícitas e as explícitas. Somos fotografados e filmados, e em algumas manifestações alguns policiais me ameaçam explicitamente e agem de forma bastante agressiva. Uma das situações que chamou atenção — foi feita uma representação no Ministério Público — foi na ocasião da manifestação na Consolação, quando detonou uma bomba perto de onde eu estava, e eu estava longe do início das manifestações.

Supõe-se que foi um policial que me feriu. Mas depois eu recebi um comentário que foi veiculado pela mídia, um recado do coronel Celso no meu celular, que dizia: “Em face do seu total desconhecimento das ações da polícia, iremos chamá-lo para os próximos planejamentos, e aí quem sabe o senhor pode nos ajudar, não é?”. Percebemos que há uma certa intimidação e se trata de uma coisa absurda. Como ele pode me chamar para participar de um planejamento de uma ação da polícia?

Eu tenho o telefone do coronel gravado, porque tivemos um problema com a morte de um morador de rua na área central, porque o corpo ficou sem custódia da PM. Na ocasião eu telefonei para a assessoria da segurança pública querendo saber o que estava acontecendo, e o coronel me telefonou novamente. Aí, na ocasião, eu disse que gravaria o número dele, porque qualquer nova situação eu tornaria a ligar. Até no dia em que aconteceu o problema na Praça Roosevelt, eu telefonei muitas vezes para o número dele, mas ele não atendeu.

IHU On-Line – Quais serão os possíveis reflexos dessas manifestações nas eleições estaduais de SP e nacionais?

Júlio Lancellotti – Vai continuar uma campanha muito forte contra as manifestações. Os políticos e candidatos vão se utilizar disso nas campanhas. A repressão que está havendo em SP vai favorecer o governo, porque grande parte da população gosta e acha bom, pois há muita manipulação, e quem está na manifestação é visto como baderneiro. Manifestação pacífica é a marcha para Jesus; manifestação é cobrança e sempre há tensão. Por outro lado, o descrédito político é muito grande, e parte das pessoas votará porque o voto é obrigatório. Mas há uma perda de legitimidade na política.


fonte: IHU

segunda-feira, 30 de junho de 2014

“O comunismo nos roubou a bandeira. A bandeira dos pobres é cristã”.


Entrevista com o Papa Francisco

O encontro é em Santa Marta, à tarde. Uma rápida verificação, e um guarda suíço me faz sentar em uma pequena sala de estar.

A reportagem é de Franca Giansoldati, publicada no jornal Il Messaggero, 29-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Seis poltroninhas verdes de veludo um pouco desgastado, uma mesinha de madeira, um televisor daqueles antigos, com a "barriga". Tudo em perfeita ordem, o mármore polido lucidamente, alguns quadros. Poderia ser uma sala de espera paroquial, uma daquelas a que se vai para pedir um conselho ou para fazer os documentos de casamento.

Francisco entra sorrindo: "Finalmente! Eu a leio e agora a conheço". Eu coro. "Eu, ao contrário, o conheço e agora o escuto". Ele ri. Ri com gosto, o papa, como fará outras vezes no decorrer de mais de uma hora de conversa livre.

Roma, com os seus males de megalópole, a época de mudanças que enfraquecem a política; o esforço para defender o bem comum; a reapropriação por parte da Igreja dos temas da pobreza e da partilha ("Marx não inventou nada"); a desolação diante da degradação das periferias da alma, escorregadio abismo moral em que se abusa da infância, tolera-se a mendicância, o trabalho infantil e, não por último, a exploração de meninas prostitutas com menos de 15 anos. E os clientes que poderiam ser seus avós; "pedófilos": o papa os define justamente assim.

Francisco fala, explica, se interrompe, retorna. Paixão, doçura, ironia. Um fio de voz, parecem ninar as palavras. As mãos acompanham o raciocínio, entrelaça-as, solta-as, parecem desenhar geometrias invisíveis no ar. Está em ótima forma, apesar dos rumores sobre a sua saúde.

Eis a entrevista.

É a hora do jogo entre a Itália e o Uruguai. Santo Padre, por quem o senhor torce?

Ah, eu, por ninguém, de verdade. Prometi à presidente do Brasil (Dilma Rousseff) que me manteria neutro.

Comecemos por Roma?

Mas você sabe que eu não conheço Roma? Pense que eu vi a Capela Sistina pela primeira vez quando participei do conclave que elegeu Bento XVI (2005). Nunca estive nem mesmo nos museus. O fato é que, como cardeal, eu não vinha muitas vezes. Eu conheço Santa Maria Maior, porque sempre ia lá. E depois São Lourenço Fora dos Muros, onde eu fui para crismas, quando estava o padre Giacomo Tantardini. Obviamente, conheço a Praça Navona, porque sempre me hospedei na Via della Scrofa, lá atrás.

Há algo de romano no argentino Bergoglio?

Pouco ou nada. Eu sou mais piemontês, são essas as raízes da minha família de origem. No entanto, estou começando a me sentir romano. Pretendo ir visitar o território, as paróquias. Estou descobrindo pouco a pouco esta cidade. É uma metrópole belíssima, única, com os problemas das grandes metrópoles. Uma cidade pequena possui uma estrutura quase unívoca; uma metrópole, ao contrário, inclui sete ou oito cidades imaginárias, sobrepostas, em vários níveis. Também níveis culturais. Penso, por exemplo, nas tribos urbanas dos jovens. É assim em todas as metrópoles. Em novembro, faremos em Barcelona um congresso dedicado justamente à pastoral das metrópoles. Na Argentina, foram promovidos intercâmbios com o México. Descobrem-se tantas culturas cruzadas, mas não tanto por causa das migrações, mas porque se trata de territórios culturais transversais, feitos de pertencimentos próprios. Cidades nas cidades. A Igreja deve saber responder também a esse fenômeno.

Por que, desde o início, o senhor quis enfatizar tanto a função de bispo de Roma?

O primeiro serviço de Francisco é este: ser o bispo de Roma. Ele só tem todos os títulos do papa, Pastor universal, Vigário de Cristo etc., porque é bispo de Roma. É a escolha primeira. A consequência do primado de Pedro. Se, amanhã, o papa quisesse ser bispo de Tivoli, é claro que me expulsariam.

Há 40 anos, com Paulo VI, o Vicariato promoveu o congresso sobre os males da Roma. Emergiu o quadro de uma cidade em que aqueles que tinham muito levavam a melhor, e aqueles que tinha, pouco, a pior. Hoje, na sua opinião, quais são os males desta cidade?

São os das metrópoles, como Buenos Aires. Quem aumenta os benefícios, e quem é cada vez mais pobre. Eu não estava ciente do congresso sobre os males da Roma. São questões muito romanas, e eu, na época, tinha 38 anos. Sou o primeiro papa que não participou do Concílio e o primeiro que estudou teologia na pós-Concílio,, e nesse tempo, para nós, a grande luz era Paulo VI. Para mim, a Evangelii nuntiandi continua sendo um documento pastoral nunca superado.

Existe uma hierarquia de valores a ser respeitada na gestão da coisa pública?

Certamente. Proteger sempre o bem comum. A vocação para qualquer político é essa. Um conceito amplo que inclui, por exemplo, a proteção da vida humana, a sua dignidade. Paulo VI costumava dizer que a missão da política continua sendo uma das formas mais altas de caridade. Hoje, o problema da política – eu não falo só da Itália, mas de todos os países, o problema é mundial – é que ela se desvalorizou, arruinada pela corrupção, pelo fenômeno dos subornos. Lembro-me de um documento que os bispos franceses publicaram há 15 anos. Era uma carta pastoral que se intitulava "Reabilitar a política" e abordava justamente esse assunto. Se não houver serviço na base, não se pode entender nem mesmo a identidade da política.

O senhor disse que a corrupção tem cheiro de podridão. Também disse que a corrupção social é o fruto do coração doente e não só de condições externas. Não haveria corrupção sem corações corruptos. O corrupto não tem amigos, mas idiotas úteis. Pode nos explicar isso melhor?

Eu falei dois dias seguidos desse assunto, porque eu comentava a leitura da Vinha de Nabot. Gosto de falar sobre as leituras do dia. No primeiro dia, abordei a fenomenologia da corrupção; no segundo dia, de como acabam os corruptos. O corrupto não tem amigos, mas apenas cúmplices.

De acordo com o senhor, fala-se muito da corrupção porque os meios de comunicação insistem demais no assunto ou porque efetivamente se trata de um mal endêmico e grave?

Não, infelizmente, é um fenômeno mundial. Há chefes de Estado na prisão justamente por causa disso. Eu me interroguei muito e cheguei à conclusão de que muitos males crescem principalmente durante as mudanças epocais. Estamos vivendo não tanto uma época de mudanças, mas uma mudança de época. E, portanto, se trata de uma mudança de cultura. Justamente nesta fase, emergem coisas desse tipo. A mudança de época alimenta a decadência moral, não só na política, mas também na vida financeira ou social.

Os cristãos também não parecem brilhar por testemunho...

É o ambiente que facilita a corrupção. Não digo que todos sejam corruptos, mas acho que é difícil permanecer honesto na política. Falo sobre todos os lugares, não da Itália. Eu também penso em outros casos. Às vezes há pessoas que gostariam de deixar as coisas claras, mas depois se encontram em dificuldades, e é como se fossem fagocitadas por um fenômeno endêmico, em vários níveis, transversal. Não porque seja a natureza da política, mas porque, em uma mudança de época, os estímulos em direção a um certo desvio moral se tornam mais fortes.

O senhor se assusta mais com a pobreza moral ou material de uma cidade?

Ambas me assustam. Por exemplo, eu posso ajudar um faminto para que não tenha mais fome, mas, se ele perdeu o trabalho e não encontra mais um emprego, isso tem a ver com a outra pobreza. Ele não tem mais dignidade. Talvez ele pode ir à Cáritas e levar para casa uma cesta básica, mas experimenta uma pobreza gravíssima que arruína o coração. Um bispo auxiliar de Roma me contou que muitas pessoas vão ao restaurante popular e, às escondidas, cheias de vergonha, levam comida para casa. A sua dignidade progressivamente se empobreceu, vivem em um estado de prostração.

Pelas ruas consulares de Roma, veem-se menininhas de apenas 14 anos muitas vezes forçadas à se prostituir na indiferença geral, enquanto, no metrô, assiste-se à mendicância das crianças. A Igreja ainda é fermento? O senhor se sente impotente como bispo diante dessa degradação moral?

Eu sinto dor. Sinto uma enorme dor. A exploração das crianças me faz sofrer. Na Argentina também é a mesma coisa. Para alguns trabalhos manuais, são usadas as crianças porque têm as mãos menores. Mas as crianças também são exploradas sexualmente em hotéis. Uma vez, avisaram-me que, em uma rua de Buenos Aires, havia menininhas prostitutas de 12 anos. Eu me informei, e efetivamente era assim. Isso me fez mal. Mas ainda mais por ver que eram carros de alta cilindrada dirigidos por idosos que paravam. Podiam ser seus os avós. Faziam com que a menina subisse e lhe pagavam 15 pesos, que depois serviam para comprar os restos da droga, o "pacote". Para mim, essas pessoas que fazem isso às meninas são pedófilos. Isso também acontece em Roma. A Cidade Eterna, que deveria ser um farol no mundo, é espelho da degradação moral da sociedade. Acho que são problemas que são resolvidos com uma boa política social.

O que a política pode fazer?

Responder de modo claro. Por exemplo, com serviços sociais que levam as famílias a entender, acompanhando-as para sair de situações pesadas. O fenômeno indica uma deficiência de serviço social na sociedade.

Mas a Igreja está trabalhando muito...

E deve continuar a fazê-lo. Ela precisa ajudar as famílias em dificuldades, um trabalho em saída que impõe o esforço comum.

Em Roma, cada vez mais jovens não vão à igreja, não batizam os filhos, não sabem nem mesmo fazer o sinal da cruz. Que estratégia é preciso para inverter essta tendência?

A Igreja deve sair pelas ruas, buscar as pessoas, ir às casas, visitar as famílias, ir às periferias. Não ser uma Igreja que só recebe, mas que oferece.

E os párocos não devem ficar penteando as ovelhas...

(Risos) Obviamente. Estamos em um momento de missão há cerca de uma década. Devemos insistir.

O senhor se preocupa com a cultura da desnatalidade na Itália?

Acho que se deve trabalhar mais pelo bem comum da infância. Formar uma família é um compromisso. Às vezes, o salário não é suficiente, não se chega ao fim do mês. Tem-se medo de perder o trabalho ou de não poder mais pagar o aluguel. A política social não ajuda. A Itália tem uma taxa baixíssima de natalidade. Na Espanha é o mesmo. A França vai um pouco melhor, mas ela também é baixa. É como se a Europa tivesse se cansado de ser mãe, preferindo ser avó. Muito depende da crise econômica e não só de um desvio cultural marcado pelo egoísmo e pelo hedonismo. Outro dia, eu lia uma estatística sobre os critérios para as despesas da população em nível mundial. Depois da alimentação, do vestuário e dos medicamentos, três itens necessários, seguem a cosmética e as despesas com animais de estimação.

Os animais importam mais do que as crianças?

Trata-se de outro fenômeno de degradação cultural. Isso porque a relação afetiva com os animais é mais fácil, mais programável. Um animal não é livre, enquanto ter um filho é uma coisa complexa.

O Evangelho fala mais aos pobres ou aos ricos para convertê-los?

A pobreza está no centro do Evangelho. Não se pode entender o Evangelho sem entender a pobreza real, levando em conta que também existe uma pobreza belíssima do espírito: ser pobre diante de Deus, porque Deus enche você. O Evangelho se volta indistintamente aos pobres e aos ricos. Ele fala tanto de pobreza quanto de riqueza. De fato, não condena os ricos; no máximo as riquezas, quando se tornam objetos idolatrados. O deus dinheiro, o bezerro de ouro.

O senhor passa a imagem de ser um papa comunista, pauperista, populista. A revista The Economist, que lhe dedicou uma capa, afirma que o senhor fala como Lênin. O senhor se reconhece em tudo isso?

Eu digo apenas que os comunistas nos roubaram a bandeira. A bandeira dos pobres é cristã. A pobreza está no centro do Evangelho. Os pobres estão no centro do Evangelho. Tomemos Mateus 25, o protocolo pelo do qual seremos julgados: tive fome, tive sede, estive na prisão, estava doente, nu. Ou olhemos para as Bem-aventuranças, outra bandeira. Os comunistas dizem que tudo isso é comunista. Sim, como não, 20 séculos depois... Então, quando eles falam, se poderia dizer a eles: mas vocês são cristãos! (risos)

Se o senhor me permite uma crítica...

Claro...

O senhor talvez fale pouco das mulheres e, quando fala, aborda o assunto apenas do ponto de vista da maternidade, da mulher esposa, da mulher mãe etc. Porém, as mulheres já lideram Estados, multinacionais, exércitos. Na Igreja, em sua opinião, que lugar as mulheres ocupam?

As mulheres são a coisa mais bela que Deus fez. A Igreja é mulher. Igreja é uma palavra feminina. Não se pode fazer teologia sem essa feminilidade. Sobre isso, você tem razão, não se fala o suficiente. Estou de acordo que é preciso trabalhar mais sobre a teologia da mulher. Eu já disse isso, e se está trabalhando nesse sentido.

O senhor não entrevê uma certa misoginia de fundo?

O fato é que a mulher foi tirada de uma costela... (ri com gosto). Estou brincando, é uma piada. Estou de acordo que se deve aprofundar mais a questão feminina, senão não se pode entender a própria Igreja.

Podemos esperar do senhor decisões históricas, tipo uma mulher como chefe de dicastério, não digo do clero...

(Risos) Bem, muitas vezes os padres acabam sob a autoridade das perpétuas...

Em agosto, o senhor vai para a Coreia. É a porta para a China? O senhor está apontando para a Ásia?

Vou ir à Ásia duas vezes em seis meses. À Coreia, em agosto, para encontrar os jovens asiáticos. Em janeiro, ao Sri Lanka e às Filipinas. A Igreja na Ásia é uma promessa. A Coreia representa muito, tem às suas costas uma história belíssima, por dois séculos não teve padres, e o catolicismo avançou graças aos leigos. Também houve mártires. Quanto à China, trata-se de um desafio cultural grande. Grandíssimo. E depois há o exemplo de Matteo Ricci, que fez tanto bem...

Onde está indo a Igreja de Bergoglio?

Graças a Deus, eu não tenho nenhuma Igreja, eu sigo a Cristo. Não fundei nada. Do ponto de vista do estilo, não mudei de como eu era em Buenos Aires. Sim, talvez alguma coisinha, porque se deve, mas mudar na minha idade teria sido ridículo. Sobre o programa, ao contrário, eu sigo aquilo que os cardeais pediram durante as congregações gerais antes do conclave. Eu vou nessa direção. O Conselho dos oito cardeais, um organismo externo, nasce daí. Havia sido pedido para que ajudasse a reformar a Cúria. O que, aliás, não é fácil, porque se dá um passo, mas depois surge que é preciso fazer isto ou aquilo, e, se antes havia um dicastério, depois se tornam quatro. As minhas decisões são o resultado das reuniões pré-conclave. Não fiz nada sozinho.

Uma abordagem democrática...

Foram decisões dos cardeais. Eu não sei se é uma abordagem democrática, eu diria mais sinodal, mesmo que a palavra não seja apropriada para os cardeais.

O que o senhor deseja aos romanos pelos patronos São Pedro e São Paulo?

Que continuem sendo bravos. São tão simpáticos. Eu vejo isso nas audiências e quando vou às paróquias. Eu lhes desejo que não percam a alegria, a esperança, a confiança, apesar das dificuldades. O romanaccio [dialeto romano] também é bonito.

Wojtyla tinha aprendido a dizer: Volemose bene, damose da fa'. O senhor aprendeu algumas frases em romanesco?


Por enquanto, pouco. Campa e fa' campa'! (risos).

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Onde nasceu Jesus?


Para Mateus (2:1) e Lucas (2:6-7) a resposta é peremptória: Belém. Já Marcos omite a Natividade. E em João 7:42, Belém é mera referência contextual. Estes dois últimos dos quatro evangelistas sugerem que Jesus nasceu em Nazaré (Marcos 1:9, 1:24, 6:1, 6:4, 10:47, 14:67 e 16:6; João 1:45""46 e 7:40""44). Atos dos Apóstolos faz referências a "Jesus de Nazaré" e a "Jesus Cristo de Nazaré".

Belém ou Nazaré? Para complicar, há hoje uma cidade chamada Belém em Israel e outra no território árabe que Israel ocupa. Quanto a Nazaré, tempestuosa polêmica.

Nem o Velho Testamento nem a Tanakh (Bíblia judaica) nem o Talmud (compêndio doutrinário que suplementa a Tanakh) mencionam a cidade. A mais antiga referência documental a Nazaré data do século 4. Achados arqueológicos em área geodésica onde ela poderia ter existido antes atestam apenas rústico arraial de lavradores.

Já Belém é histórica. Segundo Lucas 2:1-7, censo decretado pelo imperador Augusto exigia que todos os súditos de Roma deveriam alistar-se, cada um na cidade dos ancestrais. Pelo que José teria de ir de Nazaré "[...] à Cidade de Davi, chamada Belém, porque [José] era da casa e família de Davi [...]".

Contudo, gente prática, aos romanos interessava apenas calcular quanto imposto cada contribuinte poderia pagar. Para isso faziam censos, mas regionais, nunca em todo o império. Muito menos com obrigação de cada contribuinte se alistar na cidade dos antepassados. Nenhum chefe de família precisava sair de onde morasse para declarar seus bens.

Por que então José iria sujeitar Maria, em vésperas de parto, a tão perigosa e incômoda viagem –120 quilômetros a pé ou no lombo de cavalgadura, da Galileia à Judeia? Difícil não ver ficção de propaganda nas genealogias e natividades (criadas pelos mesmos dois autores). Objetivo: credenciar Jesus como o Messias.

Os cognomes hebraicos Mashiach ou Mashiah, e o grego Christos, significam "ungido". Aludem ao rito no qual um sacerdote ou profeta besuntava com azeite a cabeça do líder ao consagrá-lo rei. No messianismo judaico, futuramente Mashiah governará o mundo a partir de Jerusalém. Os primeiros cristãos acreditavam que Jesus iria revelar-se no papel escatológico de Messias a qualquer momento.

Na Judeia então ocupada e governada por romanos, quase todo judeu pertencia a uma seita que era também partido nacionalista: essênios, fariseus, saduceus, zelotes. À margem, crescia petulante grupo de judeus heréticos, os "nazarenos", nome de etimologia não gentílica pelo qual judeus referem os cristãos ainda hoje.

Esses protocatólicos proclamavam que Jesus era o Messias das profecias referidas em Miqueias, Isaías, Zacarias e nos Salmos. Pois ele não era divino (como os milagres atestavam), descendente de Davi e nascido em Belém (como garantiam as genealogias e a Natividade)? Até Jesus acreditava (Mateus 26:64, Marcos 14:62, João 4:26 e João 10:23-25), embora nem sempre confiante (Lucas 22:67-68).

Paulo morreu bem antes de sua seita cristã começar a denominar-se católica (do grego, katholikos, "universal"). Mas já então a linha universalista paulina (Cristo para todos, com dispensa de circuncisão) prevalecera sobre a nacionalista de Pedro (cristianismo apenas para judeus circuncidados).

Paulo vacilava quanto a Parusia, a questão teológica da Segunda Vinda de Jesus: Paulo a presenciaria em vida ou ela se daria apenas em futuro indeterminado? Certo é que nenhuma escritura atribuída a Paulo menciona nem Belém nem Nazaré.

Já prospectos de turismo...

ALDO PEREIRA, 81, é ex-editorialista e colaborador especial da Folha. aldopereira.argumento@uol.com.br

Fonte: Folha de São Paulo - Tendências / Debates

domingo, 22 de dezembro de 2013

25 anos sem Chico Mendes - Uma pequena biografia


Quem foi

Chico Mendes (nome completo: Francisco Alves Mendes Filho) foi um dos mais importantes ambientalistas (pessoas que lutam em defesa da preservação do meio ambiente) brasileiros. Nasceu na cidade de Xapuri (estado do Acre) no dia 15 de dezembro de 1944. Trabalhou na região da Amazônia, desde criança, com seu pai, como seringueiro (produzindo borracha). Tornou-se vereador e sindicalista.

Principais momentos de sua vida:

Ü      1975 – É fundado o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia. Chico Mendes aceitou o convite para ser secretário geral da instituição.
Ü      1976 – Começou a organizar os seringueiros para lutarem em defesa da posse de terra.
Ü      1977 – Participou da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. Neste mesmo ano, foi eleito vereador pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro)
Ü      1978 – Começou a receber ameaças dos fazendeiros locais, descontentes com sua atuação sindical.
Ü      1980 – Participou da fundação do Partidos dos Trabalhadores (PT), tornando-se dirigente do partido no estado do Acre. Neste mesmo ano, foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional a pedido de fazendeiros da região, que o acusavam de envolvimento no assassinato de um capataz de uma fazenda. Foi absolvido por falta de provas.
Ü      1981 – Tornou-se presidente do Sindicato de Xapuri.
Ü      1982 – Candidatou-se a deputado estadual pelo PT, porém não conseguiu eleger-se.
Ü      1985 – Organizou o 1º Encontro Nacional de Seringueiros. Participou da fundação do CNS (Conselho Nacional dos Seringueiros). Participou da proposta do “União dos Povos da Floresta”, que previa a união dos interesses dos seringueiros e indígenas na defesa da floresta amazônica.
Ü      1987 – Recebeu em Xapuri uma comissão da ONU (Organização das Nações Unidas), mostrando a devastação causada na floresta amazônica por empresas financiadas pelo BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Após levar as denúncias ao senado dos Estados Unidos, o BID suspendeu os financiamentos a estas empresas.
Ü      1987 – Recebeu vários prêmios na área de ecologia e meio ambiente em função de sua luta em defesa da floresta amazônica e de seus povos nativos. O mais importante destes prêmios foi o “Global 500”, entregue pela ONU.
Ü      1988 – Participou da criação das primeiras reservas extrativistas no Acre. Foi eleito suplente da direção nacional da CUT (Central Única dos Trabalhadores) durante o 3º Congresso Nacional da CUT.
Ü      22 de dezembro de 1988 – Chico Mendes foi assassinado na porta de sua casa. Deixou esposa (Ilzamar Mendes) e dois filhos pequenos (Sandino e Elenira).

***

Bibliografia indicada:

Chico Mendes - um povo da floresta
Autor: Martins, Edilson
Editora: Garamond
Temas: Biografia, Memórias, Meio Ambiente

Chico Mendes
Autor: Criado, Alex
Editora: Salesiana
Temas: Biografia, Meio Ambiente

A História de Chico Mendes para crianças
Autor: Reis, Fátima
Editora: Prumo

Temas: Biografia, Educação Ambiental

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Cristo, um rei servidor


Devemos redefinir a realeza, caso quisermos aplicá-la ao Cristo ressuscitado na Igreja de hoje.

A reflexão é de Raymond Gravel, padre da Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel, comentando as leituras do 34º Domingo do Tempo Comum – Ciclo C do Ano Litúrgico (24 de novembro de 2013). A tradução é de André Langer.

Referência bíblica:
Evangelho: Lc 23,35-43

Eis o texto.

Festejar Cristo, Rei do Universo, é uma outra maneira de celebrar a Páscoa. Essa festa termina bem o ano litúrgico. Sem morte-ressurreição, a festa de hoje não teria nenhum sentido. De que realeza estamos falando? Que tipo de rei reconhecemos? Como dizia o biblista Jean-Pierre Prévost: “Para ser honesto com vocês, devo dizer francamente que não tenho nenhuma prelileção particular pela realeza e que, em si, o título de rei aplicado a Jesus não é aquele que mais me inspira”. Por essa razão, devemos redefinir a realeza, caso quisermos aplicá-la ao Cristo ressuscitado na Igreja de hoje; caso contrário, corremos o risco de associar Cristo a um monarca igual a todos os outros e que nos faria perder de vista o que Cristo foi e ainda é na Igreja de hoje. Infelizmente, alguns dirigentes da Igreja com frequência confundiram a realeza de Cristo com aquela dos homens, a ponto de deformar o rosto de Jesus. Felizmente, em cada época, houve discípulos, homens e mulheres, que souberam devolver ao Cristo a sua verdadeira realeza, que consiste em servir e não em ser servido.

1. A problemática da realeza

Jean-Pierre Prévost escreve: “A história da realeza em Israel começou mal. Foi a contragosto que o profeta Samuel acabou por consagrar Saul primeiro rei de Israel, para responder à demanda do povo que queria ser como todas as outras nações” (1 Sm 8,5). Podemos acrescentar que esse não teve um sucesso real. E por quê? Simplesmente porque o poder corrompe e o prestígio sobe à cabeça daqueles que exercem o poder. É evidente que na história de Israel houve reis melhores que outros; pensemos em Davi ou em Salomão. Mas esses dois reis, que a tradição bíblica soube embelezar, tornando-os símbolos idílicos, a história mostra que também eram muito humanos, portanto, limitados e pecadores.

No fundo, a Bíblia nos ensina que Deus não queria reis, porque a experiência da realeza era bastante negativa e a história de Israel é a prova disso, uma vez que a realeza não durou mais do que 400 anos e terminou de maneira trágica com o exílio de Sedecias para a Babilônia. O que Deus queria era um rei servidor e não um príncipe que dirige e que explora o seu povo. Esta má experiência da realeza permitiu ao povo de Israel purificar sua fé e imaginar um rei ideal, que seria um verdadeiro pastor e que viria estabelecer um reino de justiça e de paz a serviço dos pobres e dos desafortunados. Esse rei nós o reconhecemos no Cristo Pascal.

2. Cristo, Rei do Universo

Foi somente em 1925 que nasceu esta festa e não é pelas mesmas razões que nós continuamos a celebrá-la hoje. Jesus nunca se declarou rei; pelo contrário, o evangelho nos ensina que esse título foi dado a ele de maneira irônica e sarcástica por um rei, Herodes, e por um representante de César, Pôncio Pilatos... Jesus se defendeu: “Pilatos disse a Jesus: ‘Então tu és rei?’ Jesus respondeu: ‘Você está dizendo que eu sou rei’” (Jo 18,37a). Por outro lado, se dizemos que Cristo é rei, é porque reconhecemos nele o servidor que quis estabelecer o reino de justiça e de paz, tão desejado pelos homens e pelas mulheres do seu tempo. Mas ele não tem nada de outro rei: seu trono é a cruz; sua coroa é de espinhos e seu cetro é seu bastão de pastor. O evangelho de Lucas o apresenta, ao mesmo tempo, como um rei sem poder – “Se tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo” (Lc 23,37) – e como um rei muito humano, de sorte que o ladrão crucificado com ele que o interpela, não lhe diz: Majestade ou Senhor, ou Mestre ou ainda Sua Santidade ou Monsenhor... Não! Ele o chama de Jesus: “Jesus, lembra-te de mim quando vieres em teu Reino” (Lc 23,42). Esse bandido torna-se o primeiro sujeito do Reino: “Eu lhe garanto: hoje mesmo você estará comigo no Paraíso” (Lc 23,43). É o que fez São João Crisóstomo dizer: “Fiel à sua profissão de ladrão, ele rouba por sua confissão o reino dos céus”.

3. Atualização

Atualmente, temos necessidade de reler este evangelho para celebrar Cristo, Rei do Universo. É preciso nos perguntar: como sociedade e como Igreja, que tipo de rei apresentamos? Que rosto de Cristo mostramos às mulheres e aos homens do nosso tempo? Quantos políticos e lideranças da Igreja exercem o seu poder como monarcas déspotas e cruéis que têm coração muito mais para enriquecer do que servir a coletividade, a comunidade? Na Igreja, quantas dores foram infligidas aos cristãos(as) por lideranças principescas que acreditaram ser os únicos detentores da verdade?

Há alguns anos, o Papa João Paulo II pediu perdão pela Igreja do Renascimento; o cardeal Marc Ouellet fez o mesmo pela Igreja de Quebec antes de 1960, por todos os sofrimentos infligidos às mulheres, aos autóctones, aos judeus, às crianças, aos homossexuais... A reação das pessoas foi muito negativa. Homens, mulheres, membros do clero criticaram duramente tanto o Papa como o cardeal. Diziam que seu perdão era incompleto e condicional; não acreditavam em sua sinceridade. De sorte que o jornalista do jornal Presse, Alain Dubuc, resumiu bem o pensamento de muitos quebequenses sobre o cardeal Marc Ouellet, durante sua passagem pela Comissão Bouchard-Taylor, em 2007. Ele escreve: “Com seu ardor e sua carta de perdão, o cardeal Ouellet conseguiu nos lembrar porque os quebequenses rejeitaram em massa e tão brutalmente a sua Igreja durante os anos 1960. As reações foram muito vivas, porque Ouellet, com sua rigidez e sua arrogância, nos mergulha novamente neste período que os mais velhos dentre nós querem esquecer. Ouellet, eu o digo pesando minhas palavras, após uma leitura atenta das suas intervenções públicas, é um reacionário no sentido mais forte da palavra, alguém que se insurge contra a evolução da sociedade que o cerca, que quer resistir às mudanças e que defende as práticas e os valores que pertencem ao passado”.

Pessoalmente, acredito sinceramente que algumas lideranças eclesiais de hoje fazem muito mais mal à Igreja do que a ajudam; eles encarnam esta Igreja que os quebequenses não querem mais: uma Igreja dogmática e doutrinal que sempre exclui as mulheres, uma Igreja homofóbica que condena os homossexuais, uma Igreja obcecada pela sexualidade, uma Igreja que rejeita aquelas e aqueles que vivem um fracasso em seu casamento e que querem continuar a amar, uma Igreja que acredita ser a única detentora da verdade sobre Deus e sobre o mundo, uma Igreja que recusa qualquer evolução e qualquer mudança na sociedade, uma Igreja que não está a serviço do povo de Deus, mas que se serve dos cristãos para aumentar seu prestígio e seu poder. Com uma Igreja assim, estamos longe do Evangelho e, como durante muito tempo encontramos nela esses príncipes, não deveríamos nos surpreender ao ver mulheres e homens se afastarem desta instituição que lhes parece completamente ultrapassada. Felizmente, há o Papa Francisco que nos faz ter esperança e que se junta a todos os bispos, padres religiosos(as), cristãos que continuam a acreditar e que tanto gostariam de viver o evangelho hoje, apresentando um rosto de Cristo amável, misericordioso, tolerante, aberto, livre, justo, respeitoso do outro, dos outros, compassivo: um rosto de Cristo que faz o homem e a mulher na Quebec de hoje ter esperança.

Concluindo, eu gostaria de citar novamente o Alain Dubuc em sua reflexão sobre a Igreja e sua aproximação negativa ao cardeal Marc Ouellet:

“De acordo com o cardeal Ouellet, um povo não pode se esvaziar tão rapidamente da sua essência sem consequências graves. De onde a confusão da juventude, a queda vertiginosa dos casamentos, a taxa ínfima de natalidade e o número espantoso de abortos e de suicídios para elencar apenas algumas das consequência que se somam às condições precárias dos idosos e da saúde pública. Esse retrato apocalíptico apaga convenientemente as misérias desta época passada, os efeitos da pobreza e da ignorância. Ele atribui à revolução silenciosa um fenômeno que encontramos em todas as partes do Ocidente. E o mais importante, ele se esquece de perguntar se este abandono brutal da religião não se deve às falhas da Igreja mais do que aos complôs dos artistas da revolução silenciosa.

A Igreja, em vez de acompanhar seus fiéis em um período de mudanças difíceis, os abandona, orgulhosa de sua rigidez, e dessa maneira falha em sua missão. Outras Igrejas, portadoras dos mesmos valores, escolheram um outro caminho, especialmente os anglicanos, nossa Igreja irmã, onde os padres são casados, onde se ordena mulheres e onde o casamento gay começa, com dificuldades, a ser aceito.

De fato, o que é mais prejudicial é que a alternativa de Ouellet, uma iniciativa individual, compromete o verdadeiro diálogo no qual se engajaram muitos de seus colegas. Mas seria assombroso se tivesse um grande impacto, eleitoral ou qualquer outro, porque o cardeal está se tornando num personagem marginal para os menores de 70 anos. Exceto para nos lembrar porque a separação entre a Igreja e o Estado é tão boa”.

Fonte: Unisinos

22 de novembro de 2013

terça-feira, 19 de novembro de 2013

O país de Caça-Rato


Amigo torcedor, amigo secador, no país de Caça-Rato, símbolo da sobrevivência e herói do time do Santa Cruz, tudo é diferente da fantasia e da modernidade que tentam nos vender a cada instante, a cada clique, a cada moda. No país de Caça-Rato, o menino Paulo Henrique, 9, nada de braçada no esgoto do canal do Arruda, como na foto de Diego Nigro (JC Imagem), que assombrou o mundo esta semana.

No país de Caça-Rato, alguns, como o próprio jogador, escapam graças ao futebol, ao funk, ao rap, ao pagode. Muitos outros ficam no caminho, caça-ratinhos fadados ao limbo dos refugos humanos ou às balas nada perdidas da polícia --quase sempre morte matada antes dos 30.

No país de Caça-Rato, vale o libelo da música de Chico Science, no rastro das imagens do médico e escritor Josué de Castro (1908-73): o homem-caranguejo saiu do mangue e virou gabiru.

No país de Caça-Rato, as vidas são desperdiçadas, velho Bauman, muito mais do que nos exemplos do teu livro sobre o tema. No país de Caça-Rato só há o barulho dos roedores em sinfonia (wagneriana) com a denúncia permanente das tripas.

Neste país, não se diz estou abaixo da linha da pobreza ou qualquer outra frieza estatística, neste país se diz simplesmente "tô no rato", o mesmo que estar lascado como um maxixe em cruz. O mesmo que estar na pele daquele roedor da fábula de Kafka, o bicho que vê o mundo cada vez mais estreito, sem saída à esquerda e muito menos à direita, restando apenas recorrer à orientação de um gato para não cair na ratoeira. O gato o orienta, civilizadamente, mas o abocanha na sequência.

No país de Caça-Rato, tudo é mesmo diferente. Estádio não é arena, não se sabe quem governa, e o Santa Cruz é muito mais que a seleção Brasileira. É a pátria dos pés-descalços, ouviram do canal do Arruda às margens fétidas e baldeadas.

O dialeto que se fala neste país não entra no Aurélio, mas sim no Liêdo, um sábio recifense, autor, entre outras joias, de "O Povo, o Sexo, a Miséria ou o Homem é Sacana".

A alta gastronomia no país de Caça-Rato tem o aruá, o sururu --já bem escasso e artigo de luxo--, o mingau de cachorro e o caroço de jaca assado na brasa. O rei do camarote neste país sem fronteiras é conhecido como cafuçu, o avesso do playboy, mas uma criatura que capricha no estilo dentro das suas posses. O jogador do Santa Cruz que dá nome a este país é o príncipe dos cafuçus.

No reino de Caça-Rato, o menino que nada no esgoto no canal do Arruda é apenas uma foto que assombra a classe média. Não se fala outra coisa no país de Caça-Rato: que gente mais besta e limpinha, por que tanto barulho sobre uma cena tão repetida diariamente? O país de Caça-Rato sabe que daqui a pouco ninguém mais se lembra. O país de Caça-Rato funciona à prova de padrão Fifa.

xico sá

Xico Sá, jornalista e escritor, com humor e prosa, faz a coluna para quem "torce". É autor de "Modos de Macho & Modinhas de Fêmea" e "Chabadabadá - Aventuras e Desventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha", entre outros livros. Na Folha, foi repórter especial. Na TV, participa dos programas "Cartão Verde" (Cultura) e "Saia Justa" (GNT). Mantém blog e escreve às sextas, a cada quatro semanas, na versão impressa de "Esporte". [09/11/2013]

@xicosa

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Jovem negro tem 3,7 vezes mais chances de ser morto no Brasil


Segundo o Ipea, os dados mostram que, ao nascer no Brasil, o homem negro perde 1,73 ano de expectativa de vida por causa da violência, enquanto que para o branco esse número cai para 0,71.

A reportagem é da Agência Estado, 17-10-2013.

Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre racismo no Brasil divulgado nesta quinta-feira, 17, revelou que a possibilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior do que um branco. Pelo levantamento, a expectativa de vida de um homem brasileiro negro é menos que a metade a de um branco.

Os dados mostram que, ao nascer no Brasil, o homem negro perde 1,73 ano de expectativa de vida por causa da violência, enquanto que para o branco esse número cai para 0,71. As informações são baseadas em um dos textos constantes no boletim. No artigo Segurança Pública e Racismo Institucional, os autores Almir de Oliveira Júnior e Verônica Couto de Araújo Lima, respectivamente pesquisador da Diretoria de Estudos e Políticas do Estado das Instituições e da Democracia (Diest) do Instituto e acadêmica da área de Direitos Humanos da Universidade de Brasília (UnB), falam da desigualdade de acesso à segurança entre brancos e negros.

A conclusão é que a cor aumenta a vulnerabilidade dos negros, que correm 8% mais chances de se tornar vítimas de homicídio que um homem branco, ainda que nas mesmas condições de escolaridade e características socioeconômicas. O estudo aponta que, mais de 60 mil pessoas são assassinadas todos os anos no Brasil, e que a cada três pessoas mortas de forma violenta, duas são negras.

A taxa de homicídio de negros é de 36,5 para 100 mil habitantes, com base em dados de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cruzados com informações do Ministério da Saúde. No caso dos brancos, esse número cai para 15,5. Ao se somar a população residente nos 226 municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes, calcula-se que a possibilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior em comparação com os brancos.

Ao levar em conta agressões por parte de policiais, os negros também são as vítimas em potencial. Segundo a Pesquisa Nacional de Vitimização, 6,5% dos negros que sofreram uma agressão em 2009, um ano antes de o IBGE coletar os dados que serviram de base para a pesquisa. O Ipea classificou esse comportamento como racismo institucional, mas os pesquisadores acreditam que o comportamento reflete as posições de diversos outros grupos sociais.


Essas diferenças, apontou o Ipea, levam menos negros a buscar ajuda policial em caso de agressão que os brancos. Enquanto apenas 38,2% dos brancos não procuram a polícia nesses casos, esse porcentual sobe para 61,8% quando se trata de negros. As informações vão constar em um mapa do racismo no País, que deverá ser divulgado no próximo mês. O boletim contém ainda seis outros artigos que tratam de temas como segurança pública, pacificação de favelas e manifestações de junho.