Devemos redefinir a
realeza, caso quisermos aplicá-la ao Cristo ressuscitado na Igreja de hoje.
A reflexão é de Raymond Gravel, padre da
Diocese de Joliette, Canadá, e publicada no sítio Réflexions de Raymond Gravel,
comentando as leituras do 34º Domingo do Tempo Comum – Ciclo C do Ano Litúrgico
(24 de novembro de 2013). A tradução é de André Langer.
Referência bíblica:
Evangelho: Lc 23,35-43
Eis o texto.
Festejar Cristo, Rei do Universo, é uma outra
maneira de celebrar a Páscoa. Essa festa termina bem o ano litúrgico. Sem
morte-ressurreição, a festa de hoje não teria nenhum sentido. De que realeza
estamos falando? Que tipo de rei reconhecemos? Como dizia o biblista Jean-Pierre
Prévost: “Para ser honesto com vocês, devo dizer francamente que não tenho
nenhuma prelileção particular pela realeza e que, em si, o título de rei
aplicado a Jesus não é aquele que mais me inspira”. Por essa razão, devemos
redefinir a realeza, caso quisermos aplicá-la ao Cristo ressuscitado na Igreja
de hoje; caso contrário, corremos o risco de associar Cristo a um monarca igual
a todos os outros e que nos faria perder de vista o que Cristo foi e ainda é na
Igreja de hoje. Infelizmente, alguns dirigentes da Igreja com frequência
confundiram a realeza de Cristo com aquela dos homens, a ponto de deformar o
rosto de Jesus. Felizmente, em cada época, houve discípulos, homens e mulheres,
que souberam devolver ao Cristo a sua verdadeira realeza, que consiste em
servir e não em ser servido.
1. A problemática da realeza
Jean-Pierre Prévost escreve: “A história da
realeza em Israel começou mal. Foi a contragosto que o profeta Samuel acabou
por consagrar Saul primeiro rei de Israel, para responder à demanda do povo que
queria ser como todas as outras nações” (1 Sm 8,5). Podemos acrescentar que
esse não teve um sucesso real. E por quê? Simplesmente porque o poder corrompe
e o prestígio sobe à cabeça daqueles que exercem o poder. É evidente que na
história de Israel houve reis melhores que outros; pensemos em Davi ou em
Salomão. Mas esses dois reis, que a tradição bíblica soube embelezar,
tornando-os símbolos idílicos, a história mostra que também eram muito humanos,
portanto, limitados e pecadores.
No fundo, a Bíblia nos ensina que Deus não
queria reis, porque a experiência da realeza era bastante negativa e a história
de Israel é a prova disso, uma vez que a realeza não durou mais do que 400 anos
e terminou de maneira trágica com o exílio de Sedecias para a Babilônia. O que
Deus queria era um rei servidor e não um príncipe que dirige e que explora o
seu povo. Esta má experiência da realeza permitiu ao povo de Israel purificar
sua fé e imaginar um rei ideal, que seria um verdadeiro pastor e que viria
estabelecer um reino de justiça e de paz a serviço dos pobres e dos
desafortunados. Esse rei nós o reconhecemos no Cristo Pascal.
2. Cristo, Rei do Universo
Foi somente em 1925 que nasceu esta festa e não
é pelas mesmas razões que nós continuamos a celebrá-la hoje. Jesus nunca se
declarou rei; pelo contrário, o evangelho nos ensina que esse título foi dado a
ele de maneira irônica e sarcástica por um rei, Herodes, e por um representante
de César, Pôncio Pilatos... Jesus se defendeu: “Pilatos disse a Jesus: ‘Então tu
és rei?’ Jesus respondeu: ‘Você está dizendo que eu sou rei’” (Jo 18,37a). Por
outro lado, se dizemos que Cristo é rei, é porque reconhecemos nele o servidor
que quis estabelecer o reino de justiça e de paz, tão desejado pelos homens e
pelas mulheres do seu tempo. Mas ele não tem nada de outro rei: seu trono é a
cruz; sua coroa é de espinhos e seu cetro é seu bastão de pastor. O evangelho
de Lucas o apresenta, ao mesmo tempo, como um rei sem poder – “Se tu és o rei
dos judeus, salva-te a ti mesmo” (Lc 23,37) – e como um rei muito humano, de
sorte que o ladrão crucificado com ele que o interpela, não lhe diz: Majestade
ou Senhor, ou Mestre ou ainda Sua Santidade ou Monsenhor... Não! Ele o chama de
Jesus: “Jesus, lembra-te de mim quando vieres em teu Reino” (Lc 23,42). Esse
bandido torna-se o primeiro sujeito do Reino: “Eu lhe garanto: hoje mesmo você
estará comigo no Paraíso” (Lc 23,43). É o que fez São João Crisóstomo dizer:
“Fiel à sua profissão de ladrão, ele rouba por sua confissão o reino dos céus”.
3. Atualização
Atualmente, temos necessidade de reler este
evangelho para celebrar Cristo, Rei do Universo. É preciso nos perguntar: como
sociedade e como Igreja, que tipo de rei apresentamos? Que rosto de Cristo
mostramos às mulheres e aos homens do nosso tempo? Quantos políticos e
lideranças da Igreja exercem o seu poder como monarcas déspotas e cruéis que
têm coração muito mais para enriquecer do que servir a coletividade, a
comunidade? Na Igreja, quantas dores foram infligidas aos cristãos(as) por
lideranças principescas que acreditaram ser os únicos detentores da verdade?
Há alguns anos, o Papa João Paulo II pediu
perdão pela Igreja do Renascimento; o cardeal Marc Ouellet fez o mesmo pela
Igreja de Quebec antes de 1960, por todos os sofrimentos infligidos às
mulheres, aos autóctones, aos judeus, às crianças, aos homossexuais... A reação
das pessoas foi muito negativa. Homens, mulheres, membros do clero criticaram
duramente tanto o Papa como o cardeal. Diziam que seu perdão era incompleto e
condicional; não acreditavam em sua sinceridade. De sorte que o jornalista do
jornal Presse, Alain Dubuc, resumiu bem o pensamento de muitos quebequenses
sobre o cardeal Marc Ouellet, durante sua passagem pela Comissão
Bouchard-Taylor, em 2007. Ele escreve: “Com seu ardor e sua carta de perdão, o
cardeal Ouellet conseguiu nos lembrar porque os quebequenses rejeitaram em
massa e tão brutalmente a sua Igreja durante os anos 1960. As reações foram
muito vivas, porque Ouellet, com sua rigidez e sua arrogância, nos mergulha novamente
neste período que os mais velhos dentre nós querem esquecer. Ouellet, eu o digo
pesando minhas palavras, após uma leitura atenta das suas intervenções
públicas, é um reacionário no sentido mais forte da palavra, alguém que se
insurge contra a evolução da sociedade que o cerca, que quer resistir às
mudanças e que defende as práticas e os valores que pertencem ao passado”.
Pessoalmente, acredito sinceramente que algumas
lideranças eclesiais de hoje fazem muito mais mal à Igreja do que a ajudam;
eles encarnam esta Igreja que os quebequenses não querem mais: uma Igreja
dogmática e doutrinal que sempre exclui as mulheres, uma Igreja homofóbica que
condena os homossexuais, uma Igreja obcecada pela sexualidade, uma Igreja que
rejeita aquelas e aqueles que vivem um fracasso em seu casamento e que querem
continuar a amar, uma Igreja que acredita ser a única detentora da verdade
sobre Deus e sobre o mundo, uma Igreja que recusa qualquer evolução e qualquer
mudança na sociedade, uma Igreja que não está a serviço do povo de Deus, mas
que se serve dos cristãos para aumentar seu prestígio e seu poder. Com uma
Igreja assim, estamos longe do Evangelho e, como durante muito tempo
encontramos nela esses príncipes, não deveríamos nos surpreender ao ver
mulheres e homens se afastarem desta instituição que lhes parece completamente
ultrapassada. Felizmente, há o Papa Francisco que nos faz ter esperança e que
se junta a todos os bispos, padres religiosos(as), cristãos que continuam a
acreditar e que tanto gostariam de viver o evangelho hoje, apresentando um
rosto de Cristo amável, misericordioso, tolerante, aberto, livre, justo,
respeitoso do outro, dos outros, compassivo: um rosto de Cristo que faz o homem
e a mulher na Quebec de hoje ter esperança.
Concluindo, eu gostaria de citar novamente o
Alain Dubuc em sua reflexão sobre a Igreja e sua aproximação negativa ao
cardeal Marc Ouellet:
“De acordo com o
cardeal Ouellet, um povo não pode se esvaziar tão rapidamente da sua essência
sem consequências graves. De onde a confusão da juventude, a queda vertiginosa
dos casamentos, a taxa ínfima de natalidade e o número espantoso de abortos e
de suicídios para elencar apenas algumas das consequência que se somam às
condições precárias dos idosos e da saúde pública. Esse retrato apocalíptico
apaga convenientemente as misérias desta época passada, os efeitos da pobreza e
da ignorância. Ele atribui à revolução silenciosa um fenômeno que encontramos
em todas as partes do Ocidente. E o mais importante, ele se esquece de
perguntar se este abandono brutal da religião não se deve às falhas da Igreja
mais do que aos complôs dos artistas da revolução silenciosa.
A Igreja, em vez de
acompanhar seus fiéis em um período de mudanças difíceis, os abandona,
orgulhosa de sua rigidez, e dessa maneira falha em sua missão. Outras Igrejas,
portadoras dos mesmos valores, escolheram um outro caminho, especialmente os
anglicanos, nossa Igreja irmã, onde os padres são casados, onde se ordena
mulheres e onde o casamento gay começa, com dificuldades, a ser aceito.
De fato, o que é mais
prejudicial é que a alternativa de Ouellet, uma iniciativa individual,
compromete o verdadeiro diálogo no qual se engajaram muitos de seus colegas.
Mas seria assombroso se tivesse um grande impacto, eleitoral ou qualquer outro,
porque o cardeal está se tornando num personagem marginal para os menores de 70
anos. Exceto para nos lembrar porque a separação entre a Igreja e o Estado é
tão boa”.
Fonte: Unisinos
22 de novembro de 2013


